Estelionatos superam roubos e ultrapassam 2 milhões de casos

Desde o surgimento dos bancos no país, diversas fraudes foram registradasGerado por IA

Os golpes já fazem parte da rotina dos brasileiros. Basta conversar com algumas pessoas para perceber que muitas já caíram ou quase caíram em algum tipo de fraude. São centenas de vítimas todos os dias e, a cada ano, os criminosos aprimoram suas estratégias. 

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados 2.166.552 casos de estelionato no Brasil. São cerca de 5.935 casos diariamente. O estado de São Paulo lidera o ranking, com cerca de 801.759 casos. 

A proporção desse crime é tão grande que, a partir de 2021, o número de casos de estelionato no Brasil passou a superar o de roubos. Em 2018, foram registrados 1.506.151 casos de roubo, enquanto os estelionatos somavam 426.799 ocorrências. 

Em 2021, o estelionato ultrapassou os roubos e chegou a 1.312.964 casos, enquanto os registros de roubo caíram para 979.644. Em 2022, os estelionatos somaram 1.816.438 ocorrências, enquanto os roubos continuaram em queda, com 976.542 casos. O gráfico abaixo mostra essa evolução. 

O estado de São Paulo lidera o ranking, com cerca de 801.759 casos. Divulgação/ Anuário de Segurança Pública

Segundo o Banco Central informou na época, as perdas acumuladas no Pix foram de aproximadamente R$ 2,9 bilhões em 2023 e R$ 4,9 bilhões em 2024. 

Como os golpes mudaram com o tempo 

Desde o surgimento dos bancos no país, diversas fraudes foram registradas, mostrando a criatividade dos golpistas em explorar brechas na segurança financeira.

Os golpes bancários evoluíram com o passar dos anos. Enquanto os bancos se modernizam para oferecer serviços digitais mais eficientes, os golpistas também se adaptaram, criando novas estratégias para iludir as instituições financeiras.

Com o crescimento da confiança nos bancos, surgiram os primeiros golpes. Os criminosos usavam documentos falsos e promessas de investimentos; as pessoas, acreditando ser verdade, entregavam seu dinheiro para o negócio falso.

No começo, também era comum o uso de cheques falsos e transferências fraudulentas.

Antes de 2020, com o crescimento do uso dos aparelhos celulares e o aumento da tecnologia em diversas áreas, muitas pessoas deixaram de usar dinheiro e cheques, fazendo com que os criminosos recalculassem seus métodos. Nessa época, o foco deles passou a ser o roubo de dados por e-mails falsos, links falsos e clonagem física de cartões.

De 2020 a 2024, com o lançamento do Pix, os golpes passaram a exigir urgência, e os principais foram o falso perfil de WhatsApp de algum familiar pedindo dinheiro e o golpe da falsa central de atendimento.

Entre 2024 e 2026, os golpistas inovaram, e surgiu o golpe da Mão Fantasma, em que a vítima é induzida a instalar um aplicativo, e os golpistas roubam os dados dela. Além desse, com a ascensão da Inteligência Artificial, os criminosos utilizam as deepfakes, que são vozes ou vídeos de algum familiar ou gerente de banco, para se passar pela pessoa e pedir dinheiro.

Segundo a Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP), entre janeiro e setembro de 2025, o país registrou 28 milhões de fraudes envolvendo o Pix. O estudo também identificou 2,7 milhões de golpes em compras online, 1,6 milhão de fraudes via WhatsApp e 1,5 milhão de casos de phishing.

Os golpes bancários mais comuns no Brasil 

Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), as três modalidades de golpe mais relatadas por clientes às instituições associadas em 2024 e repassadas à entidade foram: o golpe do WhatsApp, o golpe da falsa venda e o golpe da falsa central de atendimento ou do falso funcionário de banco. 

