
Uma mulher de 21 anos morreu, no fim de semana, ao ser arremessada de uma ponte em Limeira, interior de São Paulo. Ela praticava rope jump, mas os instrutores simplesmente esqueceram de amarrar as suas pernas às cordas.
No dia seguinte, dois helicópteros se chocaram no ar no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, e caíram no estacionamento de uma concessionária de veículos. Os seis ocupantes das aeronaves morreram, entre eles o rapper norte-americano Oliver Tree e youtuber argentino Gaspar Prim.
Ambos os casos revelam o vácuo de segurança em operações realizadas à margem de qualquer protocolo de segurança. Muitas vezes quem contrata o serviço, seja o deslocamento aéreo ou uma empresa que promove uma atividade esportiva radical, não tem ideia dos perigos de adentrar num limbo sem lei, norma ou regra. Fica nas mãos de quem opera justamente fora do radar da lei, da norma ou das regras justamente para evitar acidentes ou responsabilizar dolos eventuais. Ou sabe, corre o risco e paga o preço (geralmente reduzido sob o ponto de vista financeiro).
A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) apura se um dos helicópteros que colidiram Rio realizava transporte clandestino. Se sim, é possível que o piloto da aeronave trafegasse numa rota igualmente irregular para passar ileso do radar das autoridades aéreas. Esta é uma suspeita, não uma acusação.
As razões mais prováveis do acidente envolvem a separação inadequada entre os helicópteros no espaço aéreo, eventuais falhas na comunicação via rádio em frequência compartilhada ou o velho e péssimo descumprimento de normas de tráfego ou voo irregular. (Mais ou menos quando um carro entra na contramão ou fazer uma conversão irregular para ganhar tempo).
No caso da jovem arremessada sem as cordas em Limeira, tudo leva a crer que os promotores do esporte se aproveitavam de uma lacuna jurídica para oferecer uma atividade irregular no local. E, se era irregular, não tinha quem fiscalizasse a segurança dos envolvidos.
A Ponte do Esqueleto, onde aconteceu a tragédia, é alvo de uma disputa de responsabilidades sobre a propriedade da estrutura, o risco de demolição e a esfera criminal dos organizadores.
A Prefeitura de Limeira anunciou que vai processar judicialmente o governo federal por omissão. O município alega que vem cobrando medidas administrativas, sinalização e bloqueios de acesso desde o início de 2025, sem respostas efetivas.
A Secretaria de Patrimônio da União se defende. Diz que a ponte pertencia a um ramal desativado e nunca implantado da antiga Rede Ferroviária Federal, localizado dentro de fazendas particulares. A incorporação oficial do bem ao patrimônio da União só ocorreu em maio de 2026 após um acordo sobre dívidas de São Paulo.
A União diz também que cansou de pedir apoio às prefeituras da região (Limeira e Cordeirópolis) para fechar o local de forma emergencial. As administrações municipais dizem que o trabalho de fiscalizar ou restringir a entrada no local eram responsabilidade federal.
Enquanto a disputa sobre quem era responsável pelo que acontecia, alguém entrou numa terra sem dono, e sem lei, para oferecer uma atividade de alto risco. No mesmo local, vale lembrar, uma ciclista morreu ao cair da ponte em 2024 e duas mulheres ficaram gravemente feridas em 2025 ao passarem por lá.
Como resposta (tardia), a A Justiça converteu em preventiva a prisão em flagrante de três organizadores que ofereciam pacotes de aventura num lugar irregular. Eles devem responder por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco consciente de matar). Eles cobravam até R$ 250 por salto, mas não possuíam sequer empresa formal constituída, alvará ou autorização dos proprietários da área (esses que ninguém sabe direito quem são).
De um tempo pra cá, se espalhou a ideia de que os cidadãos devem ser livres para empreender. Quanto mais Estado, mais burocracia, mais regulação, menos liberdade, menos possibilidade real de ganho.
Quem defende ideias do tipo não seria capaz de almoçar num restaurante sabendo que a vigilância sanitária fez vistas grossas durante a inspeção da higiene da cozinha. Imagina saltar de uma ponte. Ou subir aos céus em um helicóptero que opera como se fosse a van do bairro.
Os mortos nessas tragédias têm algo em comum. São vítimas da negligência, do oportunismo e da omissão.
