Digimais: conheça o banco de Edir Macedo alvo de ação da PF

Banco DigimaisDivulgação/Banco Digimais

O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, virou alvo da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (23) em uma investigação sobre suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A Operação Miragem autorizou buscas, quebra de sigilos bancário e fiscal e bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores dos investigados. A PF apura se demonstrativos contábeis e registros enviados a órgãos de controle foram manipulados para esconder a real situação financeira da instituição.

O banco não é tão conhecido do público quanto grandes instituições de varejo, mas atua há décadas no mercado financeiro. O Digimais oferece crédito consignado, financiamento de veículos e linhas para empresas, como capital de giro, desconto de duplicatas e antecipação de recebíveis. A operação não anunciou intervenção, liquidação ou suspensão de serviços a clientes. As medidas divulgadas até agora miram investigados, documentos, sigilos e bens.

De Banco Renner a Digimais

O Digimais nasceu como Banco Renner, uma instituição de origem gaúcha criada em Porto Alegre em 1981. O nome vinha da família Renner, ligada ao grupo empresarial que deu origem à varejista de mesmo nome.

Edir Macedo entrou no banco como acionista minoritário em 2009. Em 2020, passou a controlar integralmente a instituição. No mesmo ano, o Banco Renner mudou de nome e passou a se chamar Banco Digimais, em uma tentativa de reposicionar a marca como banco digital.

Edir MacedoAlan Santos/Presidência da República/Divulgação

A sede também foi transferida para São Paulo. A instituição passou a se apresentar como Banco Digi+ em parte dos canais e manteve foco em crédito, especialmente consignado e financiamento de veículos.

No site, o banco diz ter mais de 40 anos de história e se apresenta como especialista em crédito e investimentos, atendendo mais de 140 mil clientes. Entre os produtos divulgados estão crédito consignado, capital de giro, desconto de duplicatas, antecipação de contratos e antecipação de recebíveis.

O crédito consignado é aquele em que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício. Por isso, costuma ter juros menores que outras linhas. No Digimais, a contratação é feita por correspondentes bancários autorizados, segundo a própria instituição.

Outro braço importante do banco foi o financiamento de veículos, especialmente carros seminovos. Esse segmento aparece em demonstrações financeiras e em reportagens recentes sobre a situação do banco.

Por que o banco entrou na investigação

A PF afirma que a investigação foi apoiada por relatórios do Banco Central do Brasil (BC). Esses documentos indicaram suspeitas de manipulação de balanços e registros regulatórios.

Segundo a PF, os investigados teriam alterado informações para esconder a real situação financeira do banco, aparentar solidez diante dos órgãos de fiscalização e liberar operações supostamente irregulares.

A suspeita envolve três crimes: gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito proibidas. Todos estão previstos na Lei nº 7.492/1986, que trata de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. A Justiça Federal também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

Banco Digimais foi alvo de operação da Polícia FederalDivulgação/Polícia Federal

O nome da operação, Miragem, faz referência à suspeita de que o banco teria apresentado uma imagem financeira diferente da real aos órgãos de controle.

O caso surge depois de meses de desgaste em torno do Digimais. Reportagens do Estadão apontaram operações com fundos de investimento, carteiras de financiamento de veículos com alta inadimplência e ativos imobiliários de difícil avaliação.

Segundo o jornal, auditores independentes tiveram dificuldade para analisar parte dos aportes do banco em fundos por falta de documentos. Uma das linhas investigadas pela PF é justamente se esse tipo de operação foi usado para melhorar artificialmente a aparência das contas da instituição.

O Digimais já havia negado irregularidades contábeis. Em maio, o banco divulgou nota dizendo que acusações sobre o tema eram “completamente inverídicas” e chamou reportagens sobre o caso de “imprudentes” e “irresponsáveis”.

Banco estava em negociação com o BTG

Antes da operação da PF, o Digimais já estava no centro de uma negociação de venda. Em abril, o banco informou que os acionistas haviam assinado documentos vinculantes com o BTG Pactual para a possível compra do controle da instituição.

O comunicado dizia que a conclusão do negócio dependia de condições regulatórias e de aprovações necessárias para validar a operação. Entre os órgãos envolvidos nesse tipo de análise estão o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O valor da transação não foi divulgado.

A negociação com o BTG veio depois de outra tentativa de venda. O controle do Digimais chegou a ser negociado com o empresário Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, mas o negócio não avançou.

A instituição também passou por troca no comando. Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, assumiu a presidência do Digimais depois de homologação pelo Banco Central.

O iG procurou o Banco Digimais e aguarda retorno. A reportagem não conseguiu localizar contato da assessoria de Edir Macedo. O espaço segue aberto para manifestação dele, do banco e dos demais citados. Caso haja posicionamento, o texto será atualizado.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.