Em 2025, o golpe da falsa venda foi o mais relatado pelos clientes.Divulgação/ Febraban

Porém, em 2025, segundo a Febraban, o golpe da falsa venda foi o mais relatado pelos clientes.

Segundo levantamento da Febraban junto às instituições financeiras associadas, no primeiro semestre de 2025 foram registradas 174 mil ocorrências desse tipo de golpe, número que representa um aumento de 314% em comparação com o mesmo período de 2024.

O golpe da falsa central telefônica ou do falso funcionário de banco aparece na segunda posição, com 139 mil registros no semestre, um crescimento de 195,7% em relação ao ano anterior. Em seguida, vem o golpe do WhatsApp, com 73 mil ocorrências.

Veja as características de cada golpe

Golpe da falsa venda

Criminosos criam páginas falsas que simulam e-commerce, enviam promoções inexistentes por e-mails, SMS e mensagens de WhatsApp, e investem na criação de perfis falsos de lojas em redes sociais. 

Golpe da falsa central de atendimento ou do falso funcionário

O golpista entra em contato com a vítima se passando por funcionário do banco ou empresa com a qual o cliente tem um relacionamento ativo. O criminoso informa que há irregularidades na conta ou que os dados cadastrados estão incorretos. A partir daí, solicita os dados pessoais e financeiros da vítima e orienta que realize transferências alegando a necessidade de regularizar problemas na conta ou no cartão. 

Golpe do WhatsApp 

O golpista descobre o número do celular e o nome da vítima de quem pretende clonar a conta de WhatsApp. Com essas informações, tenta cadastrar o WhatsApp da vítima em seu aparelho. Para concluir a operação, é preciso inserir o código de segurança que o aplicativo envia por SMS sempre que é instalado em um novo dispositivo. Os fraudadores enviam uma mensagem pelo WhatsApp fingindo ser do Serviço de Atendimento ao Cliente do site de vendas ou da empresa que a vítima tem cadastro. Eles solicitam o código de segurança, afirmando se tratar de uma atualização/protocolo, manutenção ou confirmação de cadastro. 

Além desses três, que aparecem com mais frequência nos relatos dos clientes, também existem outras fraudes bancárias muito comuns, como: 

Phishing (pescaria digital) 

É uma fraude eletrônica que visa obter dados pessoais do usuário. A forma mais comum de um ataque de phishing é por mensagens e e-mails falsos que induzem o usuário a clicar em links suspeitos. Também existem páginas falsas na internet que induzem a pessoa a revelar dados pessoais. 

Golpe do falso investimento 

Falsos grupos criam sites de empresas de fachada e perfis em redes sociais para atrair as vítimas e convencê-las a fazerem investimentos altamente lucrativos e rápidos. Usam vários artifícios para enganar os interessados: fornecem informações falsas da suposta empresa, mostram depoimentos inexistentes de pessoas que foram bem-sucedidas com o investimento, entre outros. Em alguns casos, para criar credibilidade, indicam que o usuário faça investimentos baixos no início e até chegam a pagar algum valor para a vítima. Posteriormente, induzem a vítima a fazer investimentos mais altos. Depois que conseguem tirar uma quantia alta da pessoa, somem. 

Golpe da troca de cartão 

Golpistas que trabalham como vendedores prestam atenção quando você digita sua senha na maquininha de compra e depois trocam o cartão na hora de devolvê-lo. Com seu cartão e senha, fazem compras usando o seu dinheiro. 

Golpe do falso boleto 

Os criminosos apostam na desatenção dos pagadores para aplicar golpes, falsificam boletos e colocam seus dados bancários para que recebam o crédito do documento de pagamento. 

Golpe da devolução do empréstimo 

O golpista, de posse dos dados do cliente, realiza a contratação de um empréstimo em alguma instituição indicando a conta legítima do cliente para recebimento. Após a efetivação do empréstimo, os golpistas entram em contato com o cliente solicitando a devolução do dinheiro para que façam o cancelamento da operação. E indicam uma chave pix ou um boleto para a devolução. 

