
Cidade do Paraná está há mais de 10 anos sem homicídios e feminicidios
Há mais de 13 anos, moradores de Rio Bom, no Norte do Paraná, não presenciam um caso grave de violência. A cidade de pouco mais de 3 mil habitantes é a que está há mais tempo sem registrar um caso de homicídio ou feminicídio no Paraná. Os dados são do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP-PR).
Rio Bom pertence à 17ª Subdivisão Policial de Apucarana, que é responsável por outros 25 municípios. Por lá, não há Guarda Civil Municipal, nem delegacias, apenas o destacamento da Polícia Militar (PM-PR), que faz o policiamento preventivo.
O município se destaca pela calmaria e também pela união da comunidade local. O g1 esteve na cidade e ouviu de moradores e autoridades o que faz da cidade um oásis de tranquilidade no estado. Entenda mais abaixo.
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Além de Rio Bom, a vizinha Novo Itacolomi também está há mais de uma década sem crimes contra a vida, com o último caso registrado em 2013. Campo Bonito, no oeste do estado, e Verê, no sudoeste, estão sem mortes violentas há 9 e 8 anos, respectivamente. Outras 29 cidades do Paraná estão entre 7 e 5 anos sem ocorrências. Veja o mapa abaixo.
De acordo com o Ministério da Justiça, de janeiro a maio deste ano, 246 das 399 cidades do Paraná não tiveram nenhum registro de homicídio ou feminicídio.
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Para moradores, cidade parece um ‘grande lar’
Rio Bom está localizada no Vale do Ivaí e fica a pouco mais de 350 quilômetros da capital, Curitiba. Mesmo durante a semana, há pouco movimento nas ruas da cidade. O fluxo se concentra na Avenida Rio Grande do Sul, onde fica o comércio.
Pela cidade, casas de muro baixo e sem equipamentos de segurança são maioria. Crianças brincam na rua, jovens ficam até mais tarde nas praças e os moradores relatam que é raro ver brigas, até mesmo nas festas da comunidade.
Rosângela Erli Rech Mazzutti é dona de um mercado que existe há 36 anos no município. Mesmo acostumada com a tranquilidade do local, ela se surpreende ao saber que há mais de 10 anos não são registrados homicídios na cidade.
“Isso mostra que a nossa população é saudável, com tantos problemas que vemos em todos os lugares, a nossa cidade está tão bem. A gente fica muito contente”, afirma a comerciante.
Ela conta que todo mundo se conhece na cidade. Por isso, todos sempre estão atentos quando algo diferente acontece. A confiança na comunidade é tamanha que ela não pensa duas vezes antes de vender “fiado”. Até hoje, a maioria das vendas do mercado é marcada na caderneta.
“Cidade pequena tem disso, todo mundo conhece todo mundo. Quando chega alguém diferente, a gente já fica de olho, procura saber quem é, até mesmo por medida de segurança. Todo mundo se protege, se comunica. “Agora, com as redes sociais, fica super fácil”, conta Rosângela.
Ilza Venturini e Rosangela Mazzutti, moradoras de Rio Bom.
Alex Magosso/RPC
Nascida em Rio Bom e professora há 25 anos, Ilza Venturini da Silva diz que a cidade parece um “grande lar”.
“Desde criança a gente ia e voltava da escola sozinho, não tinha tantos perigos. E hoje ainda continua sendo uma cidade calma para se morar. Tanto que muita gente escolhe vir para cá depois de um tempo, por ser uma cidade mais pacata e calma”, diz a professora.
Em sala de aula, ela diz que ensinar o respeito ao próximo é uma das prioridades. Ilza também afirma que, como professora, busca estar atenta a situações demonstradas pelas crianças.
“A gente tem que sempre estar falando sobre isso, pois as crianças estão sempre em constante desenvolvimento, aprendendo coisas boas e não tão boas. A gente coloca o valor do ser humano, que está escasso em muitos lugares. […] Nessa carreira, eu já presenciei crianças que vieram conversar e a gente descobriu muitas coisas. É muito importante o professor ter essa visão, pois às vezes as crianças estão pedindo socorro”, afirma a professora.
Vínculos comunitários se refletem na baixa taxa de homicídios
Para o delegado Marcus Felipe da Rocha Rodrigues, que é chefe da subdivisão responsável por Rio Bom e Novo Itacolomi, os vínculos comunitários são fortalecidos nessas cidades e isso se reflete na integração da população com as forças de segurança.
“É fundamental. E pelo fato de ser uma cidade pequena, essa relação ganha intensidade. […] Os moradores acabam denunciando situações de conflitos que podem evoluir para uma ocorrência letal, né? Tendo essa integração com as instituições de segurança pública, a polícia consegue, de certa forma, prevenir a prática de crimes”, afirma o delegado.
