A paz possível entre Israel e o Líbano

Cidades costeiras e bandeiras ao ventoImagem gerada por I.A.

À revelia do Hezbollah, os dois países negociam diretamente para interromper o ciclo de décadas de hostilidades e desatrelar seu destino do regime islâmico.

“Este processo faz brilhar a esperança de que o futuro possa ser diferente.” Com essa frase, Jonathan Conricus, membro sênior do think tank Foundation for Defense of Democracies (FDD), descreveu as negociações entre os governos de Israel e do Líbano na busca pela paz entre os dois países.

Esta movimentação indica a seriedade do governo libanês em seu anunciado plano de livrar-se de décadas de influência do regime iraniano no país, por meio de seu braço político e militar, o Hezbollah. Deve, portanto, ser celebrada. Entretanto, as cenas de revolta e violência registradas nas ruas do Líbano nos últimos dias, protagonizadas por simpatizantes e integrantes do Hezbollah, não permitem muito otimismo. Ao contrário, dão sinais de que mais uma guerra civil pode estar se aproximando.

Algo, no entanto, é certo: o episódio deixa claro quem é a favor da paz entre dois Estados e quem se opõe a ela. Há, sim, o que comemorar, mas também é preciso reconhecer que “há um longo caminho pela frente. Afinal, este não é um anúncio de paz, mas um processo”, afirma Conricus.

A perspectiva israelense

Para Israel, o mais importante é que, além das negociações diretas em curso com o governo libanês, o entendimento em discussão prevê a continuidade da presença do Exército israelense no sul do Líbano até que o Hezbollah seja neutralizado. Segundo o plano traçado, as Forças de Defesa de Israel (IDF) se retirarão gradualmente do território atualmente ocupado na medida em que as forças libanesas avancem e assumam, de fato, o controle dessas áreas. Caberá a elas concluir a remoção do Hezbollah.

O grupo terrorista xiita, por sua vez, está em sua situação mais delicada. Antes do início da atual guerra no Oriente Médio, em outubro de 2023, o grupo tinha em seu poder, segundo estimativas israelenses, entre 130 mil e 150 mil foguetes e mísseis e, portanto, capacidade bélica para atingir profundamente Israel. Depois de ser submetido à Operação Pager, da eliminação de seu líder, Hassan Nasrallah, e de praticamente toda a sua primeira linha de comando, parte das garras do Hezbollah, há décadas fincadas em solo libanês, foi cortada.

Israel abriu, assim, à força, o espaço necessário para que o país volte às mãos do Estado. Agora, chega a vez de o governo libanês agir.

O que prevê o entendimento

Os itens do entendimento negociado entre os dois países são promissores e claros: o governo libanês quer retomar a autonomia sobre todo o território e concentrar em suas mãos o monopólio estatal sobre o uso da força. Isso exigirá o desarmamento completo dos chamados “grupos armados não estatais”.

Não será fácil. Afinal, o Hezbollah é, ainda hoje, uma organização muito mais poderosa do que as Forças Armadas Libanesas (FAL). Isso está refletido em praticamente todos os aspectos: do poder de fogo à experiência em combate, dos salários pagos aos combatentes à estrutura e à rede internacional de apoio que lhe permite intimidar seus oponentes.

O desafio do governo libanês será demonstrar que possui capacidade política e militar para implementar essas medidas sem mergulhar o país em um novo conflito interno. Ao mesmo tempo, Israel buscará garantias de que a fronteira norte deixe de representar uma ameaça permanente para sua população civil, condição considerada indispensável para uma estabilidade duradoura.

Será um caminho longo e difícil, mas possível, cujo resultado pode ser uma paz provavelmente imperfeita e que exigirá vigilância constante.

Ainda assim, vale o risco e o esforço.

Torçamos.

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