
Três instrutores são indiciados por morte de jovem em salto de rope jump em Limeira
Os relatos de instrutores e testemunhas revelam detalhes sobre o acidente que causou a morte de Maria Eduarda Rodrigues, jovem de 21 anos que foi lançada sem corda durante um salto de rope jump e caiu de uma altura de 40 metros no último dia 13 de junho.
Os depoimentos obtidos pela EPTV, afiliada da TV Globo, mostram como as pessoas ouvidas pela Polícia Civil detalharam a atuação do grupo, as reações com o acidente, a suposta tentativa de fuga e até como eles explicam o sumiço da câmera que estava com a vítima – veja ponto a ponto abaixo.
Os três instrutores presos desde o dia da tragédia, Luis Felipe Feliciano Egoroff, Maicon Fernandes Cintra e Vitor de Freitas Gonçalves, foram indiciados pela Polícia Civil nesta segunda-feira (22) por homicídio com dolo eventual.
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No último sábado (20), mais três pessoas da equipe responsável pela organização e execução da atividade foram presas suspeitas de apagar conteúdos digitais e desaparecer com a câmera que gravava queda. João Antônio Pivetta Ribeiro da Silva, Evelyne dos Santos Gonçalves e Gabriel Barros Martins vão ser investigados em um segundo inquérito.
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*Os nomes de testemunhas e de pessoas da empresa que, até o momento, não foram presos pela investigação estão modificados pela reportagem.
👀 O que você vai ver?
Como a empresa se organizava?
Como o evento estava organizado?
Como foi o salto da Maria Eduarda?
Como foram os primeiros socorros?
Como foi a possível tentativa de fuga?
Como eles explicam o sumiço da Câmera GoPro?
Como foi a possível exclusão da conta?
Como a empresa se organizava?
O evento de rope jump não era realizado por uma empresa formal, mas sim por grupo que se reuniu para realizar os saltos. A maioria dos integrantes vive em São Paulo, mas Evelyne dos Santos Gonçalves é do Rio de Janeiro e Vitor de Freitas Gonçalves é do Rio Grande do Sul.
Em depoimento, Evelyne contou que conheceu os outros integrantes do grupo enquanto saltava pelo Brasil com outras equipes. As funções eram divididas dessa forma:
Cadastros e mídias: referida como “CEO” do grupo, Evelyne era a responsável pela recepção, cadastro dos participantes, assinatura de termos de responsabilidade, entrega de fichas de ordem numérica e gestão das redes sociais, incluindo a edição e postagem de vídeos para “viralizar” o esporte.
Equipagem: em uma tenda, *Lucas recebia e identificava os participantes, conferia pagamentos e câmeras, distribuía pulseiras diferenciando salto e filmagem e, por fim, os equipava com peitoral, cadeirinha, mosquetões e capacete antes de encaminhá-los à plataforma.
Salto: Maicon Fernandes Cintra e Luis Felipe Feliciano Egoroff eram os instrutores veteranos responsáveis pela operação direta na plataforma de salto e pela fixação final das cordas de segurança no peitoral dos clientes.
Segurança e suporte: *Caio era o responsável por travar e gerenciar a segurança das cordas durante os procedimentos. Na data do acidente, ele estava colocando o bloqueio da corda, mas não era responsável por isso no salto da Maria Eduarda.
Recepção na base: João Antônio Pivetta Ribeiro da Silva, ou “Alemão”, ficava na parte inferior da ponte para recepcionar os saltadores, auxiliando na retirada dos equipamentos após a descida e operando um rádio (walkie-talkie) para se comunicar com a equipe no topo.
Organização geral: Gabriel Barros Martins também foi identificado pelas investigações como integrante da equipe responsável pela organização e execução do evento.
A divulgação era feita por meio do Instagram e do WhatsApp, com a publicação de vídeos de saltos anteriores. O valor do salto era de R$ 180, e havia a opção da filmagem com câmera GoPro 360 e edição posterior, mediante o pagamento de R$ 110 adicionais.
Outros saltos já estavam marcados para os próximos dias em Rio Claro (SP), por R$ 210, e em Minas Gerais, por R$ 250. No entanto, segundo a Polícia Civil e especialistas da área ouvidos pelo g1, outras empresas formais chegam a cobrar a metade do valor, R$ 90.
