Venezuela: sem carro funerário, corpos são levados em caminhonete

Terremoto na VenezuelaReprodução

O cenário de devastação provocado pelos terremotos que atingiram a Venezuela ganhou novos episódios tristes neste sábado (27). Com hospitais lotados, serviços funerários insuficientes e necrotérios operando acima da capacidade, famílias passaram a transportar os corpos de parentes em caminhonetes e veículos particulares até centros de medicina legal.

Em Caracas, uma caminhonete carregada com corpos envoltos em sacos brancos aguardava do lado de fora do principal necrotério da capital. A cena, registrada pela mídia local, revela o colapso enfrentado pelo sistema de saúde e pelos serviços funerários após a tragédia que já deixou ao menos 1.430 mortos.

Sistema funerário entra em colapso

Segundo a agência AFP, ao menos três caminhonetes chegaram ao necrotério em apenas uma hora transportando vítimas cobertas com lençóis e sacos mortuários improvisados.

Um funcionário do Serviço Nacional de Medicina Legal, que preferiu não se identificar, afirmou que cerca de 200 corpos já chegaram ao local desde a última sexta-feira (26).

Entre as famílias afetadas está a de Yessica Mendoza, de 43 anos. Ela precisou levar o corpo da filha, Yesimar Rodríguez, de 25 anos, até Caracas porque, segundo relatou, os hospitais da região já não tinham condições de receber novos mortos.

“Os mortos estavam no chão”, contou a mulher, referindo-se ao hospital de Catia La Mar, uma das cidades mais atingidas pelos tremores.

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Mãe retirou filha dos escombros sem ajuda

Yesimar Rodríguez e o marido, Jhomel Anaya, de 26 anos, morreram após o prédio onde viviam desabar em La Guaira, cidade que se tornou o epicentro da tragédia.

Yessica relatou que precisou retirar os corpos dos próprios familiares dos escombros.

Os corpos foram encontrados em dias diferentes: o da filha na sexta-feira e o do genro um dia antes. Diante do estado avançado de decomposição, a família decidiu pela cremação.

Terremotos deixaram rastro de destruição

A crise humanitária começou na noite de quarta-feira (24), quando dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 atingiram a região norte da Venezuela com menos de um minuto de intervalo.

Algumas ruínas estavam pichadas com os nomes dos edifícios, numa tentativa de ajudar os socorristas Reprodução/ Redes Sociais

Os sismos, considerados os mais fortes registrados no país em mais de um século, tiveram epicentros próximos e ocorreram a baixa profundidade, o que ampliou significativamente os danos. Além da capital Caracas, cidades costeiras como La Guaira sofreram destruição severa, com dezenas de prédios reduzidos a escombros.

De acordo com o governo venezuelano, mais de 3 mil pessoas ficaram feridas e ao menos 3.100 estão desabrigadas. O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários estima que mais de 50 mil pessoas possam estar desaparecidas.

Já a Organização Internacional para as Migrações (OIM) calcula que até 6,8 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelos tremores em todo o país.

Ajuda internacional reforça operações

As equipes de resgate seguem trabalhando contra o tempo para localizar sobreviventes. Segundo o governo, mais de 1.600 socorristas estrangeiros já desembarcaram na Venezuela para auxiliar nas buscas.

Na bagagem, seguem equipamentos para resgate em estruturas colapsadas, recursos médicos e mantimentosDivulgação/ Corpo de Bombeiros de São Paulo

O Brasil enviou médicos, cães farejadores e equipamentos especializados para apoiar as operações. Outros países também anunciaram ajuda humanitária e envio de equipes de emergência.

Apesar do reforço internacional, autoridades venezuelanas reconhecem que centenas de pessoas ainda podem estar presas sob os escombros. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e a ONU alertam que o número final de vítimas pode ser significativamente maior devido à extensão dos danos e à densidade populacional das áreas atingidas.

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