A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a Selic contraria o mercaoo e expõe o Banco Central brasileiro a um risco que VanDyck Silveira, economista entrevistado pela BM&C News, classifica como flerte com o “abismo” fiscal. Para ele, a autoridade monetária ignora um déficit primário crescente, uma dívida bruta que se aproxima de 90% do PIB e gastos com juros em patamar elevado, sinais que, na leitura técnica ortodoxa, exigiriam cautela, não afrouxamento.
A análise de Silveira parte de uma comparação direta com o Federal Reserve americano, que mantém postura técnica e independente mesmo sob pressão política.
O contraste revela, segundo o economista, uma fragilidade institucional que pode custar caro à sociedade brasileira.
Quando a técnica cede à pressão, o mercado cobra em risco-país
Na avaliação do economista, o Banco Central brasileiro abandonou a âncora dos dados concretos para adotar uma postura que responde mais ao ambiente político do que aos fundamentos macroeconômicos. Enquanto o Fed resiste a movimentos prematuros mesmo diante de pressões externas, a autoridade monetária brasileira opera em direção oposta ao que os números fiscais sugerem.
Silveira destaca que o déficit primário segue em trajetória ascendente, a dívida bruta caminha para 90% do PIB e os gastos com juros consomem fatia crescente do orçamento. Esse conjunto de variáveis, para ele, deveria impor contenção, não estímulo via queda de juros.
O risco de trocar ganhos do Plano Real por uma nova década perdida
O economista alerta que o país corre o risco de repetir os erros que marcaram os anos 80 e 90, quando a combinação de inflação alta, política fiscal descontrolada e perda de credibilidade levou ao empobrecimento generalizado da população. Segundo Silveira, a inflação é o pior inimigo da sociedade, e políticas que a negligenciam comprometem diretamente o poder de compra e a poupança das famílias.
A possível reeleição do governo, na leitura do entrevistado, pode reforçar uma política fiscal que coloca em xeque os ganhos acumulados desde o Plano Real.
A pressão sobre o Banco Central, nesse cenário, tende a se intensificar, ampliando o risco de subordinação da política monetária a interesses de curto prazo.
Independência formal não basta quando a prática ignora os dados
Para Silveira, o Brasil enfrenta hoje um paradoxo: tem um Banco Central formalmente independente, mas que age de modo incompatível com a leitura técnica dos indicadores. A comparação com o Fed expõe a diferença entre independência de jure e de facto. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco. E quando a autoridade monetária ignora a realidade fiscal, o custo recai sobre toda a economia, com impacto direto na Selic futura, na dívida e na capacidade de investimento do país.
O economista reforça que os bastidores dessa decisão revelam uma mudança de postura que pode comprometer a trajetória de estabilização conquistada nas últimas décadas.
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