Caso Master chega ao PT. E essa mancha vai ser difícil de remover

Em destaque, na galeria do Plenário, Jaques Wagner – ex-ministro do governo DilmaEdilson Rodrigues/Agência Senado – 29.8.16

Em abril de 2018, a Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal criada em 1979 pelo governo da Bahia para regular o mercado de alimentos e garantir o abastecimento de produtos básicos a preços acessíveis para a população de baixa renda, foi vendida a um grupo privado por R$ 15 milhões. A rede de supermercados Cesta do Povo era parte do grupo, que acumulava dívidas de R$ 381 milhões.

O comprador topou o preço após uma série de leilões fracassados. O lance inicial era de R$ 81 milhões, mas ninguém quis colocar dinheiro em um negócio que envolvia apenas gôndolas de supermercado.

A saída encontrada pelo governo da Bahia foi reduzir o preço da venda e colocar no bolo o Credcesta, um cartão de benefícios consignado voltado a servidores públicos, da ativa e aposentados. O serviço funcionava como intermediário entre um cartão de crédito convencional e um empréstimo. Com ele era possível obter empréstimos com desconto automático na folha de pagamento. 

Foi o portão de entrada para que os novos proprietários entrassem num mercado promissor – spoiler: não era a venda de tomate a baixo custo.

O novo dono era o consórcio paulista NGV Empreendimentos e Participações e tinha por trás o investidor Augusto Lima. Com ele o serviço de crédito se expandiu, anos depois, em parceria com o Banco Master, onde atuou como CEO. De lá ele saltou, em 2025, para o próprio banco, o Pleno – um dos alvos das operações que miram os negócios de Daniel Vorcaro, seu ex-sócio.

O secretário de governo da Bahia na época mal sabia (ou sabia?) que estava ajudando a mudar o destino da nora anos depois. O banco que cresceu e ficou fortinho pegando dinheiro de aposentados – e, mais tarde, vencendo títulos impagáveis para quem queria pegar atalhos em direção ao enriquecimento – repassou R$ 12 milhões para uma empresa financeira de Bonnie Bonilha. O sogro dela é Jaques Wagner, o idealizador da venda da Ebal (leia-se Credcesta) para a turma de Daniel Vorcaro.

Hoje líder do governo Lula no Senado, Wagner entrou na mira da Polícia Federal nesta quinta-feira (18) durante uma operação de desdobramento do caso Master. Ele é suspeito de receber um imóvel de R$ 2,5 milhões de Augusto Lima. 

Em Brasília, todos sabiam que a Bahia era um pé e meio de barro para o PT no escândalo que até agora acertou o coração da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), senador que pediu a Vorcaro dinheiro para patrocinar o filme sobre o próprio pai. 

As suspeitas respingam em Rui Costa, ministro da Casa Civil e governador na época da venda da Ebal. Wagner também já foi ministro dos governos petistas (e da Casa Civil, na gestão Lula).

Quando os rumos políticos mudaram, a turma interessada no dinheiro dos velhinhos ampliou o leque também dos relacionamentos políticos. E abriram o bolso para a extrema-direita e o centrão, que hoje correm para limpar as pegadas recebidas pelos mimos (festas, viagens, deslocamento, financiamento de filme) para Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Hugo Motta, Davi Alcolumbre e grande elenco. Todos em algum momento foram citados como supostos beneficiários do esquema.

Mas, na guerra eleitoral que se avizinha, vai ser difícil apontar o dedo sem explicar que a conversa toda teve início em um enredo regional, lá na Bahia de Wagner e Rui Costa.

A nova fase da Operação Compliance Zero acaba de atingir o PT no peito. E vai ser difícil remover a mancha do palanque.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.