Machismo e misoginia são características que ultrapassam os muros ideológicos. Há gente machista tanto na direita como na esquerda (ou no centro). Mas os esquerdistas fizeram do combate ao chauvinismo uma bandeira. E os direitistas parecem cair na tentação de fazer a apologia do patriarcado a cada oportunidade que surge. Isso, em um país no qual o eleitorado feminino representa 52%, é uma estratégia arriscada.
Mesmo assim, os próceres da direita continuam emitindo opiniões sexistas, sempre em um tom arrogante e agressivo. Tomemos como exemplo as manifestações do influenciador Paulo Figueiredo nesta semana, quando ele publicou, na rede X, que as eleitoras votavam mal, especialmente as que não tinham casado. “Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não”.
Na mesma leva, ele aproveitou para criticar a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e a senadora Damares Alves, chamando-as de “feministas”. De quebra, associou o feminismo ao marxismo, que “carrega consigo ideias […] como cotas identitárias das quais Michelle [Bolsonaro] fala com tanto orgulho”.
Curiosamente, a ex-primeira-dama prega, seguindo a cartilha evangélica, a submissão da mulher ao homem. Uma subordinação adaptada aos novos tempos, mas ainda assim algo que ecoa o que diz as escrituras sagradas, do Velho ao Novo Testamento. “A Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável […], é sobre a gente caminhar lado a lado com os nossos”, disse ela em pregação no YouTube. Em outra ocasião, ela defendeu o seguinte: “[As mulheres] devem fazer uma política colaborativa e não competir com os homens”.
Michelle ainda está no centro de uma enorme polêmica ao acusar, em vídeo publicado na semana passada, que o enteado Flávio de a humilhou em uma ligação telefônica. A gravação trouxe desconforto e preocupação para a campanha do PL. Até agora, no entanto, as pesquisas não captaram grandes flutuações em relação ao episódio. Boa parte das críticas ao senador e do apoio a Michelle, diga-se, veio da esquerda, na esperança de queimar o principal nome da oposição.
Sobre os comentários de Paulo Figueiredo, há várias pesquisas que mostram homens e mulheres errando e acertando em proporções semelhantes quando se trata de avaliar candidatos, acompanhar notícias políticas ou identificar propostas. A diferença está no modo como cada grupo se relaciona com o debate público. Mulheres são mais sensíveis a temas sociais e menos inclinadas a discursos agressivos.
A tese de que mulheres solteiras votam mal é ainda mais frágil: trata-se de uma leitura que ignora a complexidade da sociedade brasileira. Confundir independência com esquerdismo é uma miopia política perigosa.
Ao insistir nessa narrativa, setores da direita correm o risco de afastar justamente o grupo que mais cresce em participação política. Mulheres são maioria do eleitorado e têm ampliado sua presença em debates públicos, movimentos sociais, associações comunitárias e espaços de mobilização digital. Tratar esse contingente como incapaz ou desorientado não apenas gera rejeição imediata, como reforça a percepção de que a direita não compreende as demandas femininas. Em um ambiente eleitoral competitivo, isso pode custar votos decisivos.
Há também um efeito simbólico. Quando figuras influentes da direita repetem que mulheres votam mal, reforçam a imagem de um campo político hostil à autonomia feminina. Essa imagem se cristaliza com facilidade, porque dialoga com episódios recorrentes de declarações agressivas, piadas depreciativas e discursos que romantizam a submissão. Mesmo eleitoras conservadoras, que valorizam família, religião e ordem, não querem ser tratadas como incapazes de decidir por si mesmas. A retórica que as infantiliza ou as coloca como apêndices dos maridos cria desconforto e reduz a disposição de engajamento.
Se a direita continuar alimentando a fantasia de que mulheres votam mal, o risco de transformar uma análise preconceituosa em um problema eleitoral vai se agigantar. Desqualificar metade do eleitorado não é apenas equivocado. É algo que pode custar caro nas urnas.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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