
Há preconceitos que envelhecem. Há preconceitos que mudam de roupa. E há preconceitos que sobrevivem porque continuam úteis aos que necessitam de um culpado para explicar suas próprias frustrações. A acusação de que os judeus teriam assassinado Jesus pertence a essa categoria de mitologias perversas. Poucas ideias causaram tanto sofrimento humano. Poucas mentiras produziram tantas perseguições. Jesus nasceu judeu. Viveu como judeu. Pregou entre judeus. Morreu na terra dos judeus ocupada por Roma. A inscrição colocada acima da cruz não o definia como herege. Definia-o como ameaça política. Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Roma não crucificava teólogos. Roma crucificava insurgentes, reais ou imaginários. O império enxergava perigo em qualquer liderança capaz de despertar esperanças nacionais num povo submetido à ocupação estrangeira. A condenação possuía natureza política. A execução possuía natureza política. A própria cruz era uma mensagem política. Apesar disso, a História foi submetida a uma estranha operação de falsificação moral. O ocupante desapareceu. O carrasco desapareceu. O império desapareceu. Em seu lugar surgiu a figura do judeu culpado. Nascia a fantasia do povo deicida. A psicanálise conhece bem esse mecanismo Quando uma culpa se torna insuportável, procura-se um depositário. Quando uma sociedade não consegue enfrentar seus próprios conflitos, inventa um inimigo permanente. O bode expiatório não resolve problema algum. Apenas oferece alívio temporário para a consciência coletiva. Durante séculos os judeus desempenharam esse papel. Foram acusados de matar Deus, de contaminar poços, de provocar epidemias, de dominar finanças, de destruir nações e de conspirar contra a humanidade. As acusações mudavam. O acusado permanecia o mesmo. O século XX levou essa loucura ao seu limite industrial. Milhões foram exterminados porque a paranoia havia sido transformada em política de Estado. Mas os delírios raramente desaparecem. Apenas procuram novas linguagens. Hoje a sionfobia ocupa frequentemente esse espaço. Não se trata da crítica legítima a governos ou governantes. A crítica pertence à democracia. Trata-se de algo mais profundo. Trata-se da recusa em reconhecer ao povo judeu um direito concedido a praticamente todos os demais povos: o direito à existência nacional. O curioso é que essa hostilidade costuma reunir personagens que, em teoria, deveriam ser adversários irreconciliáveis. Extremistas de esquerda, fanáticos religiosos e nostálgicos de antigos totalitarismos frequentemente acabam repetindo os mesmos slogans e compartilhando as mesmas obsessões. Mudam os uniformes. Permanece a mesma compulsão persecutória. Enquanto isso, ocorre um fenômeno silencioso e historicamente relevante. Milhões de cristãos passaram a reencontrar as raízes judaicas de sua própria fé. Evangélicos e católicos compreendem cada vez mais que o cristianismo não nasceu contra o judaísmo, mas dentro dele. A imagem das bandeiras de Israel presentes na Marcha para Jesus possui um significado que ultrapassa a política. Ela representa uma reconciliação histórica. Representa a percepção de que a tradição judaica e a tradição cristã compartilham origens, memórias e valores civilizatórios. Talvez por isso a grande ironia de nosso tempo seja tão perturbadora. Se Jesus surgisse hoje pregando nas ruas de Jerusalém, falando como judeu, vivendo como judeu e defendendo o vínculo espiritual de seu povo com sua terra ancestral, muitos daqueles que o celebram em discursos provavelmente o denunciariam como sionista. A sionfobia é menos um problema político do que um problema psicológico. Ela nasce quando o preconceito procura uma justificativa moral para continuar existindo. Ela surge quando o ressentimento veste a máscara da virtude. A paranoia deicida não matou apenas a verdade histórica. Ela feriu profundamente a capacidade humana de reconhecer o outro. Toda época produz seus preconceitos favoritos. Toda geração acredita estar imune aos erros das anteriores.
A História, porém, costuma ser menos otimista. Quando um povo volta a ser transformado em símbolo universal do mal, quando lhe é negado o direito reconhecido aos demais, quando sua existência passa a ser tratada como um erro a ser corrigido, não estamos diante de uma novidade. Estamos apenas ouvindo um velho fantasma falar uma linguagem nova. * Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em Psicologia e membro efetivo do Grupo Judaísmo sem Partido.
