Desistências de Paulo Serra e Kataguiri desenham eleição inédita em SP com apenas Tarcísio e Haddad e pode ser resolvida no 1° turno


Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad durante debate para governador de SP na Globo, em 2022.
Fábio Tito/g1
A desistência de Paulo Serra (PSDB) e Kim Kataguiri (Missão) da disputa pelo governo de São Paulo em outubro pode gerar uma disputa inédita no estado com apenas dois candidatos entre os partidos que tem representação na Câmara dos Deputados, segundo os especialistas ouvidos pelo g1.
Faltando pouco menos de um mês para o início da realização das convenções partidárias que definem os candidatos, o cenário que se desenha é de disputa apenas entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) entre os postulantes à cadeira de governador do maior estado do Brasil.
Salvo os partidos nanicos, nenhuma outra sigla grande fora PT e Republicanos deve lançar candidato ao governo paulista. Com isso, os cientistas políticos afirmam que é muito provável que a eleição em São Paulo seja definida no 1° turno.
“Desde 1982, com a retomada do voto direto para governador, quando Franco Montoro foi eleito, a gente sempre teve pelo menos três ou quatro candidatos realmente competitivos. Essa polarização estadual é inédita e traz um risco de nacionalização do debate que pode deixar os problemas de São Paulo de fora das discussões eleitorais no estado”, disse o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
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“A pluralidade sempre é muito boa para a democracia. Esse cenário é o reflexo da polarização nacional pode se refletir até na ida aos debates do Tarcísio. Porque, uma vez que ele chegue numa posição confortável nas proximidades do pleito, pode não querer debater os problemas atuais do estado como privatização da Sabesp, Segurança Pública e transporte público, que são o telhado de vidro da atual administração dele em São Paulo”, afirmou Teixeira.
Para evitar um eventual vitória de Tarcísio – que lidera com folga as pesquisas no 1° turno – o ex-ministro Márcio França (PSB) voltou a conversar com lideranças petistas para se lançar como terceiro candidato, com o argumento de forçar a realização de um 2° turno em SP.
Inicialmente, França era o principal nome em discussão para compor a chapa de Fernando Haddad (PT), uma vez que Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) lideram a corrida pelas duas cadeiras do Senado do estado de São Paulo.
Márcio França, ministro das Micro e Pequenas Empresas, fala ao g1 sobre o programa Acredita
Fábio Tito/g1
A estratégia seria que Haddad e França fizessem dobradinha nos debates e nas redes sociais, a fim de desgastar o atual governador, candidato à reeleição.
Embora o assunto ainda esteja em debate entre petistas graduados e a cúpula do PSB, Márcio França já começou a cutucar Tarcísio das redes sociais, dando sinais da dobradinha.
Na semana passada, quando o atual governador pediu desculpas aos paulistas pela onda de roubos de celulares no estado, ele comentou em diversas postagens de portais de notícia suas críticas a Tarcísio no episódio: “O paulista aceita até desculpas sinceras, mas não aceita reincidência. O @fernandohaddadoficial já alertou sobre isso há muito tempo”, escreveu.
“A entrada do Márcio França na disputa pode trazer uma novidade interessante, porque ele não é do PT e, portanto, talvez não tenha tanta rejeição no interior do estado, onde o antipetismo é forte. Ele talvez parte de um patamar interessante de intenção de voto, mas pouco se tem de evidência de que parte do eleitor e da elite possam migrar de voto e a coisa não ser resolvida também no 1° turno. Vai depender da desconstrução que a oposição vai conseguir ou não fazer sobre a gestão Tarcísio em SP”, alerta o cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria.
Márcio França (PSB) comenta reportagens sobre pedido de desculpas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo.
Reprodução/Redes Sociais
Nacionalização da eleição estadual
O professor da FGV também diz que a resolução da eleição estadual em São Paulo ainda no 1° turno pode trazer dificuldades para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), caso a eleição nacional vá também para a 2° turno.
“Hoje o Tarcísio tem mais voto em São Paulo que o Flávio, invertendo a eleição passada, onde o Jair era o puxador de votos do Tarcísio. Com a disputa eleitoral se encerrando no maior colégio eleitoral do país no 1° turno, o Flávio talvez possa ficar sem a mobilização necessária no estado, caso avance para o 2° turno”, afirmou.
Para Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, a decisão da eleição no maior colégio eleitoral do país pode ter dois efeitos contraditórios no eleitor paulista, que pode ser decisivo da disputa presidencial do outubro.
