Trabalho por app vira alternativa para vítimas de violência

Insatisfeitos com a Uber e a 99, motoristas criam seus próprios appsFreePik

Jéssica Moura

Após ser agredida e ameaçada de morte pelo ex-marido, Nany Cardoso decidiu denunciá-lo e pedir o divórcio. Sem emprego e morando de favor na casa do irmão com as três filhas, alugou um carro para trabalhar como motorista de aplicativo em Niterói (RJ).

“No começo, chegava a ficar 17 horas trabalhando direto. Tinha que trabalhar dobrado para cobrir o aluguel do carro e ainda sobrar. Apesar de tudo, foi o que fez minha vida melhorar, trouxe renda para cuidar das crianças e sustentar a casa”, relata.

Casos como o de Cardoso se repetem no Brasil. Em 2024, 187,9 mil mulheres foram alvo de violência doméstica, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A dependência econômica é um dos fatores que dificultam que as mulheres ponham fim a esses relacionamentos: 61% das vítimas afirmaram ter deixado de denunciar os parceiros por depender deles financeiramente.

“As mulheres têm dificuldade de romper com as agressões porque percebem que não conseguem sobreviver sozinhas. Dependem da renda do marido e, quando se dão conta de que precisam se manter, precisam buscar uma fonte de renda”, explica a professora Noézia Ramos, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Renda para romper violência

Ao tentar ingressar no mercado de trabalho, essas mulheres se deparam com outras dificuldades, como altas taxas de desemprego: 72,1% dos homens em idade ativa estão empregados, contra 53,1% das mulheres, segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT).

Outro problema é o desequilíbrio na distribuição do trabalho doméstico. De acordo com a OIT, 31,7% das mulheres em idade ativa não procuram trabalho porque têm de cuidar de filhos, parentes ou da casa.

Na dinâmica da violência doméstica, 17,1% das mulheres são impedidas de trabalhar ou estudar pelos maridos. Com menor instrução e experiência, o trabalho informal se torna uma alternativa para quem não consegue uma colocação. Nesse cenário, uma das opções é o transporte por aplicativo. Para Ramos, as plataformas são “uma alternativa em um cenário de desespero”.

A advogada Andrea Sampaio, que pesquisou a categoria em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), afirma que o trabalho por aplicativo oferece uma oportunidade rápida de geração de renda e maior autonomia para as mulheres. “É uma atividade que dá segurança para escolher estar ou não em um relacionamento e que permite conciliar trabalho e vida pessoal.”

Segundo o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a renda média mensal líquida dos motoristas varia de R$ 3.083 a R$ 4,4 mil.

Ganho imediato e flexibilidade

O trabalho nos aplicativos de transporte em Porto Alegre (RS) foi a solução para as dificuldades de Julia Monteiro. Há três, ela estava desempregada e era agredida pela ex-mulher.

“Ela me deu socos, me empurrou da escada e tentou me enforcar. Então essa foi uma oportunidade de sair de casa, dava um alívio não sofrer violências no tempo em que estava trabalhando, e também me dava um bom retorno financeiro”, conta Monteiro.

Um levantamento de 2025 da consultoria Think Eva avaliou o perfil das motoristas. Para 73% das entrevistadas, a possibilidade de ganho imediato é o principal fator para optar por esse trabalho. Outras 37% disseram que ganham mais como motoristas do que no emprego anterior. Cerca de 78% disseram que a flexibilidade de horários é um dos principais atrativos.

A motorista Nany Cardoso só trabalha no período da noite para ter tempo de ficar com as filhas durante o dia. “Posso levar ao médico, participar das festas na escola, coisa que o emprego CLT não me permitia”. Ela diz que “dá para ganhar um dinheiro bom se você trabalhar muito”.

Custo da autonomia

Ao todo, 103,3 mil mulheres atuam atualmente como motoristas de aplicativo, segundo dados do Cebrap. O número é 62% maior do que há quatro anos. Apesar do crescimento, elas representam apenas 6% do 1,7 milhão de motoristas do país. Ainda que a atividade permita alcançar autonomia financeira, especialistas apontam que o trabalho por aplicativo é marcado pela precarização.

“Há uma sensação de que estão trabalhando para si mesmas, mas falta proteção social em casos de acidente ou doença. Também faltam políticas públicas e creches. Já presenciei mulheres trabalhando com os filhos no carro por não terem onde deixá-los”, afirma Sampaio.

Um estudo da OIT e da ONU Mulheres realizado em países da América Latina, além de Portugal, Espanha e Andorra, apontou que mulheres ganham, em média, 40% menos do que homens nas plataformas de transporte por aplicativo. Para Noézia Ramos, parte dessa diferença pode estar relacionada à menor disponibilidade de tempo para trabalhar.

“Se as mulheres enfrentam uma tripla jornada, cuidando dos filhos, da casa e do trabalho remunerado, elas acabam rodando menos. Além disso, preconceito contra mulheres ao volante pode influenciar avaliações feitas pelos passageiros”, afirma.

A presidente do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), Carina Trindade, conta que resolveu testar as plataformas. “Em uma roda com homens e mulheres, ligamos o aplicativo todos juntos e na maioria das vezes, tocou primeiro para eles. O valor das corridas para os homens também era maior”.

Questionada sobre o assunto, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne representantes de plataformas como 99, Buser, Flixbus, Lalamove, Uber e Zé Delivery, informou que não há qualquer tipo de diferenciação de remuneração de viagens baseada em gênero dos condutores.

“Oscilações no preço das viagens são influenciadas por fatores como tempo e distância dos deslocamentos, categoria da viagem escolhida, níveis de oferta e demanda por corridas no horário e local específico, entre outros”, afirmou em nota.

Assédio e insegurança

Mais do que questões econômicas, as motoristas enfrentam desafios quanto à insegurança no volante. De acordo com um levantamento da plataforma GigU, 59% das motoristas afirmam que já foram assediadas, assim como 97% das passageiras. “Isso é bem pesado. Eu preciso falar grosso quando os caras estão de conversinha para ver se entendem”, afirma Trindade.

Cardoso foi alvo de assalto. “No fim da tarde, quando desembarquei uma passageira e passei em uma rua deserta, um homem que estava de moto parou meu carro, disse que não podia andar Uber ali e puxou meu telefone”.

Desde 2020, as empresas passaram a ofertar entre as opções de corrida as que tinham mulheres na direção. “Nunca sabemos se realmente é uma mulher ou homem. Aceitamos, acreditando ser uma passageira, mas elas podem chamar a corrida para eles e colocam as motoristas em risco. Se desistem da corrida, podem ser bloqueadas por excesso de cancelamentos”, afirma Trindade.

A Uber e a 99 estão entre as maiores plataformas do país. A primeira diz que faz campanhas educativas com motoristas para evitar comportamentos inapropriados. Já a 99 alega que nos últimos dois anos investiu R$ 125 milhões no desenvolvimento de ferramentas de segurança, o que resultou na queda de 33% dos incidentes sexuais graves com mulheres.

Apesar das dificuldades, Cardoso diz que vai continuar trabalhando como motorista. “Já estou com 50 anos, entrar no mercado de trabalho é mais difícil. Meu sonho agora é terminar de construir minha casa”.

Autor: Jéssica Moura

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