Nos últimos meses, o mercado brasileiro viveu uma combinação rara: ativos baratos, juros elevados e um nível de pessimismo que parecia não ter fim. Mas os ventos começam a mudar.
Depois de um longo período marcado por incertezas globais, tensões geopolíticas e preocupações fiscais domésticas, a Bolsa brasileira parece finalmente reunir as condições necessárias para voltar a mirar um objetivo que até pouco tempo atrás parecia distante: os 200 mil pontos no Ibovespa, novamente.
Não estou dizendo que será uma trajetória linear. Mercados nunca funcionam assim. Mas a verdade é que hoje existem mais argumentos para acreditar em uma nova pernada de valorização do que para apostar em uma correção estrutural.
O primeiro fator é o cenário internacional. O recente avanço das negociações diplomáticas envolvendo Estados Unidos e Irã ajudou a reduzir significativamente os prêmios de risco globais. A queda do petróleo devolveu protagonismo aos bancos centrais e trouxe alívio para as expectativas de inflação ao redor do mundo.
Isso é especialmente importante porque abre espaço para que o Federal Reserve mantenha uma postura mais amigável nos próximos meses e reduz a pressão sobre os mercados emergentes, incluindo o Brasil.
No cenário doméstico, o mercado também passou a enxergar uma janela mais favorável para os ativos de risco.
O Banco Central brasileiro chega à reunião desta semana em uma posição relativamente confortável. A inflação segue mostrando alguns sinais de acomodação (núcleos) e a recente melhora do ambiente externo cria condições para que o ciclo de flexibilização monetária possa continuar.
Juros menores significam crédito mais barato à frente, melhora da atividade econômica, expansão dos lucros corporativos e, principalmente, aumento do valor presente das empresas listadas em Bolsa. Historicamente, os grandes ciclos de alta do mercado brasileiro sempre caminharam lado a lado com períodos de queda da Selic.
Além disso, os múltiplos continuam bastante atrativos. Mesmo após a recuperação observada nos últimos meses, diversas empresas brasileiras seguem negociando abaixo de suas médias históricas. Em muitos casos, encontramos companhias líderes de mercado sendo negociadas a preços que embutem um cenário excessivamente pessimista para os próximos anos. Mas nem tudo são flores.
O principal fator que continua limitando uma valorização ainda mais expressiva dos ativos brasileiros é a política fiscal, que pressiona a inflação por outro lado.
O governo segue adotando uma postura expansionista, ampliando gastos e estimulando a economia em um momento em que o Banco Central ainda trabalha para consolidar a convergência da inflação para a meta. Na prática, continuamos vendo uma situação em que um lado pisa no acelerador enquanto o outro tenta controlar a velocidade.
Além disso, o calendário eleitoral de 2026 já começa a aparecer no radar dos investidores. Pode parecer cedo, mas os mercados financeiros costumam antecipar movimentos políticos com bastante antecedência. A partir de agora, discussões sobre responsabilidade fiscal, reformas estruturais e sustentabilidade das contas públicas devem ganhar cada vez mais espaço na formação dos preços dos ativos.
Não por acaso, observamos uma sensibilidade maior do câmbio, dos juros futuros e das ações às sinalizações vindas de Brasília.
A boa notícia é que, mesmo considerando esses riscos, a Bolsa brasileira continua oferecendo uma relação risco-retorno bastante interessante. Quando olhamos para os múltiplos atuais, para o potencial de queda dos juros e para a qualidade de diversas empresas listadas, fica difícil argumentar que o mercado esteja caro.
Pelo contrário.
A impressão é que o investidor ainda carrega na memória os traumas recentes e, por isso, continua subalocado em renda variável justamente em um momento em que as oportunidades voltam a surgir.
Os 200 mil pontos não são uma garantia. Nenhum número de mercado é.
Mas hoje parece justo dizer que a Bolsa brasileira já está habilitada a buscar esse patamar. O caminho dependerá da continuidade da melhora do cenário internacional, da condução da política monetária e, principalmente, da capacidade do país de mostrar maior compromisso com a disciplina fiscal.
Se essa combinação acontecer, o que hoje parece uma meta ambiciosa pode se transformar apenas na próxima parada do mercado brasileiro.
*Coluna escrita por Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital. Sócio e estrategista-chefe da MSX Invest, é analista certificado CNPI, empreendedor, comentarista, educador e palestrante, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país.
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