A cobra vai fumar?

Ancelotti reunido com atletas do Real Madrid, incluindo Vinicius Júnior, Rodrygo e MilitãoReprodução

A imagem rodou o mundo anos atrás. Carlo Ancelotti aparecia com um charuto na mão, sorrindo em meio à comemoração de mais um título pelo Real Madrid. Era uma cena de vitória, daquelas que costumam eternizar um momento. Mas, vista do lado de cá do Atlântico, ela acaba despertando outra lembrança. Uma expressão tipicamente brasileira. Uma frase que mistura ironia, desafio e esperança: a cobra vai fumar?

O jogo entre Brasil e Haiti, pela Copa do Mundo, tem um pouco desse clima.

A estreia diante de Marrocos deixou a sensação de que a Seleção ainda procura a própria identidade. Houve bons momentos, alguns sinais de evolução, mas faltou autoridade. Faltou aquela sensação de que o Brasil entrou em campo para impor seu futebol.

Em Copa do Mundo, porém, as histórias raramente seguem uma linha reta.

O futebol brasileiro conhece bem esse roteiro. Quantas vezes uma Seleção começou cercada de dúvidas e encontrou seu melhor futebol ao longo do caminho? Quantas vezes o torcedor passou da desconfiança à euforia em questão de dias?

Por aqui, a camisa amarela nunca é apenas uma camisa. Ela carrega memórias, expectativas e um peso que nenhuma outra seleção conhece. O Brasil entra em campo acompanhado por mais de 200 milhões de técnicos, analistas e críticos. Cada passe vira discussão. Cada resultado parece definitivo.

Por isso, o duelo contra o Haiti vale mais do que três pontos.

A expressão “a cobra vai fumar” nasceu em um contexto ainda mais improvável. Durante a Segunda Guerra Mundial, era comum ouvir que seria mais fácil uma cobra fumar um cachimbo do que o Brasil mandar soldados para lutar na Europa. Parecia impossível.

Mas a cobra fumou.

Em 1944, mais de 25 mil brasileiros desembarcaram na Itália como integrantes da Força Expedicionária Brasileira. E fizeram algo que o país costuma fazer de tempos em tempos: transformaram a desconfiança em combustível. A frase de deboche virou símbolo de coragem. A cobra fumando cachimbo tornou-se o emblema de homens que decidiram enfrentar o improvável.

Talvez seja por isso que essa expressão continue tão viva.

Ela fala de um traço muito brasileiro. Nós duvidamos, reclamamos, criticamos e cobramos. Mas, no fundo, nunca abandonamos completamente a esperança. Existe sempre a sensação de que alguma coisa pode acontecer. Que uma equipe pode crescer. Que um jogador pode chamar a responsabilidade. Que uma história pode mudar.

VAMOS COM TUDO! 🫵💪

Chegamos na Filadélfia e HOJE É DIA DE BRASIL! 🇧🇷

Logo mais, às 21:30h (Brasília), seguimos para mais uma etapa do nosso caminho para a glória eterna contra o Haiti. #BateNoPeito

ISSO É BRASIL! VAMOS ACREDITAR! 💚💛 pic.twitter.com/gVoCQDmRPw

— brasil (@CBF_Futebol) June 19, 2026

A Seleção chega ao jogo contra o Haiti exatamente nesse ponto.

Ainda não convenceu plenamente. Ainda não entregou o futebol que o torcedor espera. Mas também está longe de ser uma obra acabada. Em Copas do Mundo, confiança é construída partida após partida. Grandes equipes costumam surgir justamente quando conseguem transformar a pressão em energia e a dúvida em motivação.

Por isso, a velha pergunta volta a fazer sentido.

A cobra vai fumar?

O Brasil inteiro espera que sim. Porque a história, no futebol e na vida, costuma reservar seus capítulos mais interessantes justamente para os momentos em que as certezas desaparecem e sobra apenas uma possibilidade: a de surpreender todo mundo.

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