
Presa em 21 de maio deste ano durante uma operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, a influenciadora Deolane Bezerra é alvo de uma investigação que apura lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Documentos do Ministério Público analisados pela reportagem do iG, revelam um salto nas movimentações financeiras de suas contas, empresas e familiares, que ultrapassaram R$ 140 milhões em créditos e débitos.
Além de Deolane, também foi preso, na época, Everton de Souza, conhecido como Player, apontado pelas autoridades como operador financeiro do PCC. O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, que é considerado um filho de criação por Deolane, também foi alvo de busca e apreensão.
Denúncia do Ministério Público
Na denúncia apresentada pelo Ministério Público, além de Deolane e Everton, também são citados Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola; seu irmão, Alejandro Juvenal Camacho; e os filhos de Alejandro, Paloma Sanches Camacho e Leonardo Alexsander Camacho, sobrinhos de Marcola.
Como tudo começou
Segundo o Ministério Público, todos os denunciados, a partir de 2018, em local incerto e com atuação em Presidente Venceslau, município que fica no extremo oeste de São Paulo, constituíram e integraram a organização criminosa voltada à prática de crimes de lavagem de capitais, vinculada às atividades ilícitas do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ainda de acordo com a denúncia, eles ocultaram e dissimularam a origem e a propriedade de valores provenientes, direta ou indiretamente, de infrações penais antecedentes relacionadas à organização criminosa e ao tráfico de drogas.
Os acusados passaram a ser investigados após agentes de segurança penitenciária apreenderem uma grande quantidade de cartas na caixa de esgoto da Penitenciária Maurício Henrique Guimarães Pereira, em Presidente Venceslau. A apreensão ocorreu em 23 de julho de 2019 e serviu como ponto de partida para as investigações.
Em uma das cartas apreendidas, os investigadores identificaram referências a um suposto projeto de expansão internacional do PCC. Segundo o documento, a facção planejava ampliar suas operações de tráfico de drogas para a Europa, com foco na Holanda, Espanha e Turquia, utilizando os portos de Santos (SP) e Fortaleza (CE) como pontos estratégicos para o envio de entorpecentes.

Na carta estava escrito:
Após a apreensão dos bilhetes e a análise do material, os investigadores identificaram um suposto esquema operacional da organização criminosa. No entanto, um dos pontos que ainda precisavam esclarecer era a identidade de uma pessoa mencionada nos manuscritos como “a mulher da transportadora”.

Após as investigações, os policiais identificaram a pessoa mencionada, tratava-se de Elidiane, esposa de Ciro Cesar.
Condenado por tráfico de drogas, Ciro Cesar cumpriu pena na mesma penitenciária que Marcola. Segundo as investigações, após deixar a prisão, ele teria assumido a missão de abrir uma empresa de fachada para a facção.
Foi então que surgiu a transportadora Lado a Lado. De acordo com a apuração, a empresa lavava capitais para o PCC, além de estar instalada a poucos metros da penitenciária onde Ciro havia cumprido pena.

Ainda segundo a denúncia, até 2017 Elidiane recebia Bolsa Família. Já em 2019, os dois contavam com uma empresa com capital social de R$ 3 milhões, seis veículos em sua frota: 15 caminhões trator, 32 semirreboques, cinco semirreboques especiais, um veículo tipo SUV, um veículo utilitário de pequeno porte, um veículo de passeio e um reboque (pequeno porte), sendo 20 deles novos.
As investigações evidenciaram que Alejandro e Marco Willians seriam os proprietários da empresa de transportes, administrada por Ciro Cesar, a qual seria utilizada para a lavagem de dinheiro da organização criminosa.
Foi então que descobriram quem era a “mulher da transportadora” relatada em uma das cartas. O casal foi condenado por lavagem de dinheiro e integrar organização criminosa.

