Como este besouro pode ‘enganar’ uma colônia inteira de cupins


Como este besouro pode ‘enganar’ uma colônia inteira de cupins
À primeira vista, parece que um cupim está montado nas costas de um besouro. Mas a imagem engana. O que lembra um operário da colônia faz parte do próprio corpo do inseto e representa uma das adaptações mais curiosas já registradas entre besouros que vivem associados a cupins.
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Descrita em 2023 por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a espécie Austrospirachtha carrijoi apresenta uma expansão do abdômen que, com riqueza de detalhes, lembra um cupim. A estrutura reproduz diversos aspectos da anatomia de um operário, criando um verdadeiro ‘disfarce’ para viver dentro da colônia.
A principal hipótese dos cientistas é que essa adaptação permita ao besouro viver entre os cupins e, possivelmente, receber alimento por meio da trofalaxia, processo em que os insetos trocam alimento boca a boca.
Até o momento, porém, esse comportamento ainda não foi observado diretamente. A hipótese é sustentada por características anatômicas da espécie e pelo conhecimento acumulado sobre outros besouros especializados em viver dentro de cupinzeiros.
Como este besouro pode convencer cupins a alimentá-lo sem ser descoberto
Divulgação artigo / Pesquisador
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Um “fantoche” criado pela evolução
Na divulgação do estudo, em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador Bruno Zilberman resumiu a adaptação de forma simples.
“O bicho criou um fantoche de cupim no próprio abdômen e ele usa isso para se camuflar dentro do ninho dos cupins.”
Segundo o pesquisador, durante a evolução a parte membranosa do abdômen foi sendo moldada até adquirir a aparência de um cupim.
A estratégia vai além da simples semelhança visual.
Embora para nós o disfarce seja impressionante, os cupins praticamente não utilizam a visão para reconhecer indivíduos da colônia. Também em entrevista ao Jornal da USP, Zilberman explicou que esses insetos são cegos e identificam companheiros principalmente por estímulos táteis e químicos.
Por isso, os pesquisadores acreditam que a forma do corpo seja apenas parte da estratégia de infiltração.
Não basta parecer um cupim
Como este besouro pode convencer cupins a alimentá-lo sem ser descoberto
Divulgação artigo / Pesquisador
Além da aparência, o besouro provavelmente precisa reproduzir outros sinais utilizados pelos cupins para reconhecer os integrantes da colônia.
Na mesma reportagem, o pesquisador Carlos Moreno explicou que esses insetos também dependem do chamado mimetismo químico, reproduzindo compostos que ajudam a mascarar sua presença dentro do cupinzeiro.
Segundo ele, o besouro também imita o comportamento dos cupins, formando um conjunto de adaptações que dificulta sua identificação como um invasor.
A hipótese da “refeição grátis”
Os exemplares que levaram à descrição da espécie foram coletados em 2014 pelo entomólogo Tiago Carrijo durante uma expedição científica ao norte da Austrália. Na viagem, ele aproveitou para coletar cupins destinados ao acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP).
Enquanto quebrava alguns cupinzeiros, troncos, revirava galhos caídos e cavava os solos (lugares onde os bichos normalmente são encontrados), Tiago se deparou com um ninho erodido, de cerca de 20 cm, onde encontrou o que parecia ser duas espécies diferentes de cupins.
Em entrevista anterior ao Terra da Gente, o entomólogo Tiago Carrijo explicou que, apesar do disfarce eficiente para enganar os cupins, a diferença entre os dois insetos é relativamente fácil de ser percebida pelos seres humanos.
“Apesar de eles conseguirem enganar os cupins, é importante lembrar que os cupins são cegos. Para nós, que enxergamos bem, não é muito difícil perceber a diferença entre o cupim e o besouro”, afirma Tiago Carrijo.
Cupim alimentando o besouro através da trofalaxia estomodeal
Bruno Zilberman e Carlos Moreno
O entomólogo explica que esse tipo de associação entre besouros e cupins não é raro. Existem outras espécies adaptadas a esse modo de vida, inclusive no Brasil, como representantes do gênero Thyreoxenus.
Em diversas espécies de besouros termitófilos, os cupins alimentam os besouros por meio da trofalaxia estomodeal (transferência “boca a boca”), com um líquido alimentar que contém o alimento semidigerido e saliva.
O aparelho bucal da espécie é bastante reduzido, característica que pode indicar dependência dos próprios cupins para conseguir alimento.
Espécie brasileira de besouro termitófilo (Thyreoxenus alakazam), que também apresenta adaptações para viver em colônias de cupins.
Bruno Zilberman e Carlos Moreno
Em diversas espécies de besouros termitófilos, essa alimentação ocorre por meio da trofalaxia, quando operários regurgitam alimento para outros indivíduos da colônia.
Por isso, os autores propõem que a estrutura formada pelo abdômen que imita um cupim funcione como um estímulo para provocar esse comportamento. Apesar da hipótese ser considerada plausível pelos pesquisadores, ela ainda precisa ser confirmada por observações diretas.
Transformação acontece depois da fase adulta
Outro aspecto curioso é que o besouro não nasce com esse formato.
Após sair da pupa, ele passa por um processo conhecido como crescimento pós-imaginal. Somente nessa fase o abdômen continua se expandindo até adquirir a forma que lembra um cupim.
Cupim-do-pasto (Cornitermes cumulans) registrado em Brasília (DF)
Jean Martins / iNaturalist
Esse tipo de transformação ocorre em alguns besouros associados a insetos sociais, mas poucas espécies apresentam um grau de especialização tão extremo.
Austrospirachtha carrijoi é apenas a segunda espécie conhecida do gênero Austrospirachtha. A espécie anterior havia sido descrita cerca de 50 anos antes.
Até a publicação do estudo, apenas fêmeas haviam sido encontradas pelos pesquisadores.
A descoberta amplia o conhecimento sobre um grupo pouco estudado de besouros especializados em viver dentro de cupinzeiros e mostra como a evolução pode produzir estratégias sofisticadas para permitir que um intruso viva dentro de uma das sociedades mais organizadas da natureza.
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