Berço do Santo Daime no AC inicia processo para reconhecimento como patrimônio cultural brasileiro


Alto Santo inicia processo de reconhecimento como patrimônio cultural brasileiro
O Alto Santo, considerado o berço histórico e espiritual da doutrina do Santo Daime no Acre, pode se tornar patrimônio cultural brasileiro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) recebeu, em 8 de maio deste ano, o pedido de abertura do processo de tombamento do sítio histórico localizado em Rio Branco.
A solicitação foi apresentada por Peregrina Gomes Serra, viúva de Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu, fundador da doutrina, e representante da comunidade.
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O pedido está em análise por um grupo de trabalho formado por técnicos de diferentes instituições e, caso avance, seguirá para avaliação do Conselho Consultivo do Iphan.
Localizado na parte alta da capital acreana, o Alto Santo é um dos espaços mais simbólicos da história religiosa e cultural do estado.
Foi ali que Mestre Irineu estruturou os fundamentos da doutrina do Santo Daime e reuniu seus primeiros seguidores, transformando o local em uma referência para praticantes da religião no Brasil e no exterior.
Peregrina Gomes Serra e Raimundo Irineu Serra, fundador da doutrina do Santo Daime
Cedida/Américo de Mello
Além do salão onde acontecem os trabalhos espirituais, a área abriga o Memorial Raimundo Irineu Serra e a casa onde o líder religioso viveu por 26 anos, até sua morte, em 1971.
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Para Antônio Alves, orador da comunidade, o espaço representa mais do que um patrimônio físico. “A gente se sente em casa. É sempre uma emoção muito especial estar dentro desse salão, dessa casa. Alegria é uma sensação muito forte, muito presente, mas também uma espécie de sensação de segurança”, afirmou.
História ligada à formação do Acre
Natural do Maranhão, Mestre Irineu chegou ao Acre em 1912, durante o ciclo da borracha. Foi nesse período que teve contato com a ayahuasca, bebida tradicional utilizada por povos amazônicos.
Após experiências espirituais vividas na floresta, passou a organizar os ensinamentos que deram origem ao Santo Daime, religião que combina elementos do cristianismo popular, tradições amazônicas e práticas espirituais próprias. Em 1945, fundou oficialmente o Alto Santo.
Antônio Alves conta que conheceu o local após retornar de uma viagem para outro estado e buscar conhecer melhor a própria história.
“Fiquei com muita vergonha de ser acreano e me perguntarem uma coisa do Acre e eu não saber. Quando voltei, imediatamente vim aqui. Cheguei em 1983 e encontrei dona Peregrina e um grupo de pessoas antigas que me impressionaram muito”, relembrou.
Local fundado por Mestre Irineu em 1945 reúne parte da história do Santo Daime no Acre
Seronilson Marinheiro / Rede Amazônica
O que muda com o tombamento
Segundo a superintendente do Iphan no Acre, Antônia Damasceno, o reconhecimento federal tem como principal objetivo preservar um espaço considerado relevante para a memória coletiva e para a história cultural brasileira.
“A importância de se tombar na esfera federal é a preservação desse patrimônio, que representa um grupo de pessoas, representa a história de um povo, e que a gente quer deixar cada vez mais preservada essa memória”, explicou.
Ela informou que o pedido está sendo analisado por um grupo de trabalho formado por arquitetos e engenheiros do Iphan, Ministério Público do Acre e governo estadual. O estudo vai avaliar a representatividade histórica, cultural e arquitetônica do espaço antes da decisão final.
O tombamento é um instrumento de proteção utilizado pelo governo federal para preservar bens de relevância nacional. O processo envolve análises técnicas, pareceres especializados e apreciação do Conselho Consultivo do Iphan.
Para os moradores e frequentadores do Alto Santo, a abertura do processo representa a possibilidade de reconhecimento oficial de uma história construída na Amazônia e que ultrapassou as fronteiras do Acre.
“Será, se tudo ocorrer bem, o reconhecimento oficial da história de um povo, de uma parte significativa da história do povo brasileiro que está na Amazônia”, completou Antônio Alves.
Local fundado por Mestre Irineu em 1945 reúne parte da história do Santo Daime no Acre
Seronilson Marinheiro / Rede Amazônica
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