“A disputa binária antecipa um cenário de 2° turno na primeira etapa da eleição e pode de fato decidir o pleito na primeira rodada, se não aparecer outro candidato até o fim do período de convenção. Mas ela tem efeitos limitados na disputa presidencial. Porque, uma vez que o Tarcísio reeleito tenha presença institucional de alavancar a busca dos votos pelo Flávio no estado onde mais precisa, ela também pode elevar as abstenções no 2° turno, de um eleitor que está cansado da polarização Lulismo e bolsonarismo. O Flávio precisa, sobretudo, que seu eleitor registre o voto na urna e compareça no dia da votação, já que a tendência hoje é que o pleito presidencial vá para a segunda rodada”, afirma.
“A nacionalização de um debate em São Paulo é quase natural, uma vez que é o estado mais rico, de onde saem as principais lideranças do país. Mas se a oposição tem alguma intenção de ganhar ou levar a disputa para o 2° turno no estado, vai ter que se pautar pelos problemas do estado, onde Tarcísio é muito bem avaliado”, declarou Cortez.
Os cientistas políticos Rafael Cortez, da Tendência Consultorias e Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Montagem/g1/Divulgação
História dos primeiros pleitos pós redemocratização em SP
Em 1982, André Franco Montoro (PMDB) foi eleito no 1° turno com 49% dos votos válidos, num formato de eleição que ainda não havia disputa de 2° turno.
Naquele ano, Montoro enfrentou Reinaldo de Barros (PDS), Jânio Quadros (PTB) e o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 1° turno.
Resultado da eleição de 1982
Franco Montoro (PMDB) e Quércia (vice) – 5.209.952 votos / 49,04% – eleito no 1° turno
Reinaldo de Barros (PDS) e Afifi Domingos (vice) – 2.728.732 votos / 25,68%
Jânio Quardos (PTB) e Francisco Barros (vice) – 1.447.328 / 13,62%
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Hélio Bicudo – 1.144.648 / 10,77%
Rogê Ferreira (PDT) e João Gualberto (vice) – 94.395 / 0,89%
Os ex-governadores de São Paulo André Franco Montoro, Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho, todos eleitos pelo antigo PMDB.
Reprodução/TV Globo
Montoro tinha como vice Orestes Quércia, do mesmo partido, que na eleição seguinte, em 1986, também foi eleito em 1° turno com 40,78% dos votos válidos, enfrentando Antonio Ermírio de Moraes (PTB), Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT).
A 1ª eleição com o advento do 2° turno foi em 1990, quando Luiz Antonio Fleury Filho (PMDB) venceu Paulo Maluf (PDS), mesmo com o malufismo vencendo no 1° turno com mais de 43% dos votos no estado.
Resultado da eleição de 1986
Orestes Quércia (PMDB) – 5.578.795 votos / 40,78% – eleito no 1° turno
Antônio Hermínio de Moraes (PTB) – 3.675.176 / 26,86%
Paulo Maluf (PDS) – 2.668.425 / 19,50%
Eduardo Suplicy (PT) – 1.508.589 / 11,03%
Teotônio Simões (PH) – 250.657 / 1,83%
Os outros candidatos fortes eram Mario Covas (PSDB) e Plínio de Arruda Sampaio (PT), que foram os fiéis da balança que ajudaram a derrotar Maluf no 2° turno.
Naquele ano, eles não apoiaram explicitamente nenhum dos candidatos. Mas Plínio se posicionou contra o malufismo e Covas contra os dois candidatos.
Isso gerou um movimento de voto útil que favoreceu Fleury na reta final, que foi eleito governador de SP com 51,77% dos votos, contra 48,23% de Paulo Maluf.
Na eleição seguinte, para prefeito da capital paulista, Maluf foi eleito prefeito de São Paulo enfrentando Eduardo Suplicy no 2° turno.
Resultado da eleição de 1990
Paulo Maluf (PDS) – 5.872.473 / 43,50% – 2° turno: 6.865.157 votos – 48,23%
Luiz Antônio Fleury Filho (MDB) – 3.803.159 / 28,17% – 2° turno: 7.368.730 votos – 51,77% – eleito
Mário Covas (PSDB) – 2.050.665 / 15,19%
Plínio de Arruda Sampaio (PT) – 1.636.119 / 12,12%
Ademar de Barros Filho (PRP) – 63.117 / 0,47%
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