Igreja mais alta do mundo guarda segredos da engenharia antiga

Basílica da Sagrada Família é a igreja mais alta do mundoReprodução/Vatican News

A Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, na Espanha, se tornou oficialmente a igreja mais alta do mundo após a instalação da parte superior da cruz no topo da Torre Central de Jesus Cristo, em 20 de fevereiro de 2026. Além do recorde de altura, a obra guarda técnicas de engenharia e arquitetura desenvolvidas ao longo de mais de um século de construção.

Com a instalação da peça, o templo alcançou 172,5 metros de altura. Essa marca também representou a conclusão da parte externa da basílica, encerrando uma obra iniciada há 144 anos, justamente em 2026, ano em que se completam 100 anos da morte do arquiteto Antoni Gaudí. 

Mesmo que a marca tenha sido confirmada em fevereiro de 2026 pelo Guinness World Records, a Sagrada Família já havia assumido o posto de igreja mais alta do mundo em 31 de outubro de 2025. Naquele momento, a instalação de uma parte da torre elevou a altura do templo para 162,91 metros, superando os 161,53 metros da Catedral de Ulm, na Alemanha, que mantinha o recorde desde 1890.

Mesmo com o exterior concluído, os trabalhos internos ainda devem continuar por cerca de dois anos.

Sagrada FamíliaReprodução/Sagrada Família

Reaproveitamento de material

A Sagrada Família começou a ser construída em 19 de março de 1882. O projeto foi desenvolvido por Antoni Gaudí, que imaginava uma obra de longa duração, inspirada nas grandes catedrais da Europa construídas durante a Idade Média.

Durante muitos anos, a construção avançou lentamente, mas, a partir dos anos 2000, novas tecnologias ajudaram a acelerar o trabalho. Equipamentos modernos, programas de computador e máquinas capazes de cortar e moldar pedras com precisão passaram a ser utilizados na obra.

Grande parte da identidade da Sagrada Família está ligada à pedra de Montjuïc, uma montanha localizada em Barcelona. Esse material foi usado durante séculos em diversas construções importantes da cidade, incluindo igrejas, muralhas e prédios históricos.

A pedra também fez parte das primeiras etapas da construção da basílica. No entanto, as pedreiras que forneciam o material foram fechadas em 1957, tornando a obtenção dessa pedra cada vez mais difícil.

Com a falta do material, a equipe da obra começou a reaproveitar pedras retiradas de edifícios demolidos em Barcelona. Partes de antigas construções militares, do edifício Miramar e de outros imóveis da cidade foram incorporadas à basílica.

Novas remessas dessas pedras reaproveitadas continuaram chegando ao templo até o fim da década de 1980. Com o passar do tempo, a quantidade disponível diminuiu e o material restante passou a ser reservado para áreas consideradas mais importantes, especialmente as partes históricas da construção.

Rochas eram extraídas da montanha de MontjuïcReprodução/Sagrada Família
  • CONFIRA: Lego lança edição Sagrada Família com mais de 12 mil peças

Inspiração na natureza

Gaudí também rompeu com os modelos tradicionais das grandes catedrais de sua época. Em vez de utilizar arcobotantes, estruturas externas de apoio comuns em igrejas góticas, ele buscou criar um edifício capaz de sustentar seu próprio peso por meio de formas inspiradas na natureza e em princípios matemáticos.

Em vez de depender de grandes estruturas externas para sustentar o prédio, como ocorre em muitas catedrais antigas, Gaudí criou um sistema interno inspirado nas árvores. As colunas se dividem em várias direções, ajudando a distribuir o peso da construção.

Para desenvolver esse sistema, o arquiteto se inspirou nos chamados arcos catenários, uma construção extremamente estável e eficiente na distribuição do peso. Gaudí utilizou esse princípio para definir as formas das colunas e da estrutura da basílica.

Sagrada FamíliaReprodução/Sagrada Família

Ao longo dos anos, ele foi eliminando elementos que considerava desnecessários, mantendo apenas os suportes essenciais. O resultado foi um interior mais aberto e leve de se olhar, embora capaz de sustentar o enorme peso das torres e da cobertura do templo.

Durante o desenvolvimento da Torre da Virgem Maria e da Torre de Jesus Cristo, os engenheiros concluíram que métodos tradicionais de alvenaria e concreto tornariam as estruturas pesadas demais.

A saída encontrada foi usar grandes painéis de pedra reforçados por dentro por cabos de aço. Este sistema mantém a pedra comprimida de forma contínua, o que a torna mais resistente e diminui a chance de rachaduras causadas pelo vento.

Espetáculo de luzes naturais

O que mais impressiona na Sagrada Família é como Gaudí utilizou a luz natural. Para ele, a iluminação do sol deveria fazer parte da própria arquitetura.

Os vitrais foram projetados para acompanhar o caminho do sol ao longo do dia. No lado leste predominam tons de azul, ligados ao amanhecer. Já no lado oeste aparecem cores vermelhas e alaranjadas, associadas ao pôr do sol.

Segundo Gaudí, as partes mais altas do templo seriam naturalmente coloridas pela luz que entra pelas janelas, criando diferentes efeitos ao longo do dia.

Sagrada FamíliaReprodução/Sagrada Família

Nas semanas próximas aos solstícios de junho e dezembro, períodos que marcam os dias mais longos e mais curtos do ano, a posição do sol cria um efeito especial dentro da basílica.

Nesses momentos, a luz atravessa os grandes vitrais circulares e projeta cores sobre as colunas e o teto, tornando ainda mais intenso o espetáculo visual imaginado por Gaudí há mais de 100 anos.

O fenômeno é considerado uma das atrações mais conhecidas da Sagrada Família e mostra como arquitetura, engenharia e luz natural foram planejadas para funcionar em conjunto dentro do templo.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.