
O confronto entre Argentina e Inglaterra é um fenômeno tipo os cometas Halley. Pode levar 20 anos para (res)surgir. Ou 200.
O último encontro em Copas (vitória dos ingleses) foi em 2002. Muitos dos que estarão hoje na frente da TV sequer eram nascidos. Foram cinco no total, de 1962 pra cá.
Desses a Argentina venceu apenas um. Foi em 1986 e o país tinha acabado de ser humilhado na Guerra das Malvinas pela Marinha Real Britânica. Não foi qualquer batalha de videogame. O conflito deixou 649 militares mortos do lado Argentino (metade contabilizada após o afundamento do cruzador ARA General Belgrano).
O Reino Unido computou 255 baixas, a maioria em ataques aéreos. A vitória manteve a área sob domínio inglês, mas se quiser brigar com um argentino é só chamar as Ilhas Malvinas de Falklands.
Na única vitória dos sul-americanos na história do confronto, por 2 a 1, em 1986, Diego Armando Maradona pintou e bordou com os pés e a mão e fez em campo o que os soldados da ditadura argentina não conseguiram fazer quatro anos antes.
Desde então habita é chamado de gênio pelos fãs de futebol e Deus, pelos argentinos. Messi já marcou oito gols na Copa de 2026. E 21 num total de seis participações em Mundiais.
Nenhum deles teve a importância dos dois gols de Maradona contra os ingleses em 1986. Não, nem os dois da final da Copa de 2022 contra a França.
Antes do confronto, o técnico Lionel Scaloni pediu aos torcedores e imprensa esportiva que tratassem a partida como ela é: uma partida de futebol.
Veteranos da Guerra das Malvinas fizeram também um apelo para que o público para respeitasse a memória dos mortos e não confundisse o esporte com uma guerra.
Como se fosse possível.
A memória do conflito hoje está distante de boa parte dos torcedores. Mas Messi, que parecia não precisar provar mais nada a ninguém, terá o grande desafio e repetir os feitos de Maradona para ter direito a habitar um olimpo até hoje habitado pelo mesmo camisa 10. Só então a Argentina poderá dizer que o raio divino caiu duas vezes no mesmo lugar.
