O setor aéreo brasileiro volta a acender um sinal de alerta em meio à alta dos combustíveis, à pressão de custos e ao ambiente regulatório considerado desafiador pelas companhias. Em meio a esse cenário, o CEO da Azul Linhas Aéreas, John Rodgerson, defendeu, em entrevista à BM&C News, mudanças no tratamento regulatório e jurídico da aviação no país.
A preocupação ocorre em um momento em que o setor discute os impactos do custo do querosene de aviação sobre a oferta de voos, tarifas e demanda. Segundo reportagem publicada pelo Estadão, o mercado aéreo pode perder 10 milhões de passageiros em 2026 diante da alta dos combustíveis, em um ambiente de maior pressão sobre os custos das companhias.
Para Rodgerson, porém, o problema do setor no Brasil vai além do combustível. O executivo aponta uma combinação de fatores que limita o crescimento da aviação: judicialização elevada, custo operacional alto e dificuldade de acesso a crédito.
Judicialização e papel da Anac
Na avaliação do CEO da Azul, um dos principais caminhos para reduzir inseguranças no setor é fortalecer o papel da Agência Nacional de Aviação Civil. A discussão passa pela aplicação da Resolução 400 da Anac e pela convivência entre regras regulatórias e normas de defesa do consumidor.
Segundo ele, a agência reguladora conhece as particularidades da aviação e deveria ter maior protagonismo na definição das regras aplicáveis ao setor. Para o executivo, a existência de normas conflitantes aumenta a imprevisibilidade para as empresas.
“A Anac tem as regras dela que nós temos que obedecer. E o que tem acontecido é que tem leis conflitantes”, explicou Rodgerson.
O CEO da Azul também afirmou que o volume de processos judiciais no Brasil cria um ambiente de distorção em relação ao restante do mundo. Na visão dele, a judicialização se tornou um dos principais obstáculos para a entrada de novos competidores e para a expansão da malha aérea.
“O Brasil tem 3% dos voos no mundo, 98% dos processos judiciais do mundo”, declarou Rodgerson.
Combustível caro e falta de crédito travam o setor
Além da judicialização, Rodgerson apontou o custo do combustível como uma das maiores barreiras para a aviação brasileira. O executivo afirmou que o país permanece menos competitivo em relação a outros mercados, mesmo tendo produção de petróleo e capacidade de refino.
Ao comentar a possibilidade de entrada de novas companhias sul-americanas no Brasil, o CEO da Azul disse que o mercado brasileiro já está aberto há anos, mas não conseguiu atrair novos operadores de forma relevante.
“O mercado brasileiro está aberto há mais do que sete anos. E ninguém veio. Por que ninguém veio para o Brasil?”, questionou Rodgerson.
Mesmo diante do ambiente mais desafiador, Rodgerson afirmou que a Azul mantém foco em sua própria estratégia de operação. O executivo citou Campinas, Confins, Recife e Curitiba como praças prioritárias para a companhia.
“Nós estamos super focados no nosso plano. Nosso plano é fortalecer Campinas, Confins, Recife, Curitiba”, disse Rodgerson.
A estratégia reforça a busca da Azul por eficiência em hubs considerados centrais para sua malha. A companhia tem uma atuação relevante em rotas regionais e em conexões fora do eixo mais tradicional da aviação brasileira, o que aumenta a sensibilidade da operação a custos como combustível, manutenção e financiamento.
Rodgerson também afirmou que não está concentrado nas movimentações de concorrentes, mas na execução interna da companhia.
“Eu não estou focado no que Gol e Latam estão fazendo. Estou focado em como a Azul pode ser cada dia melhor e mais rentável”, afirmou Rodgerson.
Concorrência e novas empresas no Brasil
A possível entrada de novas companhias estrangeiras ou sul-americanas no mercado brasileiro tem sido discutida pelo governo federal como uma forma de ampliar a concorrência e reduzir preços ao consumidor. Para Rodgerson, porém, qualquer novo competidor terá de lidar com as mesmas condições estruturais enfrentadas pelas empresas nacionais.
“Se alguém mais entra no Brasil, eles vão ter as mesmas regras”, observou Rodgerson.
O executivo afirmou que a competição é bem-vinda, desde que haja isonomia regulatória e condições equivalentes para todos os operadores. Segundo ele, o ponto central não é apenas abrir o mercado, mas tornar o ambiente mais eficiente para que novas empresas consigam operar de forma sustentável.
“Eu acho que se todo mundo tem as mesmas regras, vai ser divertido concorrer com todo mundo”, disse Rodgerson.
A fala resume o diagnóstico do setor: a abertura de mercado, por si só, não resolve os gargalos da aviação brasileira. Para que a concorrência aumente de forma consistente, empresas defendem avanços em regulação, redução de custos e maior segurança jurídica.
Setor aéreo busca fôlego para voltar a crescer
O alerta sobre perda de passageiros reforça a pressão sobre a aviação em 2026. Se o combustível seguir em patamar elevado, as companhias podem ter menos espaço para ampliar oferta e manter tarifas competitivas, especialmente em rotas de menor densidade.
No caso da Azul, a estratégia passa por proteger os principais centros de operação, buscar rentabilidade e defender mudanças estruturais no ambiente regulatório. Para Rodgerson, o Brasil tem potencial para expandir o mercado aéreo, mas precisa enfrentar problemas que tornam a operação mais cara e menos previsível.
A discussão envolve não apenas companhias aéreas, mas também turismo, mobilidade, integração regional e desenvolvimento econômico. Em um país continental, o custo de voar afeta diretamente a conexão entre cidades, empresas e consumidores.
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