Segundo *Ronaldo, que estava aguardando para fazer o salto no dia do acidente, o grupo tinha a agenda cheia. Ele comprou o salto em abril, mas só conseguiu agendar para junho e notou que já haviam datas fechadas nos próximos dias, com datas bem mais caras do que o valor que ele pagou.
A conclusão da Polícia Civil é que a atividade realizada pelo “Entre Cordas” tinha como objetivo gerar lucro e estava ligada à busca por destaque nas redes sociais. A estratégia era fazer os conteúdos “viralizarem”, aumentando o engajamento digital.
Como o evento estava organizado?
Jovem de 21 anos morre após ser lançada sem corda de plataforma de rope jump em Limeira
Reprodução/Redes sociais
A manhã da tragédia estava chuvosa e o evento, que deveria começar às 6h, só fez o primeiro salto às 8h. Segundo *Ronaldo, o salto que ele realizaria estava marcado para às 9h30, e mesmo ele chegando 10 minutos mais cedo, tinha 30 pessoas para saltar antes dele. Entre elas, uma criança de oito anos.
Nos depoimentos, os participantes relatam que notaram um despreparo da empresa. Muitos agendamentos, pessoas aglomeradas próximas até demais da plataforma de salto e, até mesmo, que os instrutores faziam o salto rápido demais.
“Estava muito desorganizado onde estava tendo o salto. As pessoas estavam na frente olhando, e não não existia nada isolado. Eles não determinaram para a gente se manter afastado para fazer o salto organizado. Não tinha nada organizado”, disse o participante do evento *Edgar.
Segundo a Polícia Civil, havia mais de 80 participantes aguardando e o cronograma estava com atraso significativo. Além disso, afirmou que a eventual sobrecarga de operação e excesso de pessoas na área de risco, podem ter aumentado a probabilidade de falhas.
Dias antes do salto, segundo o depoimento de *Ronaldo, Evelyne enviou um áudio sugerindo estratégias para que os participantes conseguissem fazer os vídeos dos saltos “viralizarem” nas redes sociais.
Saiba qual era a dinâmica da equipe para a realização do salto:
Os participantes passavam pela tenda e faziam o cadastro. Eles recebiam pulseiras de identificação: uma azul para o salto e uma amarela para a filmagem.
Os participantes passavam pela etapa de preparação e depois aguardavam na fila de espera, organizada por ordem numérica.
No momento do salto, já na plataforma, Maicon e Luis Felipe realizavam a checagem final e faziam a conexão das cordas. O sistema utilizado contava com duas cordas de 12 mm interligadas.
Após o salto, o participante era recebido por João, o responsável por soltar o equipamento.
Como foi o salto da Maria Eduarda?
Maria Eduarda escolheu saltar em “aviãozinho”. Esse foi o primeiro salto desse no dia, mas uma outra participante tentou saltar dessa forma das desistiu poucos minutos antes. Diferente de um salto comum, a vítima é erguida acima da cabeça dos instrutores e arremessada da ponte.
Geralmente são necessários três instrutores para realizar a manobra devido ao peso e à necessidade de equilíbrio. Os instrutores orientam a pessoa a se inclinar para frente antes de ser levantada e jogada.
Maicon, Luis Felipe e Vitor foram os responsáveis pelo salto. Segundo o depoimento dos dois, não existia uma definição entre eles sobre quem faria a checagem ou quem amarraria a corda, mas, Maicon afirmou que em “99% das vezes” essa era uma responsabilidade do Luis.
Luis Felipe, Maicon e Vitor, da esquerda para a direita.
Reprodução
A conexão deveria ser feita no peitoral da vítima. Tanto o Delegado quanto os investigados admitem que a falta da corda era “muito visível”. No depoimento, Maicon chegou a falar que não conseguia entender como eles não perceberam a falta da corda.
“Não consigo entender em que momento eu não vi a corda. Simplesmente não consigo entender”, disse.
Maicon relatou também que ele, antes do salto, eles costumavam checar o número e o conferir os equipamentos do saltante (inclusive as cordas). No depoimento, ele afirmou que não se lembrava se aquilo tinha sido feito com Maria Eduarda.
