
Votos do segundo turno da eleição presidencial na Colômbia são contados em Bogotá, no domingo (17)
Diana Sanchez/AFP
Mesmo em democracias saudáveis, com instituições robustas, é natural pensar que os governistas largam na frente em qualquer eleição presidencial. O governo, afinal, ocupa naturalmente o noticiário, tem mais visibilidade e capacidade de pautar o debate, além de apresentar resultados concretos.
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A América do Sul, no entanto, desafia essa máxima da política: segundo um levantamento feito pelo g1, nos países latino-americanos do continente que realizaram eleições reconhecidas, os governistas só venceram três dos últimos 20 pleitos.
Desde 2018, só Paraguai e Equador viram vitórias do governismo. O primeiro vive um período de hegemonia do Partido Colorado, e é o único a registrar duas vitórias seguidas da sigla que está no poder no período.
As duas eleições mais recentes ocorreram na Colômbia e no Peru, e terminaram com a vitória de quem não estava no governo.
Keiko Fujimori assegura vitória nas eleições presidenciais do Peru
No primeiro caso, Abelardo de la Espriella, representante da direita, derrotou por uma pequena margem de votos Iván Cepeda, candidato de esquerda e do atual presidente, Gustavo Petro.
No Peru, a situação é mais complicada. Keiko Fujimori, também de direita, receberá a faixa de José María Balcázar, escolhido pelo Congresso para cumprir um mandato-tampão, após a destituição de Dina Boluate. Na prática, não havia candidato governista na disputa.
Em muitos casos, desde 2018 – início do levantamento –, os governistas encerram o ciclo eleitoral com a popularidade em baixa, ou envolvidos em escândalos, e não apresentam candidatos.
A derrota governista nem sempre significa, necessariamente, uma alternância entre esquerda e direita.
O levantamento compilou apenas os países latino-americanos independentes da América do Sul. A Venezuela não entrou na contagem por não ter eleições consideradas justas pela comunidade internacional.
Alternância de poder na América do Sul: governistas só venceram 3 das últimas 20 eleições
Bruna Azevedo/g1
Veja o desempenho do governismo do continente nas últimas eleições:
2018 – Paraguai: vitória governista
Horacio Cartes entregou o poder a Mario Abdo Benítez, ambos do Partido Colorado, de direita.
2018 – Colômbia: governismo não ganha
Juan Manuel Santos (considerado centrista) entregou o poder para Iván Duque, do Centro Democrático (direita). Duque se opôs ao acordo de paz que Santos costurou com os guerrilheiros das Farc e se aliou a Álvaro Uribe, com quem Santos havia rompido anos antes.
2018 – Brasil: governismo não ganha
Michel Temer (MDB) passou a faixa para Bolsonaro (então no PSL). O candidato do MDB, Henrique Meirelles, teve apenas 1,20% dos votos válidos no primeiro turno, e o partido liberou seus filiados para apoiar quem quisessem no segundo turno.
2019 – Argentina: governismo não ganha
Mauricio Macri, liberal não peronista, perdeu a reeleição para Alberto Fernández, peronista de esquerda, apoiado por Cristina Kirchner.
O então presidente da Argentina, Alberto Fernández, participa de sessão no Congresso Nacional, em Buenos Aires, em 1º de março de 2023
REUTERS/Tomas Cuesta
2019 – Uruguai: governismo não ganha
Tabaré Vázquez, de esquerda, perdeu para Luis Lacalle Pou, da direita liberal.
2020 – Bolívia: governismo não ganha
Jeanine Áñez, de direita, era presidente interina e cumpria mandato-tampão após queda de Evo Morales. Ela passou a faixa para Luis Arce, então aliado de Morales.
2021 – Equador: governismo não ganha
O então presidente Lenín Moreno havia se distanciado da esquerda “correísta” de seu antigo aliado, Rafael Correa e se tornado um político de centro-direita durante seu mandato. Impopular, Moreno não teve representante governista nas eleições. Guillermo Lasso venceu o correísmo “raiz” de seu rival, Andrés Arauz.
2021 – Peru – governismo não ganha
Francisco Sagasti, escolhido presidente pelo Congresso porque o cargo estava vago após anos de instabilidade política, era do Partido Morado, de centro. Foi sucedido por Pedro Castillo, representante da esquerda conservadora.
Pedro Castillo, então presidente do Peru
Reuters
2021 – Chile: governismo não ganha
Gabriel Boric, de esquerda, foi eleito sucessor de Sebastián Piñera, direitista.
2022 – Colômbia: governismo não ganha
Iván Duque, de direita, foi sucedido pelo esquerdista Gustavo Petro, que já havia sido seu rival na eleição anterior.
2022 – Brasil: governismo não ganha
Jair Bolsonaro (PL) tentou a reeleição, mas perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em votação apertada.
2023 – Paraguai: vitória do governismo
Mario Abdo Benítez passou a faixa para Santiago Peña, ambos do Partido Colorado, de direita.
2023 – Equador: governismo não ganha
Guillermo Lasso convocou eleições antecipadas após perda de apoio por escândalos de sua administração. Ele não apoiou nenhum candidato e seu partido tampouco apresentou uma candidatura. O vencedor do pleito, Daniel Noboa, é do mesmo espectro político.
2023 – Argentina: governismo não ganha
O kirchnerismo (peronismo de esquerda), no poder com Alberto Fernández, lança Sergio Massa como candidato, mas ele perde para Javier Milei, de direita.
O presidente da Argentina, Javier Milei, em 2 de abril de 2026
REUTERS/Agustin Marcarian
2024 – Uruguai: governismo não ganha
Yamandú Orsi, da esquerda, vence o candidato da direita e apoiado por Lacalle Pou, Álvaro Delgado.
2025 – Bolívia: governismo não ganha
Luis Arce perde as eleições para Rodrigo Paz, de direita, e encerra um ciclo de 20 anos de vitórias eleitorais da esquerda no país.
2025 – Equador: vitória do governismo
Daniel Noboa obtém a reeleição, desta vez para um mandato completo.
2025 – Chile: governismo não ganha
Gabriel Boric não consegue eleger sua correligionária Jeannette Jara, e José Antonio Kast, que havia perdido a disputa anterior, leva a direita novamente ao Palacio de la Moneda.
2026 – Peru: governismo não ganha
Em mais um período de extrema instabilidade política, Keiko Fujimori é eleita para suceder a José Maria Balcázar, congressista escolhido para preencher um mandato-tampão.
2026 – Colômbia: governismo não ganha
Gustavo Petro apoia Iván Cepeda nas eleições, mas ele perde o segundo turno para Abelardo de la Espriella, candidato à direita do espectro político.
Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia
JAIME SALDARRIAGA / AFP
Esquerda x direita na América do Sul
Editoria de Arte/g1
