O “líder judeu” da Revolução de 32

Bandeira de IsraelBanco de Imagens/Pexels

“A História se repete como tragédia; depois, como farsa.” A conhecida observação de Karl Marx talvez merecesse um complemento. Em determinadas épocas, ela sequer se preocupa em mudar de roteiro. Apenas troca os nomes dos personagens, moderniza o vocabulário e reapresenta os mesmos preconceitos.

Neste 9 de Julho, São Paulo celebra a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento que marcou a resistência paulista em defesa da ordem constitucional e da limitação do poder central. Entretanto, há um episódio pouco lembrado, quase escondido nas margens da memória nacional. Um dos principais líderes civis daquele movimento, Armando de Salles Oliveira, tornou-se alvo de uma campanha de difamação alimentada pelo antissemitismo político que começava a ganhar espaço também no Brasil.

Armando de Salles Oliveira não precisava ser judeu. Bastava que fosse apresentado como tal.

A propaganda jamais dependeu da realidade. Sempre dependeu da utilidade.

Engenheiro, administrador, interventor federal em São Paulo, posteriormente governador do Estado e fundador da Universidade de São Paulo, Armando de Salles Oliveira transformou-se em uma das maiores referências do constitucionalismo brasileiro. Exatamente por isso tornou-se também alvo preferencial daqueles que preferiam destruir reputações a enfrentar argumentos.

Entre essas vozes destacava-se Gustavo Barroso, um dos mais influentes intelectuais da Ação Integralista Brasileira. Fascinado pelas teorias conspiratórias importadas da Europa, Barroso difundia a ideia de que existiria uma conspiração judaica internacional destinada a controlar governos, bancos, universidades, imprensa e revoluções. Os infames Protocolos dos Sábios de Sião, hoje reconhecidos mundialmente como uma fraude histórica, serviam-lhe como fundamento intelectual.

Dentro dessa lógica delirante, pouco importavam os fatos. Qualquer adversário político poderia ser transformado em agente de uma suposta conspiração internacional. Armando de Salles Oliveira converteu-se em um desses símbolos.

A acusação possuía uma extraordinária vantagem para seus autores: era impossível refutá-la. A ausência de provas apenas confirmaria a habilidade dos conspiradores em ocultar suas próprias pegadas. Assim funcionam todas as teorias conspiratórias. Elas não dialogam com a realidade; alimentam-se justamente da incapacidade de demonstrá-la.

Quase um século nos separa daqueles acontecimentos. O mundo mudou. Regimes nasceram e desapareceram. Muralhas caíram. A tecnologia revolucionou a comunicação. Contudo, certas estruturas mentais parecem atravessar o tempo com impressionante facilidade. Hoje, dificilmente alguém recorrerá ao mesmo panfleto integralista dos anos 1930. Em compensação, multiplicam-se nas redes sociais afirmações segundo as quais “os sionistas controlam os bancos”, “os sionistas dominam a imprensa”, “os sionistas manipulam o Congresso”, “os sionistas comandam o Judiciário”, “os sionistas determinam as guerras”. O personagem mudou. A narrativa permaneceu rigorosamente a mesma.

É evidente que governos, inclusive o de Israel, podem e devem ser objeto de críticas. Democracias vivem do dissenso. Outra coisa, completamente distinta, consiste em transformar milhões de pessoas em uma entidade homogênea, dotada de poderes ocultos e responsável pelos acontecimentos do planeta. Nesse instante deixa-se a política para ingressar no território clássico do preconceito.

O antissemitismo nunca necessitou de judeus. Necessitou apenas da figura imaginária do judeu.

Foi exatamente isso que ocorreu na década de 1930.

Foi exatamente isso que permitiu transformar Armando de Salles Oliveira em personagem de uma fantasia política que dispensava qualquer compromisso com os fatos.

Talvez seja essa a lição menos lembrada da Revolução Constitucionalista. A defesa da Constituição não exige apenas instituições sólidas, eleições livres ou separação entre os Poderes.

Exige igualmente a proteção da verdade histórica contra a sedução das teorias conspiratórias. Democracias não morrem apenas pela força. Muitas vezes começam a adoecer quando substituem o debate racional pela fabricação sistemática de inimigos invisíveis.

Ao recordar o 9 de julho, vale celebrar os homens que defenderam a Constituição. Mas vale também recordar aqueles que tentaram destruí-los por meio da mentira.

A História continua repetindo antigos preconceitos.

Cabe às novas gerações impedir que continuem encontrando novos públicos.

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