
A rápida expansão da inteligência artificial no mercado de trabalho acelera um movimento que começa a transformar as salas de aula brasileiras. Mais do que ensinar tecnologia, escolas buscam formas de desenvolver habilidades como pensamento lógico, criatividade, resolução de problemas e colaboração desde os primeiros anos da educação básica. Nesse contexto, a robótica educacional surge como uma das principais ferramentas para preparar estudantes para um cenário profissional em constante mudança.
Para Alex Paiva, head de produtos do Educacional, ecossistema de tecnologia e inovação da Positivo Tecnologia, o desafio não está em antecipar uma formação técnica, mas em construir competências que permitam aos alunos se adaptar às transformações do futuro.
“O papel da educação básica não é antecipar o mercado de trabalho. O que a escola precisa fazer é desenvolver habilidades como pensamento lógico, ética e, principalmente, a capacidade de aprender a aprender”, afirma, em entrevista ao iG.
Segundo Paiva, a discussão sobre inteligência artificial nas escolas vai além do ensino de programação. “Não precisamos colocar uma criança de 10 anos para programar em Python ou JavaScript. Ela precisa entender como um algoritmo funciona, como fazer as perguntas certas para uma IA e, principalmente, questionar as respostas que recebe”, explica.

A visão acompanha uma tendência que ganha força no setor educacional. Dados do Educacional mostram que 69% dos professores consideram a alfabetização em IA essencial para o futuro dos alunos — embora 40% afirmem que suas escolas ainda não estejam preparadas para abordar o tema de forma adequada.
BNCC Computação: um passo importante com dois gargalos
A homologação da BNCC Computação é apontada como um marco importante para a educação brasileira. Na avaliação de Paiva, a inclusão das competências digitais no currículo era necessária, mas ainda esbarra em desafios estruturais.
“O Brasil deu um passo importante, mas ainda enfrenta dois gargalos fundamentais: infraestrutura e formação de professores. A tecnologia sozinha não ensina ninguém. Não adianta ter os melhores equipamentos se o professor não souber como utilizá-los dentro da sala de aula”, destaca.
O executivo avalia que o desafio é ainda mais complexo na rede pública, pois questões como conectividade e suporte metodológico costumam ser mais limitadas. Por isso, defende que a implementação da tecnologia seja acompanhada por programas contínuos de capacitação docente.
O risco de ampliar desigualdades digitais
A popularização da inteligência artificial também traz preocupações sobre inclusão digital. Para Paiva, existe o risco de ampliar a distância entre alunos que têm acesso à tecnologia e aqueles que permanecem à margem da transformação digital.
Ele defende que o letramento digital deve ser tratado como uma competência básica, tão importante quanto a alfabetização tradicional. “Hoje existem dois letramentos fundamentais: o de leitura e escrita e o digital. Ambos são essenciais para que o cidadão consiga atuar na sociedade.”
Robótica educacional e o aprendizado pelo erro
Dentro desse cenário, a robótica educacional aparece como ferramenta capaz de desenvolver não apenas competências técnicas, mas também habilidades comportamentais valorizadas pelo mercado.
Segundo Paiva, o aprendizado ocorre principalmente durante os processos de tentativa e erro. “Quando o robô não funciona ou o projeto precisa ser refeito, os alunos aprendem a colaborar, a ouvir diferentes opiniões e a encontrar soluções. O erro deixa de ser punitivo e passa a ser uma pista para avançar no aprendizado”, afirma.
Para ele, competências como trabalho em equipe, resiliência, autonomia e criatividade são vivenciadas na prática durante as atividades de robótica. “As soft skills não são ensinadas em uma aula expositiva. Elas são vividas durante o processo.”
Nexis e a parceria com LEGO Education
O avanço da robótica nas escolas também está ligado à estratégia do Educacional de tratar computação e tecnologia como componentes integrados ao currículo — e não apenas atividades extracurriculares. “A robótica e a computação não podem ser vistas como diferenciais de escolas premium. Elas fazem parte da nova alfabetização do século XXI”, diz.
Entre as iniciativas está a parceria com a LEGO® Education, que já completa dez anos no Brasil. Segundo Paiva, o diferencial da colaboração está na oferta de um modelo completo, que combina kits tecnológicos, material pedagógico estruturado, suporte técnico e capacitação docente. “Muitas escolas já compraram equipamentos que acabaram virando peso de papel. O que faz a diferença é entregar uma solução completa, com metodologia e acompanhamento para que a tecnologia realmente gere impacto pedagógico.”
A novidade mais recente é o Nexis, plataforma que integra robótica, inteligência artificial e BNCC Computação, com os novos kits LEGO® Education Computer Science & AI, lançados internacionalmente neste ano. “Estamos entrando em uma fase em que cada componente possui sua própria inteligência e se comunica com os demais. É uma robótica muito mais próxima da realidade tecnológica que os alunos encontrarão no futuro”, afirma Paiva.
Para o executivo, o movimento reflete uma convergência entre as exigências do mercado, o interesse dos estudantes e as demandas das instituições de ensino. “Estamos preparando as escolas para o presente e para o futuro. A robótica educacional integrada à inteligência artificial tem potencial para formar uma geração mais conectada à economia digital e mais preparada para enfrentar desafios complexos”, conclui.