Busca e apreensão
Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão na casa de Ciro e Elidiane, foram apreendidos diversos objetos e aparelhos celulares que, segundo a investigação, ajudaram a polícia a identificar o vínculo do casal com a organização criminosa e com os demais denunciados.
Transferências bancárias para Deolane
Nos celulares apreendidos os policiais encontraram algumas conversas sobre transferências de dinheiros para terceiros.
No dia 23 de setembro de 2020, Ciro solicitou para Everton uma conta para efetuar uma transferência de R$ 29 mil.
No dia 30 de setembro de 2020, Everton envia mensagem a Ciro informando a conta de Deolane Bezerra Santos para a realização da transferência e, após novo questionamento de Ciro, reitera a ele que só a metade do valor deve ser transferida para a conta de Deolane; a outra metade deveria ser transferida para conta a ser indicada por outro operador do esquema.
Deolane foi identificada como integrante da organização criminosa a partir da análise dos celulares apreendidos com Ciro Cesar. A investigação demonstrou que ela recebeu em suas contas bancárias repasses financeiros efetuados por Ciro, ocultando assim a origem e a propriedade de valores vindos de infração penal.

No dia 6 de outubro, Ciro comunica a Everton que transferiu R$ 14,5 mil para a conta informada de Deolane, sendo que o valor foi fracionado em três depósitos, dois de R$ 5 mil e um de R$ 4,5 mil. No mesmo dia, Everton transferiu R$ 29 mil reais para Deolane.
Aumento do padrão econômico de Deolane
Segundo o documento do MP, durante o período de 7 de julho de 2022 a 9 de maio de 2024 houve uma alteração substancial no padrão econômico-financeiro da denunciada Deolane e de suas empresas, revelando um aumento significativo de créditos e interações financeiras, especialmente a partir do segundo semestre de 2022.
Com destaque para o ingresso de mais de R$ 30 milhões provenientes de empresas de meios de pagamentos, resultando na incompatibilidade com a evolução da atividade empresarial formalmente declarada por ela.
Com base nas informações analisadas, os investigadores apontam uma evolução atípica no fluxo financeiro de Deolane e de suas empresas, o que indicaria a existência de uma complexa malha financeira estruturada em torno da influenciadora. O esquema envolveria pessoas físicas e jurídicas interligadas, com movimentação superior a R$ 140 milhões em créditos e débitos.
No centro desse esquema estariam a pessoa jurídica Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., a própria Deolane e seu filho, Giliard Vidal dos Santos, além da empresa Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda. e da Bezerra Produções Artísticas Ltda., entre outras pessoas físicas e jurídicas, todas com estruturas societárias e objetos sociais considerados compatíveis, segundo a apuração, com atividades voltadas à lavagem de capitais.
Deolane movimentou mais de R$ 40 milhões, sendo metade desse valor, em créditos, que não pôde ser identificada. A empresa Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda. recebeu valores exclusivamente de intermediadoras de pagamentos, além de ter recebido mais de R$ 8 milhões de depositantes não identificados.
Gilliard atuaria como intermediário de sua mãe e de suas empresas, sem histórico empresarial, ele movimentou mais de R$ 11 milhões. Já a empresa Bezerra Produções Artísticas Ltda. apresenta intensa movimentação financeira, sem demonstração de quitação de despesas com equipe logística e fornecedores em geral.
Everton e Deolane transferiram valores às mesmas pessoas
Além de transferir dinheiro para Deolane, Everton também tinha várias pessoas para as quais realizava transferências em comum com ela e com a empresa Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda.
Entre os intermediários em comum, Everton transferiu para uma pessoa R$ 152 mil; Deolane, por sua vez, transferiu R$ 18 mil à mesma pessoa. Dessa mesma pessoa, Everton recebeu R$ 171 mil e Deolane, R$ 160 mil, divididos em quatro operações em dias próximos.
De outra pessoa, Everton recebeu R$ 138 mil, enquanto Deolane recebeu R$ 17 mil, divididos em três operações.
Busca e apreensão na casa de Everton
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Everton.
Durante as buscas, foram apreendidos R$ 7,8 mil, além de uma caixa de MDF com as inscrições na tampa “Dra. Deolane” e “O Justo Não se Justifica”, na qual estavam guardados os valores em espécie e uma máquina de contar dinheiro.

