Caso Voepass: relatório final passa por revisão internacional

ATR 72-500 após queda dentro de condomínio em VinhedoFoto: SSP/SP – Divulgação

A investigação sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024, entrou na fase final. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), informou que cerca de 95% dos trabalhos já foram concluídos, mas ainda não há previsão para a divulgação do relatório definitivo.

Antes da publicação, o documento precisa passar por uma etapa obrigatória de revisão internacional. O procedimento segue normas da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e permite que especialistas de outros países analisem as conclusões dos investigadores brasileiros e façam observações técnicas.

França e Canadá analisam o documento

A revisão está sendo feita por dois órgãos internacionais diretamente ligados à fabricação da aeronave.

O Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la Sécurité de l’Aviation Civile (BEA), da França, participa porque o ATR 72-500 foi projetado e fabricado no país europeu. Já o Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, acompanha a investigação por ser o responsável pelos motores da aeronave.

Nesta etapa, os especialistas podem sugerir ajustes, apresentar comentários técnicos ou apontar aspectos que considerem relevantes. Depois de receber essas contribuições, o Cenipa avalia cada uma delas antes de finalizar o relatório.

Segundo o órgão, somente após esse processo o documento será divulgado oficialmente.

Trabalho reuniu milhares de informações

Desde o acidente, a equipe do Cenipa realizou uma das investigações mais complexas da aviação brasileira nos últimos anos.

Entre as principais análises estão a leitura das duas caixas-pretas, que são o gravador de voz da cabine (CVR) e o gravador de dados de voo (FDR), reconstrução completa do voo, exames nos motores e nos sistemas de degelo e proteção contra estol, além da avaliação das condições meteorológicas registradas no dia da tragédia.

Os investigadores também entrevistaram pilotos, mecânicos, despachantes e familiares da tripulação, analisaram mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota, realizaram testes em simuladores, um voo experimental com outro ATR 72-500 e examinaram documentos de manutenção, certificados médicos dos pilotos e diversos componentes da aeronave.

Segundo o Cenipa, até mesmo lâmpadas dos painéis de comando foram analisadas para identificar quais sistemas estavam ativos nos últimos instantes antes da queda.

Investigação técnica e criminal seguem caminhos diferentes

Enquanto o Cenipa busca entender os fatores que contribuíram para o acidente e propor medidas para aumentar a segurança da aviação, a Polícia Federal conduz uma investigação com outro objetivo: verificar se houve crime e identificar eventuais responsáveis pela tragédia.

O inquérito criminal também está na reta final.

Na última semana, representantes das famílias das vítimas tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O material integra o laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) e poderá ajudar a esclarecer dúvidas sobre os momentos finais do voo, incluindo o funcionamento do sistema de degelo, uma das hipóteses analisadas desde o início das investigações.

Após reunião com os investigadores, advogados que representam os familiares informaram que esperam a conclusão do inquérito nas próximas semanas, com posterior envio ao Ministério Público Federal (MPF). Segundo eles, os elementos reunidos podem resultar em indiciamentos.

Tragédia marcou a aviação brasileira

O acidente aconteceu quando o voo 2283 seguia de Cascavel (PR) para o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).

Peritos do Cenipa no condomínio residencial onde caiu o avião da Voepass, em Vinhedo (SP)Divulgação: FAB

O ATR 72-500 caiu no quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo. As 62 pessoas que estavam a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Apesar do impacto, nenhum morador da casa atingida ficou ferido.

A tragédia é considerada o acidente aéreo mais grave registrado no Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.

Voepass diz aguardar conclusão das investigações

Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais difícil da história da companhia e reiterou solidariedade às famílias das vítimas.

A empresa informou que mantém apoio psicológico aos familiares, disse colaborar com todas as investigações em andamento e reforçou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas da queda.

A companhia também destacou que, segundo o relatório preliminar divulgado anteriormente, a aeronave possuía certificado de aeronavegabilidade válido e atendia às exigências de segurança previstas para operação.

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