
Diante do avanço do antissemitismo, da desinformação e de um cenário internacional mais polarizado, cresce a percepção de que judeus fora de Israel precisam adotar postura mais proativa, reafirmando sua voz, sua história, sua cultura e o orgulho por suas contribuições globais, sem abrir mão dos vínculos com os países que os acolheram.
Na América Latina, especialmente na América do Sul, esse ponto ganha contornos singulares.
O continente recebeu ondas de imigrantes judeus entre os séculos XIX e XX, fugindo de perseguições e pogroms na Europa.
Países como Brasil, Argentina e Uruguai ofereceram refúgio e integração, permitindo a formação de comunidades hoje plenamente inseridas no tecido social.
Esse histórico de acolhimento sustenta a manutenção e o fortalecimento de laços sólidos com Israel, como diretriz de Estado, e não como reflexo de governos passageiros.
Israel, um pequeno grande país, consolidou-se como caso exemplar de transformação de limitações em vantagens competitivas.
Com cerca de 21.640 km² e pouco mais de 10 milhões de habitantes, menor que o estado de Sergipe e 393 vezes menor que o Brasil, projetou-se como potência em inovação, ciência e tecnologia.
Essa trajetória se reflete em seus 14 Prêmios Nobel, distribuídos entre Química, Economia, Paz e Literatura, e em nomes como Ada Yonath, que elucidou a estrutura do ribossomo, e Dan Shechtman, descobridor dos quasicristais.
Na medicina, Israel tornou-se sinônimo de tecnologia aplicada à preservação da vida. Inovações como a PillCam, o exoesqueleto ReWalk, o medicamento Copaxone, o stent flexível e a bandagem israelense, adotada pelo Exército dos Estados Unidos, ilustram esse protagonismo.
Somam-se a elas avanços em diagnósticos, como a amniocentese, e em telemedicina, com soluções como o TytoCare, que viabilizam exames remotos em casa.
No campo da tecnologia e dos negócios, a marca israelense é igualmente nítida.
Israel é berço do Waze, sistema de navegação colaborativo adquirido pelo Google, e do ICQ, um dos primeiros mensageiros instantâneos de grande alcance.
A invenção do pen drive, a liderança da Mobileye em tecnologias para veículos autônomos, a Watergen, que gera água potável a partir do ar, e o crescimento de empresas bilionárias como Infinidat (armazenamento de dados) e Wiz (cibersegurança) reforçam a imagem de um ecossistema inovador.
Tecnologias de irrigação por gotejamento e dessalinização por osmose inversa tornaram-se referência global em manejo eficiente de recursos hídricos.
Por sua vez, o Brasil desempenhou papel histórico na trajetória de Israel, frequentemente lembrado por especialistas em relações internacionais, mas por vezes negligenciado pelo debate público.
Em 1947, na Assembleia Geral da ONU, o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a sessão que aprovou o plano de partilha da então chamada Palestina, abrindo caminho para a fundação do Estado de Israel em 1948.
O episódio simboliza compromisso diplomático com a autodeterminação e a reconstrução pós-Holocausto, e é um dos pilares da relação entre nosso país e Israel.
Nesse contexto, a manutenção de embaixadores em Brasília e em Tel Aviv deve ser tratada como questão de Estado, não apenas de governo.
Desde 1950 até 2024, jamais houve interrupção na representação diplomática plena entre Brasil e Israel, o que sempre sinalizou estabilidade institucional e compromisso com um diálogo de longo prazo.
Medidas como a recusa à indicação de representantes israelenses e a retirada do embaixador brasileiro de Israel fragilizam canais de interlocução e podem alimentar percepções de isolamento e recrudescimento de preconceitos, incluindo o antissemitismo.
Os laços Brasil–Israel produzem efeitos concretos em áreas estratégicas como ciência, tecnologia, agricultura e defesa. Parcerias em inovação agrícola, gestão hídrica e soluções de segurança geram ganhos de produtividade e modernização no Brasil.
Enfraquecer essa relação não representa apenas um distanciamento político, mas também perda de oportunidades econômicas e tecnológicas em um mundo em que a competitividade depende, cada vez mais, de redes de cooperação internacional.
A memória do Holocausto é outro eixo central desse debate.
A reintegração do Brasil à Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) é medida urgente e necessária, tanto pela simbologia quanto pela prática.
Um país que acolheu sobreviventes, permitindo que reconstruíssem suas vidas em seu território, assume compromisso moral de combater o antissemitismo e o negacionismo.
Participar de iniciativas voltadas à preservação da memória, à educação e ao monitoramento de discursos de ódio reforça a imagem de um Brasil comprometido com os direitos humanos e com a prevenção de atrocidades.
Sob essa perspectiva, a relação entre Brasil e Israel é frequentemente descrita como uma irmandade construída ao longo do tempo, mais enraizada em valores e história do que em alinhamentos ideológicos circunstanciais.
A ideia de “Estados irmãos” remete a uma parceria que atravessa governos e ciclos políticos, apoiada em afinidades culturais, colaborações técnicas e tradição de diálogo.
Tratar essa conexão como patrimônio de Estado, e não como instrumento de disputa interna, é condição para preservar ganhos acumulados ao longo de décadas.
Para a diáspora judaica, esse quadro aponta para um papel de maior protagonismo: engajar-se no debate público, enfrentar o antissemitismo e a desinformação, dialogar com autoridades e formadores de opinião e destacar a relevância da cooperação com Israel para o desenvolvimento nacional.
Em última análise, a defesa dessa agenda se alinha à proteção da democracia, da pluralidade e dos direitos fundamentais.
*Luis David Leventhal, empresário, Presidente da Organização Sionista do RS e membro efetivo do grupo Judaísmo sem Partido ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
