Jovens ficam menos tempo no emprego e geração ‘nem-nem’ avança; entenda o que está por trás


Ceará tem cerca de 605 mil jovens “nem-nem”, que não trabalham nem estudam, segundo IBGE.
Natinho Rodrigues/Sistema Verdes Mares
Os jovens trocam mais de emprego e permanecem menos tempo nas vagas formais do que trabalhadores de outras faixas etárias.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que, entre adolescentes de 14 a 17 anos que estão ocupados, 52% ficam menos de um ano no mesmo emprego, o que evidencia uma entrada precoce no mercado marcada por alta rotatividade.
O levantamento indica que o desafio não se resume a conseguir uma primeira oportunidade, mas também a transformar essa inserção em uma trajetória profissional mais estável e de desenvolvimento.
Antes mesmo da entrada no mercado, há outro ponto de atenção: uma parcela significativa dos jovens não está nem trabalhando nem estudando. São os chamados “nem-nem”, que não estudam nem trabalham.
Segundo o MTE, esse grupo ainda representa uma fatia relevante da população jovem, o que evidencia dificuldades simultâneas de acesso à educação e ao mercado de trabalho.
Os dados também mostram diferenças em relação a outras faixas etárias, indicando que os jovens enfrentam mais instabilidade na transição entre formação e ocupação profissional.
Entre os fatores que ajudam a explicar esse quadro estão a falta de experiência, a concentração em ocupações mais vulneráveis e a maior presença em contratos temporários ou funções de menor qualificação.
O levantamento aponta ainda variações entre setores, níveis de escolaridade e regiões do país, mostrando que essas dificuldades se distribuem de forma desigual entre os jovens.
O cenário revela dois movimentos simultâneos: parte da juventude não consegue acessar oportunidades de trabalho ou estudo, enquanto outra entra no mercado, mas encontra dificuldade para se manter nele.
Segundo o MTE, o enfrentamento desse problema exige ações em diferentes frentes da trajetória profissional. Programas de aprendizagem e incentivo ao primeiro emprego ajudam na entrada, enquanto iniciativas de qualificação e desenvolvimento profissional contribuem para reduzir a saída precoce das empresas.
Por que os jovens trocam mais de emprego?
A alta rotatividade entre os jovens também ajuda a revelar uma mudança mais profunda no comportamento das novas gerações em relação ao trabalho. O g1 já mostrou esse fenômeno em reportagens anteriores.
Aurélio Santana e Raphaella Abrahão têm algo em comum: passaram por seis empresas ao longo da vida — mas em momentos completamente diferentes da carreira e sob lógicas opostas de mercado.
Hoje aposentado, o economista representa a geração baby boomer (nascidos entre 1946 e 1964). Ele construiu praticamente toda a trajetória profissional em uma única instituição: foram 43 anos na Anfavea.
Já Raphaella, formada em relações públicas e representante da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), vive uma experiência bastante distinta. Nos últimos seis anos, mudou de emprego seis vezes.
A comparação entre os dois expõe uma transformação estrutural no conceito de carreira. Enquanto gerações anteriores associavam sucesso à estabilidade e permanência, entre os mais jovens ganham força outros critérios, como aprendizado constante, flexibilidade e propósito.
“Estabilidade nunca foi meu objetivo. Meu foco é estar em lugares onde eu aprenda e me desenvolva”, diz Raphaella, que resume uma mentalidade cada vez mais presente entre jovens profissionais.
Do outro lado, a lógica é mais linear. Aurélio resume sua visão de sucesso de forma diferente: “O importante é chegar ao fim da carreira com conforto financeiro, saúde e poder ajudar os filhos. Olhar para trás e saber que você teve uma vida útil, que impulsionou sua família.”
Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. No Brasil, jovens de 18 a 24 anos permanecem, em média, cerca de 12 meses no mesmo emprego, segundo levantamento do MTE. Em 2024, a rotatividade dessa faixa etária chegou a 96,2%.
Entre os principais motivos para a saída estão a busca por novas oportunidades, falta de reconhecimento e questões relacionadas ao ambiente de trabalho. Estresse, saúde mental e baixa flexibilidade também aparecem entre os fatores citados.
Esse movimento ganhou até um nome: job hopping, expressão usada para descrever a troca frequente de empregos em curtos períodos. Mais do que instabilidade, especialistas apontam que o fenômeno também pode refletir uma busca ativa por crescimento rápido, alinhamento de valores e experiências mais diversas.
Segundo o sociólogo Ricardo Nunes, as diferenças entre gerações ajudam a explicar esse comportamento. Enquanto baby boomers e parte da geração X foram moldados em um contexto de maior estabilidade e promessa de carreira linear, os jovens de hoje entram no mercado sob condições mais instáveis e com menos garantias.
Nesse cenário, a permanência longa em uma única empresa deixa de ser regra e passa a ser uma entre várias possibilidades — em um mercado que exige mais adaptação do que fidelidade.
Para as empresas, o desafio é acompanhar essa mudança e repensar estratégias de atração e retenção de talentos em um ambiente onde as trajetórias profissionais se tornaram mais rápidas, fragmentadas e diversas.
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