Investigação da PF aponta que Braskem sabia de risco de afundamento em Maceió desde 1988


Uma casa desocupada afetada pelas rachaduras e instabilidade do solo no Pinheiro, em Maceió, AL
Jamerson Soares
As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o desastre provocado pela mineração de sal-gema em Maceió apontam que os riscos de afundamento do solo já eram conhecidos desde a década de 1980 pela Salgema (antecessora da Braskem).
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O g1 teve acesso aos laudos periciais que embasam a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra ex-dirigentes e técnicos ligados à exploração das minas. A atividade provocou a desocupação de cinco bairros da capital alagoana: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol.
Em nota, a Braskem reiterou sua solidariedade com os moradores afetados e afirmou que sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor (leia a íntegra ao final desta reportagem).
Segundo a investigação, estudos técnicos contratados ainda em 1986 já alertavam para a possibilidade de subsidência — um rebaixamento gradual do terreno. Os documentos recomendavam medidas de controle para evitar danos na superfície.
Naquele mesmo ano, registros analisados pelos peritos apontavam que vibrações causadas por desmoronamentos em cavidades subterrâneas já haviam sido identificadas. Três anos depois, em 1989, consultores especializados fizeram novos alertas sobre a possibilidade de formação de uma “bacia de subsidência” e de crateras em caso de colapso.
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Afundamento passou a ser detectado nos anos 1990
As perícias indicam que o processo de afundamento do solo se tornou detectável a partir do final da década de 1990. Dados topográficos e levantamentos técnicos analisados pela PF mostram alterações progressivas no terreno da região onde funcionavam as minas.
Apesar disso, segundo a investigação, a empresa continuou sustentando oficialmente que não havia evidências de acomodação do solo.
Intervenção artística na Ladeira do Calmon, em Bebedouro, bairro de Maceió afetado pelo afundamento do solo
Reprodução/Vídeo
Um dos principais pontos da denúncia é a conclusão de que a Braskem (criada em 2002 a partir da integração de outras empresas, incluindo a Salgema) tinha conhecimento formal do processo de subsidência pelo menos desde 2003.
Naquele ano, conforme a PF, a empresa já possuía dados de monitoramento que indicavam alterações significativas no relevo. Ainda assim, informou às autoridades, em documentos oficiais, que não havia evidências de afundamento.
Para os investigadores, esse foi o início de uma série de omissões e supostas fraudes que teriam contribuído para esconder a gravidade do problema por mais de uma década. A crise só veio à tona em 2018, após tremores de terra e rachaduras nos imóveis assustarem a população.
Retirada de milhares de moradores
Parede com rachaduras após mineração da Braskem.
Assessoria
Em laudo concluído em 2024, a Polícia Federal classificou os danos provocados pela atividade minerária como significativos e irreversíveis. A PF afirmou que parte das áreas afetadas se tornou permanentemente imprópria para ocupação humana.
A denúncia do MPF reforça que os sinais de afundamento foram ignorados por décadas, muito antes de a crise se tornar pública e forçar a evacuação de milhares de famílias de suas casas.
O que é o sal-gema e para que serve?
Profundidade do sal-gema em Maceió
Arte: g1
O sal-gema é um minério extraído de rochas que ficam a mais de mil de metros de profundidade no solo. Ele se forma ao longo de milhares de anos, a medida em que alguns pontos do oceano evaporam gradativamente.
No caso das minas em Alagoas, ele é retirado em um processo de dissolução. A empresa cava um poço na profundidade onde está o minério, cerca de 1,2 mil metros. Em seguida, injeta água, formando uma salmoura. Depois, essa solução é retirada para a superfície para a extração do sal.
O sal-gema é usado na indústria química para a fabricação itens variados como:
cloro
soda cáustica
ácido clorídrico
bicarbonato de sódio
indústrias de papel e celulose
vidro
sabão
detergente
pasta de dente
O que diz a Braskem
Leia, abaixo, a íntegra do comunicado:
“A Braskem reitera seu compromisso com a sociedade alagoana, assim como o respeito e solidariedade para com os moradores afetados.
A empresa se pronunciará oportunamente nos autos do processo e ressalta que, desde o início das apurações, contribuiu, assim como seus integrantes, com as informações e esclarecimentos solicitados.
A Braskem sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor, informando e prestando contas regularmente às autoridades competentes.
Seguiremos empenhados no cumprimento de todos os compromissos assumidos.”
Relembre o caso
Residência com rachaduras afetada pela mineração de sal-gema em Maceió.
Assessoria
A mineração em Maceió começou na década de 1970, com a antiga Sal-gema Indústrias Químicas, atual Braskem, autorizada pelo poder público a extrair sal-gema de minério usado na produção de soda cáustica e PVC.
Em 2018, surgiram as primeiras rachaduras no bairro do Pinheiro. Pouco depois, um tremor de terra agravou a situação e causou danos estruturais em diversas casas. No ano seguinte, o problema se espalhou para Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol, levando à evacuação de milhares de moradores.
Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil confirmou que a extração de sal-gema pela Braskem havia provocado a instabilidade do solo. Desde então, mais de 14 mil imóveis foram desocupados, afetando cerca de 60 mil pessoas.
A Braskem anunciou o fechamento definitivo das minas ainda em 2019 e iniciou o processo de estabilização das 35 cavidades subterrâneas. Dessa maneira, um programa de compensação financeira foi criado para indenizar os moradores, embora muitos ainda contestem os valores na Justiça.
Em 2023, após novos tremores e alertas da Defesa Civil, parte da mina 18 cedeu sob a Lagoa Mundaú, no bairro do Mutange. O colapso foi controlado após o preenchimento da cavidade com rocha e água da lagoa.
O primeiro representante da Braskem foi ouvido em 2024 pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que investiga a empresa, o diretor Marcelo Arantes reconheceu a culpa da empresa pelo afundamento de bairros da capital de Alagoas que causou o deslocamento de, ao menos, 40 mil pessoas.
Em julho de 2025, a Defensoria Pública de Alagoas pediu indenização de R$ 4 bilhões para compensar a desvalorização de imóveis de moradores de bairros vizinhos ao evento geológico.
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