CazéTV é investigada por anúncios de bets na Copa do Mundo

Casimiro Miguel, amplamente conhecido como Cazé, é um dos maiores streamers, comunicadores e influenciadores digitais do BrasilReprodução/Internet

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, abriu uma investigação para apurar possíveis irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026 realizadas pela CazéTV.

A decisão ocorre em meio ao aumento das críticas sobre a presença das casas de apostas nas transmissões esportivas e ganhou ainda mais repercussão após a circulação de um vídeo do influenciador Casimiro Miguel, fundador e principal rosto da plataforma.

Na gravação, que viralizou nas redes sociais, Casimiro comenta as reclamações de parte do público sobre a quantidade de anúncios de bets durante os jogos e afirma que as empresas do setor se tornaram fundamentais para o financiamento do mercado esportivo.

“Tem bet para tudo que é lado. É fato, né? Não tem muito o que fazer. É o que mais paga hoje. É o que faz girar o negócio”, disse.

Ao ser questionado sobre possíveis impactos negativos da exposição às apostas, o influenciador também minimizou as críticas.

“A galera pode se incomodar de ver na tela. Tá, mas prejudicar o quê?”, afirmou.

Poucos dias depois da repercussão do vídeo, a Senacon anunciou a abertura de um procedimento para verificar se as ações promocionais exibidas durante as transmissões da Copa seguiram as regras de publicidade responsável previstas na legislação brasileira.

Segundo o órgão, a análise buscará identificar se houve mensagens que incentivem apostas impulsivas, transmitam a ideia de ganhos fáceis ou deixem de informar adequadamente os riscos envolvidos na atividade.

Caso sejam constatadas irregularidades, poderão ser aplicadas medidas administrativas previstas no Código de Defesa do Consumidor.

Procurada pelo iG, a CazéTV foi questionada sobre a investigação aberta pela Senacon e sobre os critérios adotados para a divulgação de publicidade de apostas durante as transmissões do Mundial. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

Parlamentares ampliam pressão sobre publicidade de apostas

Essa investigação ocorre em um momento de crescente pressão política sobre a publicidade das bets.

A deputada federal Erika Hilton informou nas redes sociais na terça-feira (23) que acionou o Ministério Público Federal para pedir medidas contra a divulgação de apostas e odds por comentaristas esportivos durante transmissões.

Segundo a parlamentar, profissionais que ocupam posição de influência sobre o público não deveriam estimular apostas ao vivo nem sugerir possibilidades de ganhos durante eventos esportivos.

A deputada federal Tabata Amaral também publicou conteúdos alertando para os impactos sociais e econômicos das apostas online e defendeu uma discussão mais ampla sobre o assunto.

Já a senadora Simone Tebet criticou a quantidade de anúncios de casas de apostas durante a Copa do Mundo e afirmou que o tema exige maior debate por parte das autoridades.

As manifestações refletem uma preocupação crescente com a expansão da publicidade das bets, que hoje está presente não apenas na CazéTV, mas também em emissoras de televisão, plataformas digitais, clubes de futebol e campeonatos esportivos.

Dívidas e dependência em apostas

A expansão das casas de apostas no Brasil tem sido acompanhada por alertas de especialistas em saúde mental, economia e defesa do consumidor sobre os efeitos do setor na vida financeira dos brasileiros.

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estima que cerca de 11 milhões de pessoas apresentam comportamento de risco relacionado às apostas online. Dentro desse grupo, aproximadamente 1,4 milhão já desenvolveu um transtorno associado ao jogo, com consequências que vão desde dificuldades financeiras até problemas familiares e emocionais.

Já um estudo realizado pelo Instituto Locomotiva apontou que milhões de brasileiros já deixaram de pagar contas básicas ou reduziram gastos essenciais para continuar apostando. Em alguns casos, recursos destinados à alimentação, transporte e outras despesas do dia a dia passaram a ser direcionados para plataformas de apostas.

Outro levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School, identificou que as bets já aparecem entre os fatores associados ao crescimento do endividamento das famílias brasileiras. Os pesquisadores apontam que a facilidade de acesso por aplicativos, a promessa de ganhos rápidos e a oferta constante de apostas durante eventos esportivos ajudam a ampliar os riscos de perdas financeiras.

Os especialistas também alertam para a chamada “normalização das apostas”, impulsionada pela presença massiva das marcas em transmissões esportivas, redes sociais e patrocínios de clubes. Para eles, a exposição frequente pode fazer com que a atividade seja vista apenas como entretenimento, sem que os riscos de vício e prejuízo financeiro recebam a mesma atenção.

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