Selic, dólar e Copom: o erro que o mercado pode estar ignorando

A discussão sobre Selic, dólar e Copom voltou ao centro do debate de mercado em um momento de maior sensibilidade nas curvas de juros, no câmbio e nas expectativas para a economia brasileira. No Global Wallet, da BM&C News, o economista André Perfeito, da Garantia Capital, avaliou que parte do mercado pode estar concentrando a análise em uma leitura fiscal doméstica, sem dar peso suficiente ao movimento dos juros globais.

A análise parte de uma visão estrutural sobre o Brasil. Para Perfeito, o país opera em um equilíbrio de baixa eficiência, no qual problemas de infraestrutura, distorções de capital, subsídios e interesses setoriais se acumulam ao longo do tempo, dificultando a formulação de um projeto econômico mais coeso.

“Como você tem uma estrutura de capital sempre muito torta no Brasil, você para fazer que isso aconteça, você necessariamente tem que gerar uma outra distorção”, afirma André Perfeito.

Comunicação do Copom aumenta ruído no mercado

A ata do Copom foi um dos pontos centrais da entrevista. Após a decisão de reduzir a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, o mercado passou a discutir a aparente contradição entre o corte de juros e uma comunicação ainda preocupada com inflação, mercado de trabalho e horizonte relevante de política monetária.

Na leitura de Perfeito, a dificuldade não está apenas na decisão, mas na forma como o Banco Central comunicou o cenário. Ao retirar sinalizações mais claras sobre os próximos passos, a autoridade monetária ampliou a incerteza em um momento no qual investidores já estavam reposicionando carteiras diante de ruídos externos e domésticos.

“Deixar tanta coisa no ar foi um equívoco”, avalia André Perfeito.

Juros globais e fiscal devem ser analisados em conjunto

Embora reconheça a gravidade do quadro fiscal brasileiro, Perfeito avalia que o mercado tem subestimado o impacto da alta dos juros no exterior sobre os ativos domésticos. O economista citou o avanço dos juros longos no Japão como um fator relevante para o Brasil, especialmente pelo efeito sobre operações de carry trade e fluxos globais de capital.

Essa dinâmica altera a leitura tradicional sobre câmbio, bolsa e juros no país. Em um mundo de taxas mais altas, o custo de oportunidade do capital muda, a liquidez internacional diminui e ativos de países emergentes passam a reagir não apenas ao risco fiscal local, mas também à reprecificação das curvas de juros nas principais economias.

“A gente tá num momento, insisto, que a questão fiscal no Brasil é seríssimo, mas ignorar os efeitos das taxas de juros lá fora é para mim um erro primário de gente de mercado financeiro. Primário”, pontua André Perfeito.

Inflação, atividade e o custo de crescer

A análise sobre inflação também foi tratada de forma mais ampla. Perfeito destacou que parte das pressões inflacionárias no Brasil está ligada a serviços, mercado de trabalho, combustíveis e choques externos, fatores que não necessariamente seriam ampliados de forma imediata por um ajuste mais forte da Selic.

Para o economista, o desafio brasileiro está no fato de que a economia reage rapidamente quando há estímulo. A queda do desemprego impulsiona consumo, renda e demanda, mas também pode gerar pressões sobre preços ou sobre as contas externas quando a oferta doméstica não acompanha o ritmo de expansão.

“O problema do Brasil nunca foi crescer pouco. O problema do Brasil é crescer muito”, resume André Perfeito.

Projeto nacional segue como entrave estrutural

A discussão monetária, na avaliação de Perfeito, está conectada a um problema mais amplo de coordenação política e econômica. Ele defende que o Brasil não sofre por incapacidade produtiva, mas pela dificuldade de organizar interesses regionais, setoriais e institucionais em torno de uma agenda de longo prazo.

Esse diagnóstico aparece também na crítica às soluções parciais e sucessivas adotadas no país. Para o economista, políticas públicas, subsídios, incentivos e ajustes fiscais muitas vezes funcionam como respostas isoladas a pressões específicas, sem resolver o problema central de organização econômica.

“Ou alguém organiza ou a gente tenta conciliar todas todo mundo ao mesmo tempo”, observa André Perfeito.

Dólar entra como instrumento de leitura macroeconômica

No campo dos investimentos, Perfeito defendeu que a exposição ao dólar deve ser entendida não apenas como proteção cambial, mas como uma forma de ampliar a leitura do investidor sobre a economia global. Acompanhar ativos internacionais, segundo ele, obriga o investidor a observar juros americanos, liquidez global, mercado acionário dos Estados Unidos e movimentos de capital.

A visão do economista é que o mercado americano oferece profundidade, diversidade de instrumentos e liquidez superiores, especialmente para investidores que buscam compreender diferentes classes de ativos. Ainda assim, ele pondera que cada perfil exige uma estratégia própria e que a alocação internacional deve fazer sentido dentro da carteira.

“Te torna um investidor mais atento ao valor do dinheiro na sua esfera mais pura, que é a moeda referência, que é o dólar”, destaca André Perfeito.

Cenário até o fim do ano depende da desaceleração

Para os próximos meses, Perfeito afirmou esperar queda dos juros no Brasil, seja por ação direta do Banco Central na parte curta da curva, seja pelo acúmulo de sinais de desaceleração econômica na parte longa. A leitura é que a atividade tende a perder força em um ambiente de juros elevados, energia mais cara e desaceleração global.

A síntese da análise é que o investidor deve observar Selic, dólar e Copom de forma integrada, sem reduzir o cenário a uma única variável. O fiscal segue relevante, mas a comunicação do Banco Central, o comportamento das curvas globais, o ritmo da atividade e a capacidade política de coordenação devem determinar a percepção de risco sobre o Brasil nos próximos meses.

 

O post Selic, dólar e Copom: o erro que o mercado pode estar ignorando apareceu primeiro em BM&C NEWS.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.