Ex-secretária vira ré por eutanásias ilegais de animais no RS

Ex-secretária vira ré por eutanásias ilegais de cães no RSPCRS / Divulgação

Um suposto esquema de eutanásias ilegais de cães e gatos para desviar recursos arrecadados para tratamentos veterinários levou a Justiça do Rio Grande do Sul a tornar ré a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas, Paula Lopes, e outras oito pessoas.

A denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) foi recebida nesta semana e aponta que os crimes teriam ocorrido ao longo de 2025 no Centro de Bem-Estar Animal de Canoas e em outros locais da cidade e Porto Alegre.

Segundo o Ministério Público, Paula Lopes utilizava o cargo para determinar a realização de eutanásias sem respaldo em exames laboratoriais ou laudos que comprovassem doenças ou condições de saúde que justificassem os procedimentos.

A investigação também aponta que uma associação fundada e mantida pela ex-secretária era utilizada para arrecadar dinheiro destinado a supostos tratamentos de animais, mas os valores seriam revertidos para ela e o marido.

Ao todo, nove pessoas foram denunciadas. Oito delas, inclusive uma policial civil, respondem pelo crime de eutanásia ilegal de cães e gatos e uma nona pessoa foi denunciada por outros crimes relacionados ao caso, mas o MP não deu mais detalhes. Com o recebimento da denúncia, todos passam oficialmente à condição de réus.

Como funcionava o esquema

De acordo com a denúncia do MPRS, a então secretária se valia da função pública para ordenar a realização das eutanásias, embora não tivesse formação em Medicina Veterinária.

A acusação sustenta que diversos animais eram submetidos ao procedimento sem que houvesse justificativa técnica para isso.

Paralelamente, uma associação criada e administrada por Paula Lopes promovia campanhas para arrecadar doações destinadas a custear tratamentos veterinários de animais resgatados.

Segundo o Ministério Público, parte desses tratamentos nunca era realizada porque os animais eram sacrificados antes. Ainda conforme a denúncia, os recursos arrecadados acabavam sendo destinados à própria ex-secretária e ao marido.

Outra investigada é uma policial civil. Conforme o MPRS, ela teria acessado e compartilhado informações restritas para favorecer a atuação do grupo investigado.

Investigação apontou centenas de eutanásias

Conforme informações divulgadas pela Polícia Civil, a investigação começou após denúncias de usuários do serviço e de servidores da Secretaria de Bem-Estar Animal.

Durante as apurações, os investigadores identificaram que o número de eutanásias realizadas era incompatível com o perfil dos animais acolhidos e superior ao registrado em anos anteriores.

Segundo a Polícia Civil, ao menos 478 cães e gatos passaram pelo procedimento em aproximadamente oito meses. A corporação afirma que parte desses animais apresentava possibilidade de tratamento, mas, ainda assim, era encaminhada para eutanásia. Após os procedimentos, os corpos eram enviados para incineração.

Paula Lopes foi presa preventivamente em junho deste ano durante uma operação da Polícia Civil. Na ocasião, também foram presos dois médicos-veterinários investigados por participação no esquema.

Ministério Público pede perda de cargos e bens

Na ação penal, o Ministério Público requer a aplicação das sanções previstas nas legislações ambiental e penal. Entre os pedidos estão a proibição de que os denunciados mantenham animais sob sua guarda, a perda de bens relacionados aos crimes investigados e a perda de cargos e funções públicas.

O promotor de Justiça Leonardo Giardin de Souza, responsável pela denúncia, afirmou que não foi oferecido acordo para evitar o processo penal porque os crimes investigados envolvem violência.

Em nota divulgada pelo MP, o promotor afirmou que a conduta atribuída aos denunciados é marcada por intensa crueldade e destacou que as supostas eutanásias ilegais teriam sido realizadas em massa e com objetivos fraudulentos.

Segundo ele, além dos maus-tratos aos animais, as ações também provocaram sofrimento aos tutores, especialmente em um momento em que Canoas ainda enfrentava os impactos da enchente de 2024.

Segundo informações do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), a defesa de Paula Lopes apresentou um pedido de liberdade, que foi negado pela Vara Regional do Meio Ambiente. Com isso, a ex-secretária permanece presa enquanto o processo segue em tramitação.

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