Movimentações das contas bancárias de Deolane
A quebra dos sigilos bancários revelaram uma operação estruturada de lavagem de capitais, com a movimentação de grandes quantias em contas bancárias e utilização de empresas de fachada. Deolane era peça central na operação de branqueamento de capitais da organização criminosa.
No período entre 1 de janeiro de 2018 a 8 de julho de 2022, Deolane movimentou em suas contas bancárias, na condição de pessoa física, R$ 27.311.630,74 em créditos e débitos.
Considerando apenas os valores efetivamente recebidos, Deolane teria recebido R$ 1.067.505 em depósitos em espécie não identificados e outros R$ 311.530,53 em cheques também não identificados.
O relatório aponta ainda que dos depósitos não identificados, muitos foram realizados no mesmo dia ou em dias próximos, indicando fracionamento dos valores.
Assim como foram identificados nos créditos, a polícia não identificou beneficiários de débitos no valor de R$ 6.798.297,91.
As declarações de Imposto de Renda de Deolane não condizem com os valores movimentados por ela. Embora tenha recebido créditos que totalizam R$ 7.112.234,61 nos anos de 2018 a 2021, ela declarou como rendimentos tributáveis no mesmo período a quantia de R$ 577.945,46, uma diferença de R$ 6.534.289,15 a menor.

A investigação também mostrou que ela realizou transferências para Francisca Alves da Silva, esposa de Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior.
Transações bancárias das empresas de Deolane
Além disso, durante as investigações, foi descoberto que uma quantia recebida pela Bezerra Publicidade e Comunicações teria sido enviado por uma pessoa que residia em Salvador, na Bahia, recebia cerca de um salário mínimo, vivia em uma localidade de classe média baixa e possuía um automóvel popular, o que revelaria capacidade econômica incompatível com as transferências realizadas para Deolane e sua empresa.
Deolane também transferiu valores expressivos para suas irmãs, Daniele Bezerra Santos e Dayanne Bezerra Santos, para sua mãe, Solange Alves Bezerra Santos, e para Danilo Ferreira de Brito, companheiro de sua mãe. Todos eles compõem o quadro societário de empresas utilizadas pela denunciada para a circulação e pulverização de valores vindos do crime organizado.
Danilo recebeu R$ 161.495,92 da empresa Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., sem fundamento jurídico-econômico conhecido.

O quadro societário da empresa Bezerra Publicidade e Comunicação é composto por Deolane e suas irmãs Daniele Bezerra Santos e Dayanne Bezerra Santos, no período de 1 de janeiro de 2018 a 08 de julho de 2022, a empresa movimentou a crédito e débito cerca de R$ 12.395.208,35.

Dentre os créditos recebidos pela empresa, constam quatro depósitos no valor total de R$ 636.418,00, feitos por esse morador de Salvador, cuja realidade não condiz com a condição econômica do depositante.
Embora no período entre 1 de janeiro 2018 e 8 de julho de 2022 Deolane tenha sido proprietária ou sócia de outras empresas, até o ano-calendário 2021 ela apenas declarou rendimentos recebidos da Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda, no valor de R$ 306.487,25.
Porém, segundo o documento analisado pela reportagem, em 2021, a empresa Bezerra Publicidade movimentou R$ 4.271.924,48.