Rio Bom não registra homicídios e feminicídios desde 2012.
Alex Magosso/RPC
Geraldo Lúcio Teixeira é ex-policial militar e presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de Rio Bom. Na cidade, ele é conhecido por todos e atua como elo entre a comunidade e as autoridades policiais.
“Devido aos anos que eu trabalhei na polícia, a gente tem a confiança da população. Quando eles precisam, vêm até mim ou me ligam pedindo orientação. Vão até na minha casa para fazer denúncias. Se a viatura não estiver na cidade, eles avisam e eu entro em contato com os policiais, para resolver a situação da melhor forma possível”, explicou Teixeira.
No Paraná, atualmente, existem 206 Consegs ativos, espalhados por Curitiba, Região Metropolitana e interior. Essas organizações comunitárias voluntárias não fazem parte do poder público. São grupos de moradores que se reúnem com as polícias locais e autoridades para discutir, planejar e acompanhar a solução de problemas de segurança pública.
Teixeira explica que, além de tentar aproximar a população das autoridades, o objetivo do conselho também é desempenhar um trabalho preventivo, com palestras em escolas e divulgação de medidas de segurança.
Geraldo Lúcio Teixeira é ex-policial militar e presidente do Conseg de Rio Bom.
Alex Magosso/RPC
Crimes antigos ainda marcam
Apesar de ver a cidade tranquila atualmente, Teixeira ainda se emociona ao lembrar do amigo que foi assassinado na cidade nos anos 90. Ele também era policial militar e os dois se conheceram na corporação.
Teixeira relembra que, naquele dia, estavam de folga. O amigo o tinha convidado para sair, mas ele não pôde aceitar o convite.
“Era meu aniversário e eu saí da cidade. A hora que eu cheguei, encontrei ele morto na maca. Ele tava numa lanchonete e uma pessoa o apunhalou pelas costas. Ele era um irmão. Apesar de fazer muitos anos, a gente não esquece”, relembra Teixeira.
Combate ao tráfico também contribui para redução de homicídios, diz delegado
O delegado também considera que o trabalho constante de combate ao tráfico de drogas contribui para que Rio Bom e Novo Itacolomi estejam há um longo período sem homicídios. Isso porque, segundo Rodrigues, esse crime acaba “impulsionando a prática de ocorrências mais graves”.
Ele explica que “guerras do tráfico” aconteceram em Apucarana, entre os anos de 2022 e 2023, mas não se expandiram para cidades menores, como Rio Bom e Novo Itacolomi. O delegado, no entanto, admite que o crime de tráfico está presente em todas as cidades.
“Toda cidade, infelizmente, vai sempre ter alguém que vende drogas. É o que a gente monitora e combate. A gente busca prender o traficante, fazer a apreensão das drogas, mas é muito importante também evitar que esse tráfico se torne um tráfico violento, que ameaça, que intimida os moradores”, explicou o delegado.
Novo Itacolomi não registra homicídio e feminicídio desde 2013.
Alex Magosso/RPC
O delegado ressaltou que a ausência de disputas territoriais entre traficantes ou organizações criminosas por pontos de venda de drogas — comum em grandes centros urbanos — é um dos principais fatores que impedem uma dinâmica de crimes letais nos municípios.
Outro ponto determinante apontado pelo delegado é a alta taxa de elucidação de homicídios e feminicídios. Segundo ele, a certeza de que haverá uma resposta rápida e de que os responsáveis serão devidamente punidos gera um sentimento de segurança na população e inibe novos crimes.
Para o secretário de Segurança Pública do Paraná, coronel Saulo de Tarso Sanson, o estado está vivendo o melhor período histórico no setor. Segundo o Ministério da Justiça, nos cinco primeiros meses de 2026, foi registrada uma taxa de 10,26 homicídios e feminicídios a cada 100 mil habitantes no estado. No Brasil, a taxa foi de 13,85.
Para Sanson, a meta para os próximos anos é ter a taxa de homicídios abaixo de 10% em cidades com mais de 100 mil habitantes.
Segundo o chefe da pasta, a melhora nos indicadores se reflete tanto nas grandes cidades quanto nos municípios menores.
Sanson cita que ações como a Operação Cidade Segura, que monitora municípios para conter o avanço da criminalidade, atuam na quebra da cadeia logística de crimes por meio da apreensão de armas, drogas e do combate à lavagem de dinheiro.
O secretário também menciona a Operação Lâmina Zero, criada após as forças de segurança identificarem um aumento de homicídios cometidos com armas brancas entre pessoas em situação de rua sob o efeito de álcool e drogas. Conforme Sanson, a ação foca na retirada de facas e na prevenção de pequenos crimes.
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