
Dados do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE/SC) apontam que existe uma “economia” nos investimentos em prevenção de desastres no estado catarinense, pelo menos desde 2016. Os dados apontam que, ano após ano, apenas uma parcela do orçamento previsto foi de fato executado. A prática contraria as recentes medidas inéditas de decreto de alerta climático, criadas para preparar o estado contra possíveis danos causados por chuvas e alagamentos durante a atuação do El Niño, reafirmando a promessa de que o Estado está preparado para lidar com o evento climático. Segundo os dados, em 2025, por exemplo, apenas 52% do orçamento para gestão de riscos foi executado. No ano anterior, 43%. Em 2016, o valor amargou 10% dos recursos devidamente destinados, que incluem verbas da Defesa Civil. À DW, Leandro Granemann, auditor fiscal à frente da Coordenadoria de Contas de Gestão II do TCE/SC, afirma que o estado tem recursos para fazer, mas falta executar, seja por falta de capacidade ou de planejamento.
Ou seja, existe um descompasso entre o planejamento orçamentário e a execução das ações e políticas públicas. Ainda conforme os dados, em 2026 esse padrão se repete, sendo que nos quatro primeiros meses do ano o investimento em melhorias de serviços da Defesa Civil e em reformas de barragens foi nulo, por exemplo.
A situação se torna mais preocupante devido a um aumento no risco de desastres. Em 2023 e 2024, Santa Catarina enfrentou chuvas intensas, também influenciadas por El Niño, tendo 114 mil desabrigados.
No aspecto financeiro, o custo dos danos passou de R$1,8 bilhão, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento Regional. O levantamento também aponta que 14 pessoas morreram.
João de Deus Medeiros, presidente do Conselho Regional de Biologia de Santa Catarina, realizou um levantamento com base nos últimos cinco anos com base em dados do Portal da Transparência.
Segundo os achados, Santa Catarina deixou de aplicar R$ 432 milhões (cerca de um quarto do custo dos danos) que tinham sido destinados inicialmente para a Defesa Civil.
A economia seria suficiente para financiar 20 vezes a obra de desassoreamento dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste, com objetivo de prevenir estragos causados por enchentes, problema recorrente na região.
Para onde vai o que “sobra”
No ano de 2025, aproximadamente R$13 milhões saíram da “gaveta” “Prevenção e Preparação para a Redução de Riscos e Adaptação Climática” e pagaram propagandas feitas pelo governo estadual.
As contas de Medeiros também apontam que, em um desvio de finalidade, a atual administração destinou, somente em 2025, R$ 216 milhões para veicular propagandas em TVs regionais, quase o dobro do período anterior.
O subinvestimento ao longo das décadas se transformou em maior vulnerabilidade do povo catarinense, como na Grande Florianópolis, onde estimam-se 150 mil pessoas vivendo em áreas de risco de deslizamento e alagamento, segundo Paulo Horta, professor no Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao DW.
Por nota, o governo do estado afirmou que o decreto é importante para a preparação operacional, e que, após os relatórios do TCE, reestruturou a administração para ampliar a capacidade de execução.
*Com informações da DW
