O perfil de investidor costuma ser apresentado por bancos e corretoras em categorias como conservador, moderado ou arrojado. Para Bruno Corano, essa classificação é insuficiente para orientar decisões financeiras relevantes, especialmente quando envolve patrimônio acumulado ao longo de anos, planejamento de aposentadoria e preservação de capital.
No Wall Street Cast, Corano defende que a análise deve considerar objetivos, tolerância a risco, realidade patrimonial, comportamento emocional e horizonte de tempo. Na avaliação dele, cuidar do dinheiro de uma pessoa exige mais do que preencher um questionário padronizado.
“Cuidar do dinheiro de alguém é muito importante e o dinheiro dessa pessoa para ela é muito importante”, afirma Bruno Corano.
Autoconhecimento é ponto de partida para investir melhor
Segundo Corano, o primeiro passo para uma estratégia de investimentos mais adequada é entender quem é o investidor. Esse processo envolve clareza sobre expectativas, capacidade de lidar com perdas, objetivos de vida, percepção de segurança e necessidade de liquidez.
O problema, afirma o economista, é que muitas pessoas definem seu perfil com base em uma sensação geral, como o medo de perder dinheiro. Essa leitura superficial pode levar a uma classificação inadequada e a escolhas incompatíveis com a realidade financeira e emocional do cliente.
“Para tudo na vida, você precisa se conhecer muito bem. Quanto mais você se conhecer, melhor”, explica Bruno Corano.
Questionários podem distorcer a real tolerância ao risco
Corano critica a forma como parte do mercado financeiro conduz a avaliação de suitability no Brasil. Para ele, os formulários tradicionais muitas vezes servem mais para enquadrar o cliente em uma categoria operacional do que para compreender sua situação individual.
O economista também alerta para casos em que investidores são induzidos a responder de determinada forma para acessar produtos destinados a perfis mais arrojados ou qualificados. Esse processo, segundo ele, pode ampliar riscos e gerar desalinhamento entre produto, patrimônio e tolerância emocional.
“O modelo atual no Brasil, ele é uma piada. Ele é até um tanto quanto irresponsável”, critica Bruno Corano.
Planejamento financeiro deve orientar a alocação
A definição do perfil de investidor precisa estar conectada a um planejamento financeiro concreto. Isso significa identificar onde o investidor quer chegar, em quanto tempo, com qual nível de renda futura e quais compromissos podem surgir ao longo do caminho.
Sem esse planejamento, a carteira pode ficar desconectada da vida real. Corano observa que até pessoas bem-sucedidas, como empresários, advogados, engenheiros e executivos, muitas vezes não têm respostas claras sobre renda, gastos, objetivos e capacidade de poupança.
“Planejamento, para simplificar, é onde você quer chegar e como a gente vai fazer para você chegar lá”, define Bruno Corano.
Risco e volatilidade precisam ser separados
Outro ponto central da análise é a diferença entre risco e volatilidade. Para Corano, oscilações de preço fazem parte do mercado, mas podem se transformar em risco real quando o investidor precisa vender ativos em momentos desfavoráveis ou quando a carteira não está alinhada ao horizonte financeiro.
O especialista cita momentos de forte queda em mercados acionários para mostrar que a tolerância ao risco não deve ser analisada apenas em tese. Ela precisa ser avaliada diante de cenários concretos de perda, pressão emocional e necessidade de liquidez.
“Volatilidade, o valor sobe e desce. Sobe e desce. Risco é eu ter ou perder algo”, observa Bruno Corano.
Experiência em crises ajuda a calibrar decisões
A vivência do investidor em crises anteriores também deve ser considerada. Corano afirma que não basta ter acompanhado uma crise econômica; é preciso entender se a pessoa tinha dinheiro investido, se perdeu patrimônio, como reagiu e se conseguiu manter racionalidade diante da queda dos ativos.
Essa leitura comportamental é relevante porque muitos investidores compram na alta e vendem na baixa quando não têm preparo ou orientação adequada. Para ele, acompanhamento qualificado pode ajudar a reduzir decisões impulsivas em períodos de estresse.
“Você tinha dinheiro, você perdeu dinheiro, porque você tem que ter vivenciado de fato a crise do ponto de vista financeiro”, ressalta Bruno Corano.
Horizonte de tempo muda o perfil da carteira
O prazo de investimento é outro fator decisivo. Um recurso que será usado em um ou dois anos não deve ser tratado da mesma forma que um capital destinado à aposentadoria em 20 ou 30 anos. A linha do tempo influencia liquidez, volatilidade aceitável e composição dos ativos.
Corano destaca que objetivos financeiros podem mudar ao longo da vida, mas isso não elimina a necessidade de estabelecer metas. Parâmetros de conquista ajudam o investidor a medir avanços, ajustar expectativas e evitar decisões desalinhadas com sua capacidade real de geração de renda e patrimônio.
“Tudo depende de quanto tempo você pretende investir ou poupar ou construir um pé de meia”, pontua Bruno Corano.
Liquidez, segurança e comportamento também entram na análise
A avaliação do perfil deve considerar conhecimento prévio sobre investimentos, experiência com renda fixa, renda variável, imóveis, criptoativos, exterior, diversificação e produtos de baixa liquidez. Segundo Corano, muitos investidores acreditam estar diversificados apenas por terem vários produtos, quando, na prática, podem estar concentrados em ativos com características semelhantes.
O economista também chama atenção para produtos que prendem o capital por vários anos, como fundos de private equity. Por isso, liquidez, segurança desejada e compreensão real do produto precisam fazer parte da conversa antes de qualquer decisão de alocação.
“Não é aquilo que a gente falou de ser conservador, moderado ou arrojado. Não é nada disso. É muito mais complexo”, avalia Bruno Corano.
Perfil de investidor exige diagnóstico mais profundo
A discussão mostra que o perfil de investidor não pode ser reduzido a uma etiqueta. Ele depende de renda, patrimônio, dependentes, dívidas, objetivos, horizonte de tempo, tolerância emocional, experiência prévia, conhecimento técnico, liquidez necessária e comportamento diante de ganhos e perdas.
Para o público investidor, a mensagem central é que uma carteira eficiente começa antes da escolha dos ativos. Ela nasce de um diagnóstico capaz de conectar dinheiro, vida pessoal e estratégia de longo prazo. Em um mercado cada vez mais sofisticado, compreender o próprio perfil pode ser tão importante quanto identificar boas oportunidades de investimento.
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