Além desses valores, Deolane declarou em seu Imposto de Renda o recebimento de outros R$ 51.026,32 da mesma empresa. Porém, o relatório aponta que nenhuma transferência bancária foi realizada entre as contas de Deolane e da Bezerra Publicidade e Comunicação. A única de suas empresas que lhe transferiu algum valor no período foi a Deolane Bezerra Holding Participações, no dia 05 de julho de 2022, no valor de R$ 50 mil.
A receita bruta declarada em 2021 por Deolane, Dayanne e Daniele somou R$ 2.085.408,19. Porém, na verdade, os créditos efetivos delas são mais do que o dobro do que foi declarado, ultrapassando R$ 4 milhões.

Empresas de fachada
As empresas DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda. e DSDD Cobranças e Informações Cadastrais Ltda., vinculadas a Deolane, possuem endereços no interior de São Paulo, distantes dos titulares. Nos dois endereços, foi verificada a inexistência do exercício da atividade declarada; nos locais, estão cadastradas várias empresas com nome social semelhante.
A primeira, DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda., constituída por Deolane em 7 de fevereiro de 2020, com capital social de R$ 500, tem como endereço informado uma modesta residência situada na cidade de Martinópolis, município próximo de Presidente Prudente, na região oeste do estado de São Paulo.
Não há qualquer indicativo de exercício de atividade empresarial no local, nem identificação da empresa ou de sua titular. A investigação apontou que, no mesmo endereço, estão registradas diversas outras empresas, variando apenas o número das salas. Além disso, o mesmo contador de duas empresas de Deolane também atua como contador de empresas do denunciado Everton.

Outra empresa apontada como de fachada é a DSDD Cobranças e Informações Cadastrais Ltda. Nela, Deolane não figura formalmente no quadro societário, composto por sua mãe, Solange Alves Bezerra; seu padrasto, Danilo Ferreira de Brito; e suas irmãs, Daniele Bezerra Santos e Dayanne Bezerra Santos. A empresa foi constituída em 15 de janeiro de 2021, com capital social de R$ 1 mil.

O endereço da empresa fica na periferia do município de Santo Anastácio, igualmente próximo de Presidente Prudente. Assim como a outra empresa, essa não tem nenhum indicativo de ser empresa, e sim uma modesta casa, a investigação apontou que no local moram duas mulheres. E no mesmo endereço também são registradas várias outras empresas, alterando-se apenas o número das salas.
Nova quebra de sigilo bancário revela aumento nas movimentações financeiras
Em uma nova quebra de sigilo na conta de Deolane, foi possível notar um aumento das transações financeiras. No período de 9 de julho de 2022 a 9 de maio de 2024, Deolane movimentou em suas contas bancárias, na condição de pessoa física, o valor de R$ 43.325.314,58 a crédito e o valor de R$ 41.648.336,78 a débito.
Segundo relatório, não foram identificados os depositantes de créditos no valor total de R$ 19.900.514,25, nem os beneficiários de débitos no valor total de R$ 27.150.534,01.
Dentre os maiores depositantes e beneficiários de débitos identificados estão suas próprias empresas e seus familiares. Somente com Giliard Vidal, sua empresas Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda e Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda a denunciada movimentou R$ 13.694.300 em créditos e R$ 1.651.000 em débitos.

