
Uma turma de estudantes na Alemanha resolveu dar um destino incomum a um antigo material utilizado nas aulas de biologia: organizar o enterro do esqueleto que, durante anos, serviu para ensinar anatomia dentro da escola. As informações são da DW.
Niran, o esqueleto
Batizado pelos alunos de Niran, o conjunto ósseo chamava atenção por um detalhe que o diferenciava dos modelos modernos feitos de resina ou plástico. Ele pertencia a uma pessoa de verdade e, segundo investigações realizadas pela instituição, provavelmente era de um homem originário da Índia.
A descoberta levou os estudantes a refletirem sobre a trajetória daquele material didático e sobre a forma como restos mortais humanos foram comercializados ao longo da história. O caso acabou extrapolando as aulas de biologia e passou a ser debatido também em disciplinas como ética.

A história de Niran, porém, está longe de ser um episódio isolado. Durante quase dois séculos, uma ampla rede comercial abasteceu universidades e escolas do Ocidente com esqueletos vindos da Índia, movimentando milhões de dólares.
O crescimento acelerado da medicina entre os séculos XVIII e XIX aumentou significativamente a necessidade de corpos para pesquisas e estudos anatômicos. Em diversos países europeus e também nos Estados Unidos, instituições utilizavam cadáveres de pessoas pobres que não eram reclamados por familiares e de condenados à morte.
A prática gerava forte rejeição social e religiosa, provocando protestos e revoltas populares. Mesmo com tentativas de regulamentação por parte dos governos, a procura continuava superior à oferta legal, favorecendo mercados clandestinos.
Foi nesse contexto que o Império Britânico passou a recorrer à Índia, então sua colônia, como uma importante fonte de corpos e ossadas. A instalação de escolas médicas administradas pelos britânicos impulsionou ainda mais esse comércio, que permaneceu ativo até, pelo menos, meados da década de 1980.
Apesar do fim oficial das exportações, muitos desses esqueletos continuam presentes em instituições de ensino ao redor do mundo. Uma pesquisa realizada na cidade alemã de Hamburgo aponta que cerca de 40% das escolas ainda utilizam exemplares originários da Índia.
Impactados pela história de Niran, os estudantes decidiram prestar uma última homenagem ao antigo companheiro de sala. Com apoio da professora responsável e de um serviço funerário local, organizaram uma cerimônia de sepultamento para garantir que os restos mortais recebessem um descanso definitivo.
