O pedido partiu da Polícia Federal. A suspeita é de que Valdemar, que não tem mandato, controlava a indicação de emendas parlamentares dentro da Câmara dos Deputados, com a ajuda de três servidores da Casa.
A base da investigação são diálogos encontrados no celular de uma servidora. Neles, de acordo com a PF, o presidente do PL aparece decidindo valores, escolhendo municípios e trocando destinos de emendas.
“Marquei com o Valdemar amanhã 10:30”, escreve um assessor em uma das mensagens. “Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?”
Os “24” são R$ 24 milhões em emendas parlamentares, segundo a PF.
Por lei, só parlamentares podem indicar emendas. Valdemar é ex-deputado e não tem prerrogativa para destinar recursos do orçamento.
A origem da investigação
Além do bloqueio, Dino mandou suspender, imediatamente, todos os pagamentos das emendas sob suspeita. São pelo menos 21 emendas, empenhadas ou pagas, num total de R$ 119.216.703,15 — o valor que a PF calcula ter sido desviado.
A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025. Na ocasião, a PF apreendeu o celular de Mariângela Fialek, servidora da Câmara apontada como peça-chave na distribuição das emendas do chamado “orçamento secreto”.
Foi nesse celular que os diálogos apareceram.
“As do Valdemar já estamos terminando de cadastrar”
As conversas envolvem três servidores da Câmara: a própria Mariângela Fialek, chamada de “Tuca”; Nara Benedetti Nicolau Brum, lotada na liderança do PL; e Garigham Amarante Pinto, advogado com cargo especial na mesma liderança.
Em uma das trocas de mensagens, Fialek pergunta a Nara: “Vc tem a planilha Codevasf.? Passou pra ele?”
A resposta de Nara faz referência direta ao presidente do PL: “ok. As do valdemar já estamos terminando de cadastrar”.
Para os investigadores, Nara era quem viabilizava tecnicamente as indicações: encaminhava planilhas, explicava limites regimentais e pedia ajustes.
Nas mensagens dela, as indicações aparecem marcadas como “do Valdemar” ou “do VCN” — abreviação que, segundo a investigação, se refere de forma consistente a Valdemar Costa Neto.
O emissário
Garigham tinha outro papel: era o contato direto com Valdemar, descrito pela investigação como um emissário do presidente do partido.
Em 25 de agosto de 2025, ele avisa Fialek: “Marquei com o Valdemar amanhã 10:30”. E emenda: “Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?”
Fialek pede calma. Diz que vai passar “quanto”. Garigham insiste: “Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismos”.
No dia seguinte, ele cobra uma resposta: “Fechou o valor do Pres Valdemar?”
Fialek responde: “Se puder trocar tudo turismo ótimo”.
Garigham fecha: “24 milhoes tá bom”.
Horas depois, o assessor envia nova mensagem: “Voltei do VCN”. Em seguida, ele encaminha uma lista com municípios, CNPJs e a palavra “Turismo” ao lado de boa parte dos nomes.
Para a PF, trata-se da lista dos R$ 24 milhões.
“O Valdemar pediu pra trocar”
Dois dias depois, em 28 de agosto, Nara envia uma planilha intitulada “Alteração em Turismo – VCN”.
Fialek responde: “Já tenho”.
Nara corrige: “Não, o Valdemar pediu pra trocar algumas das indicações que ele fez ontem em turismo, porque os municípios não iriam conseguir executar”.
Segundo a investigação, Valdemar não apenas indicava as emendas: revisava as indicações, trocava municípios e ajustava valores.
Nara chegou a relatar, nas conversas, que Valdemar “não aceitaria mudanças” nos destinos definidos — mesmo diante de obstáculos técnicos.
O registro em nome de deputados
Como Valdemar não tem mandato, as emendas não podiam ser registradas em nome dele. Segundo a PF, a solução encontrada foi registrar deputados federais como “solicitantes” das indicações.
Para os investigadores, o registro formal em nome de parlamentares servia para ocultar o verdadeiro autor das indicações.
A PF cruzou as planilhas do celular de Fialek com o Portal da Transparência e encontrou pelo menos 21 emendas atribuídas a Valdemar que foram empenhadas ou pagas, num total de R$ 119 milhões. Desse valor, R$ 104 milhões já foram pagos.
Os recursos foram para áreas como saúde, turismo e esporte. A maioria dos municípios beneficiados fica em São Paulo.
O que diz o ministro
Na decisão, Dino menciona a “espantosa ascendência” que os servidores atribuíam a Valdemar — em contraste com a “ausência de título jurídico” que permitisse ao ex-deputado dispor do orçamento.
O ministro afirma ainda que os espaços permitidos às emendas parlamentares “não degradam o Erário à condição de patrimônio privado”, passível de divisão em cotas entre partidos e seus dirigentes.
A suspeita principal é de peculato-desvio: quando servidores públicos dão ao dinheiro público um destino diferente do previsto em lei, em benefício próprio ou de terceiros. A pena vai de 2 a 12 anos de prisão. Também se investiga associação criminosa.
A PGR se manifestou contra as medidas cautelares, mas defendeu a continuidade das investigações e o rastreamento dos valores. Dino acolheu os pedidos da PF em parte.
O ministro também determinou que a Câmara entregue, em 10 dias, todos os documentos internos de tramitação das 21 emendas.
A decisão não registra manifestação das defesas de Valdemar Costa Neto e dos servidores citados. A eventual participação de deputados federais no esquema, por ação ou omissão, ainda será apurada, segundo a investigação.
Valdemar é suspeito de indicação irregular de emendas