Por meio da Bezerra Publicidade e Comunicação, neste período, Deolane movimentou o valor de R$ 66.942.369,53 a crédito e R$ 66.816.851,07 a débito, não foram identificados os depositantes de créditos no valor total de R$ 30.146.242,14, nem os beneficiários de débitos no valor total de R$ 33.465.514,88.
O documento aponta que uma empresa de Taquaritinga do Norte, no estado de Pernambuco, enviou em apenas duas transações o valor de R$ 3.410.000 para a empresa Bezerra Publicidade e Comunicação.
A polícia identificou outras duas empresas com as mesmas características, uma enviou a Bezerra Publicidade cerca de R$ 1.120.000 e a outra R$ 2.217.500. Indicam que ambas as pessoas jurídicas foram estrategicamente utilizadas para movimentar recursos sem origem para as empresas de Deolane.
Por meio da empresa Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda., a denunciada movimentou mais de R$ 15,5 milhões em créditos e débitos. A análise financeira não identificou os destinatários de montante superior a R$ 8 milhões.
A Bezerra Produções Artísticas Ltda, que atua no ramo de produção artística e entretenimento, movimentou R$ 3 milhões. Não foram identificados a origem ou os depositantes que totalizaram mais de R$ 1,2 milhões.
Empresa no nome dos filhos
Entre as empresas ligadas a Deolane está também a D&G Comércio em Geral Ltda. (Deo Beauty), registrada em nome da influenciadora e de seus filhos, Kayky Bezerra Teixeira e Giliard Vidal dos Santos. Giliard deixou o quadro societário em 10 de junho de 2024. Por meio da empresa, foram movimentados cerca de R$ 475 mil em créditos e débitos.
A análise das movimentações financeiras identificou divergências entre os valores informados pela empresa e os efetivamente registrados em suas contas bancárias. Em 2023, por exemplo, a receita bruta declarada superou em R$ 295.188,93 os créditos efetivamente recebidos.
Os dados também mostram um salto expressivo nas movimentações da empresa. Enquanto em 2023 os créditos efetivos somaram apenas R$ 150, no ano seguinte o valor chegou a R$ 474.984,37.

Segundo o relatório, as contas de Giliard registraram movimentação superior a R$ 11 milhões. Aos 22 anos, ele não possui histórico de atividade empresarial consolidada. A análise também apontou que não foram identificados os depositantes de cerca de R$ 4 milhões que ingressaram em suas contas.
Embora figure como recebedor de valores expressivos, mais de R$ 7,1 milhões em créditos, o dado mais relevante é que ele envia significativamente mais recursos do que recebe, totalizando R$ 11 milhões em débitos, o que representa um déficit financeiro.
O aspecto mais sensível, contudo, está na forma como parte desses recursos foi distribuída. Ao todo, R$ 366.458,47 foram destinados a 473 pessoas distintas, em transferências com valores que variam de R$ 5 mil a apenas R$ 0,18, evidenciando uma pulverização extrema dos recursos.
Outra empresa apontada pela investigação como integrante do núcleo responsável pela lavagem de capitais é a Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda., do ramo de cosméticos. Segundo o relatório, a empresa possui uma Ferrari avaliada em R$ 4,7 milhões e recebeu mais de R$ 8 milhões de depositantes não identificados.
Os investigadores também identificaram, em favor da empresa, o envio de cerca de R$ 300 mil por meio de operações fracionadas realizadas no mesmo dia, prática considerada relevante para a apuração da movimentação financeira do grupo.
Entradas milionárias nas contas de Deolane
Em uma das contas de Deolane, entre os dias 1 de abril e 6 de setembro de 2024, foram identificados depósitos que somam R$ 10.298.740,41 e transferências no valor de R$ 2.799.320,80. Entre as movimentações, destaca-se um pagamento de R$ 260 mil a uma empresa do ramo de veículos. Entre os destinatários dos valores transferidos, algumas pessoas foram alvo de investigações em operações da Polícia Federal.
No que se refere especificamente à pessoa jurídica Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., uma das contas registra movimentação entre 25 de maio e 22 de novembro de 2021, com créditos de R$ 3.717.955 e débitos de R$ 3.684.983.
No período subsequente, de 3 de novembro de 2021 a 23 de maio de 2022, foram registrados créditos totais de R$ 9.380.514,96.
No mesmo intervalo, os débitos somaram R$ 9.355.451,33, com forte concentração em aplicações automáticas e valores relevantes enviados a Daniele Bezerra Santos (R$ 649.910,22), além de uma transferência significativa para uma empresa cujo responsável possui anotação por lavagem de dinheiro.
Em outro período, de 1 de junho a 5 de setembro de 2024, foram registradas entradas de R$ 15.295.859,15. Já entre os destinos dos recursos, aparecem saídas de R$ 9.986.209,49, com destaque para transferências destinadas a Deolane, no valor de R$ 2,7 milhões.
Alguns pontos que evidenciam a pulverização do dinheiro:
- Concentração em pessoa física, uma pessoa citada no relatório recebeu R$ 1.270.000,00 em TEDs fracionadas e recorrentes;
- Pagamentos para familiares/ligados ao grupo: aparecem como beneficiárias Daniele e Dayanne, e também Danilo Ferreira de Brito (companheiro da mãe de Deolane);
- Integração patrimonial: Sete títulos no mesmo dia, sacada por Deolane sugerem aquisições/negócios de alto valor como destino do caixa;
- Destinatários de recursos com histórico de ocorrências criminais, como casos de falsidade ideológica.
Os apontamentos foram analisados por policiais civis, que elaboraram relatório indicando a existência de movimentações financeiras atípicas e incompatíveis com a capacidade econômico-financeira declarada por Deolane Bezerra, além de pessoas jurídicas a ela vinculadas e familiares próximos.
O documento também cita o recebimento de valores sem origem comprovada, a realização de depósitos fracionados em espécie e o pagamento de boletos.
Além disso, foi identificado um padrão semelhante de incompatibilidade financeira nas contas de Dayanne e Solange, respectivamente irmã e mãe de Deolane, ambas com movimentações mensais na ordem de milhões de reais.
Padrão de ostentação nas redes sociais
Em uma análise feita nas redes sociais de Deolane e de seus filhos, Kayky Bezerra e Giliard Vidal dos Santos, revela um padrão de ostentação de bens de alto valor econômico, incompatível com a capacidade financeira formalmente declarada.

