
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) entrou com uma ação civil pública contra o influenciador Léo Marcondes, que se apresenta nas redes sociais como treinador financeiro, por falas consideradas aporofóbicas contra pessoas pobres, ou seja, aversão a elas. Na ação, a Promotoria de Direitos Humanos da Capital pede que a Justiça determine a retirada de um vídeo publicado no Instagram, remova o perfil do influenciador da plataforma e condene Marcondes ao pagamento de R$ 300 mil por danos morais coletivos e dano social.
A empresa Meta, dona do Instagram, também é alvo da ação. O pedido inclui a preservação dos dados da conta para fins de prova e a obrigação de impedir novas publicações com conteúdo aporofóbico. A Promotoria também quer que o influenciador seja obrigado a participar, no prazo de um ano, de um curso sobre inclusão social, com carga mínima de 30 horas e abordagem específica sobre aporofobia, termo usado para definir hostilidade, desprezo ou discriminação contra pessoas pobres.
A publicação citada na ação foi ao ar em 26 de dezembro de 2025. No vídeo, segundo o Ministério Público, Marcondes afirmou que “pobres não deveriam votar” e que “pobre quer tirar vantagem em tudo”.
Promotoria vê ataque ao direito ao voto
Para o promotor Ricardo Manuel Castro, da Promotoria de Direitos Humanos da Capital, a conduta do influenciador associa falta de dinheiro à incapacidade de participar da vida política do país. O MPSP sustenta que a fala equipara pobreza a irresponsabilidade constitucional.
Em um dos trechos atribuídos a Marcondes, ele afirma que pessoas pobres não deveriam ter direito ao voto.
Em outro trecho, ele volta a defender que o poder de decisão fique nas mãos de pessoas ricas.
Nos autos, o promotor argumenta que o direito ao voto é uma expressão da cidadania e do sufrágio universal, que consiste no direito de votar e ser votado. Para o Ministério Público, esse direito não pode ser restringido por critérios econômicos.
A ação também afirma que a liberdade de expressão n ão protege manifestações de ódio e intolerância quando elas reforçam estigmas contra grupos vulneráveis.
Pedido mira perfil, vídeo e indenização
A ação civil pública pede que a Justiça obrigue a retirada do vídeo e de todo o perfil de Léo Marcondes no Instagram.
O MPSP também quer que Marcondes seja proibido de fazer novas publicações com conteúdo aporofóbico. Em caso de condenação, a indenização de R$ 300 mil deve ser revertida ao Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos.
A ação teve origem em peças de informação encaminhadas pelo Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (GECRADI), que apontou a publicação de conteúdos discriminatórios contra pessoas em situação de pobreza.
Para o Ministério Público, o influenciador constrói e reforça estereótipos ao associar pessoas pobres à incapacidade, à irresponsabilidade e à exclusão da participação democrática.
Quem é Léo Marcondes
Léo Marcondes se apresenta nas redes sociais como treinador financeiro e costuma publicar vídeos sobre enriquecimento, liberdade financeira e mudança de vida.

Em um vídeo de apresentação, ele diz que saiu de uma situação de dificuldade financeira e passou a morar em um apartamento de luxo em Balneário Camboriú. Também afirma ter levado eventos presenciais aos 27 estados do país, com passagens por centenas de cidades.
O próprio influenciador define seu trabalho como um “movimento” voltado a pessoas que buscam riqueza e liberdade financeira. Em vídeo mais recente, ao reagir à repercussão das falas, Marcondes afirmou que um “exército da pobreza” estaria tentando calá-lo.
A descrição faz parte do conteúdo usado pelo próprio influenciador para divulgar sua atuação nas redes. Na ação, o Ministério Público afirma que as falas investigadas não se limitam a uma crítica social, mas promovem discriminação contra pessoas pobres.
Para a Promotoria, as declarações ultrapassam a opinião e atingem um grupo vulnerável.
O iG entrou em contato com a Meta e tenta localizar a defesa de Léo Marcondes. O espaço segue aberto.
