Na Copa do delay, grito de gol e xingamento viraram spoiler

Torcedores durante a estreia do Brasil na CopaRodrigo T. Ribeiro / iG

Um dos clichês propagados em época de Copa do Mundo é que os corações de uma nação inteira são capazes de bater juntos, e em sincronia, pela mesma seleção. Fazia sentido quando um mesmo sinal via satélite captava as imagens do que acontecia nos estádios a quilômetros de casa.

Não sou exatamente saudoso dos tempos de monopólio dos direitos de transmissão. Mas alguma sintonia faria bem em tempos de comunicação dispersa e segundas telas.

Digo isso por experiência própria. No sábado, dia da estreia do Brasil, estava em uma festa de casamento marcada meses antes da Fifa confirmar as datas e horários dos jogos. A entidade máxima do futebol não tem o menor respeito por dias santos e planejamentos matrimoniais. Principalmente quando o santo do dia, Santo Antonio, é o santo casamenteiro – o que explica a presença de uma imagem dele ao lado da TV num canto do buffet da festa.

Até aí, tudo resolvido, não fosse um detalhe: qual canal assistir? Feita a escolha, o que se viu na sequência foi uma dispersão.

Em tempos de liberdade tecnológica, cada um levou sua própria TV dentro do bolso para não perder nenhum lance quando o jantar foi liberado.

Foi aí que os corações começaram a bater fora do ritmo. O primeiro que gritou gol tinha um prato de filé mignon e risoto na mão e um celular em outra. Nem dava para abraçar o convidado ao lado. O Brasil perdia o jogo e acabava de empatar.

Quem estava na TV levantou para conferir se o conviva falava sério ou se queria apenas dispersar a turma e garantir um assento perto do aparelho. No caminho outro gritou. E outro. 

Dali em diante os espectadores se converteram em controladores de voo trocando informação com os pilotos de cada aeronave – no caso, o smartphone operando em radares próprios de transmissão.

“Já foi escanteio aí?”

“Sim”.

“Tomamos o gol?”

“Não, a bola já está no meio-de-campo”.

“Valeu. Aqui ainda estão ajeitando a bola”.

Dali para um sacanear o outro foi um palito. 

“O Endrick já entrou em campo aqui. E aí?”

“Sério? Aqui o Igor Thiago ainda está tropeçando na bola”.

(Era uma piada. O Endrick nunca entrou, ou então o tema desta crônica seria outro).

Durante 90 minutos, mais os acréscimos e a entidade do delay, foi assim. Meu amigo Cleber Guets conta que no restaurante onde assistiu à partida a diferença entre o tempo da TV e do celular era de sete minutos. SETE MINUTOS. Imagina na Copa?

Hoje é segunda-feira e tem o espectador da Cazé TV que perdeu o sinal do 5G que ainda está sentado com o blazer da festa esperando o apito final. Os noivos estão na lua de mel há tempos e o Ancelotti ainda não apareceu para a coletiva.

Na dúvida já estou cotando uma antena, dessas usadas no Egito Antigo, para não ter spoiler na sexta-feira. Nem para o bem nem para o mal.

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