Busca e apreensão aos endereços de Deolane
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Deolane. Durante as diligências, foram apreendidos: uma Mercedes-Benz, um Jeep Commander Limited, uma Land Rover Range, um Cadillac Escalade, um documento cujo conteúdo descreve um cronograma estratégico e a estruturação corporativa das empresas de Deolane; R$ 51.424 em espécie; € 1.550,00 em euros, sendo uma nota de 200; 19 relógios de modelos e marcas diversas; e 40 peças de joias diversas.
Durante as buscas realizadas no endereço apontado como sede das empresas Bezerra Publicidade e Comunicação e D & G Comércio em Geral, uma pessoa afirmou aos policiais que não viu Deolane uma única vez no local.
Cronograma estratégico
Dos documentos apreendidos, chamou a atenção da polícia um que estava descrito como “cronograma estratégico e estruturação corporativa”.
Segundo uma análise feita, o material não se tratava apenas de um simples levantamento cadastral, mas sim de um verdadeiro plano estratégico de reorganização societária, expansão comercial e adequação regulatória do grupo investigado, com definição de etapas, prazos, status de execução e pessoas jurídicas envolvidas.

A análise do documento também revela a alteração de endereço da empresa DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro, que, conforme apurado durante a investigação, estava cadastrada em uma modesta residência no município de Martinópolis. Segundo o documento apreendido, o novo endereço da empresa passou a ser no Jardim Grimaldi, em São Paulo. A alteração do endereço da empresa ocorreu recentemente, em 22 de abril de 2026.