Conforme a Polícia Civil, há registros de que o alerta “a corda” foi proferido por alguém no momento imediatamente anterior ao arremesso, sem que os responsáveis interrompessem o procedimento. Nos depoimentos, nenhum dos três integrantes afirmaram ouvir
Como foram os primeiros socorros?
Ao perceberem que lançaram Maria Eduarda em queda livre, as testemunhas relataram que Vitor, Maicon e Luis Felipe “ficaram pálidos” e entraram em estado de choque. Os três colocavam as mãos na cabeça e não sabiam explicar o que tinha acontecido.
De acordo com o depoimento do *Caio, logo após ouvir estrondo, ele acessou o rapel e desceu até a Maria Eduarda. Ele disse que ficou com a vítima até o momento da enfermeira chegar e ficou acompanhando o pulso da vítima. *Lucas também relatou ter descido.
As enfermeiras *Raquel e *Tainara, que estavam na fila aguardando por um salto, desceram para atender a Maria Eduarda. *Raquel contou que notou que a vítima estava sem um dos tênis e que percebeu que ela estava deitada com o abdômen para cima e com o pulso fraco.
*Raquel precisou desajustar o equipamento de segurança para iniciar a massagem cardíaca. *Tainara contou à Polícia que pediu um guarda chuva para proteger o corpo da Maria Eduarda e ficou acariciando o cabelo dela.
Como foi a possível tentativa de fuga?
Tanto a Polícia Civil quando testemunhas relataram que os integrantes do grupo tiraram o uniforme e trocaram de roupas em uma tentativa de sair do local (sendo que pelo menos dois, João e Gabriel realmente teriam conseguido), com alguns até indo para uma área verde.
A participante *Amanda disse que viu alguns funcionários que estavam no local onde Maria Eduarda caiu trocando de roupa, colocando as coisas em um carro e tentando fugir do local. *Edgar, inclusive, relatou que viu a Evelyne se vestindo com uma blusa para tentar esconder o uniforme.
Devido à suposta fuga, o policial solicitou o apoio do helicóptero Águia e de outras viaturas. Os indivíduos foram localizados e abordados em cima da ponte. O policial destacou que dois deles haviam trocado de roupa e, ao serem questionados sobre o motivo, permaneceram em silêncio.
Os investigados negaram veementemente qualquer tentativa de fuga. *Lucas, por exemplo, justificou a mudança de roupa devido ter sujado o uniforme do grupo no primeiro salto do dia.
Luis Felipe admitiu ter trocado de camiseta, mas justifica que a peça anterior estava “muito suja e molhada” por estar trabalhando desde cedo na chuva. Ele afirma que foi até o seu carro, trocou a roupa e voltou para o meio da ponte, onde foi abordado por policiais armados.
Como eles explicam o sumiço da Câmera GoPro?
João e Evelyne, da esquerda para a direita.
Reprodução
Outro ponto de conflito é o destino da câmera que Maria Eduarda portava durante o salto. Nos depoimentos, todos afirmaram não saber o destino do equipamento e a enfermeira *Raquel declarou que quando chegou para socorrê-la não havia nada na mão da vítima.
O depoimento de *Edgar e *Roberto foram essenciais para esclarecer esse ponto, pois os dois afirmaram a polícia em seus depoimentos que viram e gravaram o momento que o suspeito manipulou o corpo de Maria Eduarda e pegou o câmera no braço na vítima.
“Eu vi ele retirando a câmera. Ele até puxou ela, tipo assim, sabe, para poder tirar a corda do ombro ela […] Ele tirou a câmera, não conferiu o sinal vital dela”, relatou Edgar.
De acordo com a Polícia Civil, a suspeita é que João Antônio Pivetta Ribeiro da Silva tenha pegado o objeto.
Como foi a possível exclusão da conta?
Houve a exclusão da conta do Instagram vinculada ao grupo “Entre Cordas” logo após o evento, o que, segundo a Polícia Civil, é visto como um comportamento direcionado à supressão de elementos probatórios.
A própria Evelyne explicou em depoimento que a principal atividade exercida por ela era a gestão das redes sociais. E, conforme a Polícia, ela detinha o domínio estrutural do evento e, imediatamente após o óbito, excluiu a conta do Instagram do grupo “Entre Cordas” para sumir com provas digitais.
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