Inteligência artificial exige mais repertório humano nas empresas

A inteligência artificial deixou de ser tratada apenas como uma ferramenta operacional e passou a ocupar o espaço central na discussão sobre produtividade, criatividade e modelos de negócio. No Money Report TV , da BM&C News , Cristina Falcão, Sérgio Gordilho e Simone Sancho analisam como a tecnologia vem alterando a rotina de empresas, profissionais e consumidores.

O debate mostrou que a principal mudança não é apenas na automação de tarefas, mas na velocidade com que a IA passou a interferir em processos criativos, comerciais e decisórios. A tecnologia impede barreiras de execução, mas também amplia os riscos de padronização, perda de repertório e uso superficial das ferramentas.

“Acho que nunca vi uma mudança tão radical e como é trazida pelas inteligências artificiais e principalmente pela cadeia evolutiva”, afirma Simone Sancho.

A execução fica mais rápida, mas diferenciação exige imaginação

Na comunicação e na publicidade, a inteligência artificial já mudou a lógica de produção. Tarefas repetitivas e etapas operacionais passaram a ser realizadas com mais velocidade, permitindo que as equipes concentrem esforços em ideias, estratégia e curaria.

Esse movimento, porém, também traz um efeito colateral relevante para marcas e agências. Com ferramentas semelhantes disponíveis para muitos profissionais, a execução tende a ficar mais dinâmica, o que torna a diferenciação mais dependente da capacidade humana de imaginar, interpretar e construir narrativas próprias.

“Então eu acho que eh é uma transformação muito grande. Eu estou vendo isso dia a dia, isso acontecendo. Mas ao mesmo tempo também eu estou vendo tudo ficar tudo igual, muito parecido”, analisa Sérgio Gordilho.

Produtividade pode mudar sem foco estratégico

A redução do custo de execução cria oportunidades para empreendedores e empresas testarem ideias com mais rapidez. A IA permite desenvolver vídeos, apresentações, sistemas, campanhas e modelos de negócio em menos tempo, mas essa facilidade também pode ampliar a dispersão estratégica.

Para Simone Sancho, o desafio passa a ser transformar a infinidade de possibilidades em decisões concretas. Quando tudo parece repetidovel, a capacidade de priorizar se torna uma competência ainda mais importante para líderes, equipes e empresas que buscam resultados consistentes.

“Ficou tão fácil de executar que ficou difícil focar”, resume Simone Sancho.

Área comercial ganha dados, mas relação segue humana

No campo comercial, a inteligência artificial aparece como uma ferramenta útil para pesquisa, prospecção e preparação de abordagens. A tecnologia ajuda a reunir informações sobre empresas, setores e potenciais clientes, reduzindo o tempo necessário para estruturar uma conversa de negócios.

Ainda assim, a relação comercial permanece dependente de confiança, leitura de ambiente e negociação direta. Para vendas complexas, especialmente em mercados corporativos, o uso da IA pode melhorar o preparo, mas não substitui o contato pessoal nem a capacidade de adaptação em tempo real.

“Então acho que para a área comercial ela te ajuda no pré, na prospecção”, avalia Cristina Falcão.

Repertório vira ativo diante das limitações da IA

A conversa também destacou a importância do repertório profissional no uso da inteligência artificial. Como as ferramentas podem gerar respostas imprecisas, repetitivas ou baseadas em dados sem critério, a experiência humana passa a ser essencial para avaliar, corrigir e direcionar os resultados.

Esse ponto tem implicações para educação, carreira e formação profissional. Em um ambiente no qual respostas estão mais acessíveis, o diferencial passa a ser a qualidade das perguntas, a capacidade crítica e a bagagem necessária para separar informação útil de conteúdo equivocado.

“Então hoje eu me vejo num papel muito de criticar”, destaca Simone Sancho.

Experiência presencial ganha valor na era digital

O avanço da tecnologia também foi relacionado à mudança no comportamento social após a pandemia. A digitalização acelerou reuniões, eventos e interações remotas, mas também produziu cansaço em parte do público, que voltou a valorizar encontros presenciais, eventos físicos e experiências ao vivo.

Essa tendência impacta marcas, mídia, entretenimento e relacionamento corporativo. Eventos passaram a incorporar mais momentos de conversa, convivência e networking, enquanto o contato direto se tornou um diferencial em um cenário no qual o digital virou um canal amplamente disponível.

“Eu acho sim que a experiência ao vivo, a coisa do convívio está voltando a ser muito valorizado para muitas pessoas”, observa Sérgio Gordilho.

Marcas precisam evitar a armadilha da padronização

Para empresas, o debate aponta que o uso da inteligência artificial não deve ser confundido com simples redução de custo. A tecnologia pode acelerar processos, mas a busca por soluções mais baratas pode levar a campanhas, textos e produtos parecidos, reduzindo a capacidade de diferenciação.

Nesse contexto, marcas que usam IA de forma estratégica tendem a combinar tecnologia, repertório, cultura e curadoria. O valor não está apenas em automatizar tarefas, mas em entender quais processos devem ser acelerados e quais dependem de sensibilidade humana, leitura de mercado e construção de significado.

“Hoje, desde a pandemia isso não mudou. As pessoas querem conversar”, ressalta Cristina Falcão.

Tecnologia, cultura e criatividade definem a próxima etapa

O exemplo da Coreia do Sul na indústria de beleza foi citado como uma referência de combinação entre tecnologia, cultura e inovação aplicada. A força do K-beauty, do K-pop e de outros ativos culturais mostra como conhecimento técnico e identidade cultural podem ser convertidas em valor econômico.

A perspectiva final é que a inteligência artificial deve continuar transformando empresas, profissões e modelos de negócio, mas sem eliminar a necessidade de julgamento humano. Para negócios, o desafio será usar a tecnologia para ampliar capacidades, sem abrir mão de criatividade, foco e repertório.

“Eu acho que a Coreia foi muito sagaz entender que a inovação ela não vem dos grandes polos, ela vem de pessoas preocupadas com um determinado problema na sua bolha ali”, conclui Simone Sancho.

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