Além disso, no documento, também é possível ver a previsão de aquisição internacional de uma empresa constituída em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, ponto que indica tentativa de internacionalização da estrutura empresarial e eventual aporte de capital estrangeiro. Deolane tinha a intenção de transferir suas empresas para Dubai. País conhecido por abrigar empresas que funcionam para facilitar a lavagem internacional de ativos.
Prestadora de serviço relata ameaça
Denise Rosane registrou um boletim de ocorrência afirmando que foi vítima de ameaça e calúnia por parte de Deolane. Segundo o relato, Denise prestava serviços de faxina para ela e seus filhos e foi acusada por Deolane de ter pego R$ 80 mil em espécie da casa de Kayky Bezerra.
Ela negou ter pego o dinheiro e afirmou ter sido ameaçada por Deolane e terceiros, entregando à polícia um pendrive que contém mensagens de áudio em que criminosos afirmam que o dinheiro lhes pertencia e que a denunciada e seu filho lavavam dinheiro para eles.
Considerações finais
Após as investigações e análises dos documentos apreendidos, o Ministério Público afirma que Deolane tem elevada capacidade de movimentação econômica, projeção pública e utilizava suas contas e as de empresas por ela controladas para receber e movimentar grandes quantias provenientes das práticas ilícitas do Primeiro Comando da Capital.
Deolane foi indiciada no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, instituída no Senado Federal, pelas contravenções penais de jogo de azar e loteria não autorizada, lavagem de dinheiro e integração de organização criminosa.
Em relação aos objetos e valores apreendidos, o Ministério Público pede que seja declarada a perda dos bens, por serem considerados produto ou proveito do crime.
Pedido de habeas corpus
A defesa da influenciadora pediu a revogação da prisão preventiva e a conversão para prisão domiciliar. O principal argumento utilizado foi o fato de ela ser mãe e única responsável pelos cuidados de sua filha menor de idade.
Segundo o documento analisado pelo iG, o pedido foi negado, e o Ministério Público Estadual solicitou a manutenção da prisão preventiva dos denunciados.
De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo, a existência de filha menor de 12 anos não é critério suficiente para a concessão da prisão domiciliar.
Outro ponto destacado foi que Deolane comprou uma Lamborghini de uma empresa da qual MC Ryan é sócio e administrador.
Deolane e outros denunciados pelo MP viram réus
Na última quinta-feira (18), a Justiça de São Paulo aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público e tornou ré a advogada e influenciadora Deolane Bezerra por associação a organização criminosa e lavagem de dinheiro da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). A decisão foi do juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª vara de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
Além de Deolane, também foram denunciados Marco Willians Herbas Camacho (Marcola), seu irmão Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, seus sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Everton de Souza.
Na prática, quem já estava preso preventivamente permanece detido.
A partir desse momento, a ação penal passa a tramitar formalmente, e a defesa é intimada a apresentar, por escrito, a resposta à acusação.
Segundo o Supremo Tribunal de Justiça, o juiz deve decidir e fundamentar se a pessoa continuará presa ou se poderá responder ao processo em liberdade. O tempo em que a pessoa ficou presa preventivamente será descontado futuramente caso haja condenação e fixação de pena.
A Justiça agendará a oitiva de testemunhas de acusação, de defesa e o interrogatório do próprio réu.
O que diz a defesa de Deolane?
A reportagem do iG entrou em contato com o advogado de Deolane, mas, até a publicação desta reportagem, não obteve retorno. O espaço segue aberto para posicionamento.
O que diz a defesa de Everton?
A reportagem tenta contato com os representantes de Everton de Souza para um posicionamento.
O que diz o advogado da família Camacho?
O advogado Bruno Ferullo também foi contatado. Ele é responsável pela defesa de Marco Willians Herbas Camacho, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e respondeu, por meio de nota:
A Defesa reitera que Marco Willians Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior encontram-se custodiados em estabelecimento penal federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019, submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação.
Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho também refutam integralmente as imputações formuladas. A Defesa destaca que o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que a simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude.
Quanto aos elementos de natureza patrimonial e financeira mencionados na denúncia, a Defesa esclarece que eles serão devidamente contextualizados no decorrer da instrução processual, oportunidade em que serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes acerca da origem e da regularidade das operações apontadas pela acusação.
A Defesa, diante da acusação apresentada, adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações atribuídas aos seus constituintes, confiando que, ao final da regular instrução processual, a verdade dos fatos será devidamente reconhecida pelo Poder Judiciário.