Golpe da mão fantasma 

O criminoso entra em contato com a vítima se passando por um  falso funcionário do banco. Usa várias abordagens para enganar a vítima: informa que a conta foi invadida, clonada, que há movimentações suspeitas, entre outras artimanhas. E diz que vai enviar um link para a instalação de um aplicativo que irá solucionar o problema. Se o cliente instalar o aplicativo, o criminoso terá acesso a todos os dados que estão no celular. 

Falso motoboy 

O golpe começa com uma ligação ao cliente, de uma pessoa que se passa por funcionário do banco, e diz que o cartão foi clonado, informando que é preciso bloqueá-lo. Para isso, diz o golpista, bastaria cortá-lo ao meio e pedir um novo pelo atendimento eletrônico. O falso funcionário pede que a senha seja digitada no telefone, e fala que, por segurança, um motoboy irá buscar o cartão para uma perícia. O que o cliente não sabe é que, com o cartão cortado ao meio, o chip permanece intacto, e é possível realizar diversas transações. 

A pena para o crime de estelionato comum é de um a cinco anos de reclusãoGerado por IA

O que pode indicar uma tentativa de golpe? 

Em entrevista ao iG, o advogado especialista em Direito Bancário Marcelo de Lucca explicou que os criminosos passaram a operar de forma muito mais “profissionalizada”.

Ele também fala sobre a chamada “engenharia social”, que é um método usado para enganar, manipular ou explorar a confiança das pessoas.

Marcelo também ressalta que os principais sinais de alerta são:

  • Pedidos de senha, código de verificação ou chave de segurança;
  • Instalação de aplicativo com acesso remoto;
  • Pagamento ou estorno; tom de pressa, ameaça, segredo, constrangimento ou promessa boa demais;
  • Qualquer contato que peça para agir “na hora”, sem permitir conferência;
  • Contato que vem com link, anexo ou QR Code;
  • Devolução de PIX para conta diferente da original.

Ainda segundo Marcelo, os bancos podem entrar em contato com os clientes para confirmar transações suspeitas, mas nunca solicitam dados pessoais ou senhas.

Como se prevenir

O advogado Marcelo de Lucca acrescenta algumas medidas de segurança que as pessoas podem adotar no dia a dia para reduzir o risco de cair em golpes:

  • Usar senhas fortes
  • Ativar a verificação em duas etapas sempre que possível
  • Não compartilhar códigos, acessar sites e aplicativos apenas pelos canais oficiais
  • Conferir a URL antes de entrar
  • Baixar aplicativos somente de lojas oficiais
  • Desconfiar de mensagens recebidas por WhatsApp, SMS e e-mail, inclusive quando pareçam vir de conhecidos

Ainda segundo Marcelo, a Febraban possui um site com informações sobre os principais golpes e como os criminosos agem em cada um deles. Clique aqui e confira.

Além desse site, o Banco Central disponibiliza o BC Protege+, serviço gratuito que permite informar às instituições financeiras que você não deseja abrir novas contas ou ser vinculado a contas de terceiros.

Caso uma pessoa seja vítima de um golpe bancário, o mais importante é agir rapidamente.

Pena prevista para o crime 

A pena para o crime de estelionato comum é de um a cinco anos de reclusão, além do pagamento de multa. Dependendo das circunstâncias do crime, da condição do réu e da modalidade do golpe, essa punição pode sofrer alterações significativas. Por exemplo, golpes cometidos por meios digitais, redes sociais ou aplicativos de mensagens têm pena de quatro a oito anos de reclusão e multa, podendo aumentar caso o crime seja praticado com o auxílio de servidores no exterior.

A pena é aumentada (podendo ser dobrada) quando a vítima é idosa, menor de idade ou pessoa com deficiência.

Se a vítima for pessoa jurídica ou instituto de assistência social, a pena também sofre aumento.

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