Por que a Régis Bittencourt era chamada de “Rodovia da Morte”

A rodovia liga Taboão da Serra, em São Paulo, a Curitiba, no ParanáDivulgação/ Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)

​Inaugurada em 1961, a Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) foi um marco para a integração e o desenvolvimento do Brasil. Antes de sua construção, a viagem entre as capitais de São Paulo e Paraná era uma jornada demorada, levando cerca de 12 horas em trechos que, muitas vezes, eram de terra. Com a nova rodovia, esse tempo foi drasticamente reduzido. 

A rodovia liga Taboão da Serra, em São Paulo, a Curitiba, no Paraná; sua extensão oficial varia entre 382 e 496 quilômetros, conforme o trecho considerado. Conhecida pelo alto número de acidentes, a via foi considerada uma das mais perigosas do Brasil e ganhou a fama histórica de “Rodovia da Morte”.

Rodovia Régis Bittencourt (BR-116)Reprodução/ Google Maps

A origem do apelido “Rodovia da Morte” 

Dez anos após a inauguração, o intenso fluxo de caminhões e veículos já evidenciava a saturação da Rodovia Régis Bittencourt, refletida no aumento dos congestionamentos e do número de acidentes.

O pico histórico de ocorrências foi registrado na década de 1990. O acidente mais grave da história da chamada “Rodovia da Morte” aconteceu em dezembro de 1993, quando um ônibus que transportava 116 passageiros colidiu com um Fiat Uno e despencou de uma ribanceira no quilômetro 112 da rodovia, nas proximidades de Curitiba. Ao todo, 41 pessoas morreram.

No primeiro semestre de 1996, 138 mortes foram contabilizadas. Em anos anteriores, a via chegou a registrar marcas entre 210 e quase 300 mortes anuais.

Em 1999, foram registrados 3.154 acidentes, uma média de quase nove ocorrências por dia. Ao todo, 185 pessoas morreram e outras 1.239 ficaram feridas. Nos dois primeiros meses de 2000, mais 40 pessoas perderam a vida na rodovia. 

Entre 1995 e 2002, a Rodovia Régis Bittencourt foi quase totalmente duplicada. O único trecho que permaneceu em pista simples ficava entre Miracatu e Juquitiba, na Serra do Cafezal, onde eram registrados cerca de 500 acidentes por ano, uma média de quase 42 por mês. Entre 2010 e 2017, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) contabilizou 3.994 acidentes nesse trecho. 

A duplicação da Serra do Cafezal 

As obras de duplicação do trecho da Serra do Cafezal duraram sete anos. Os trabalhos começaram em 2010 e foram concluídos em dezembro de 2017. A duplicação abrange 30,5 quilômetros de extensão. O trecho vai do km 336,5, em Juquitiba, ao km 367, em Miracatu, ambos no estado de São Paulo. 

Os primeiros 11 quilômetros duplicados foram concluídos nas duas extremidades da Serra do Cafezal e entregues antes de 2013.

Em agosto de 2014, outros 9,5 quilômetros foram liberados para o tráfego.

A duplicação foi concluída em 2017, quando os últimos 10 quilômetros do trecho foram entregues.

A obra levou mais tempo para ser concluída por diversos fatores, entre eles as rigorosas restrições ambientais. O trecho de 30,5 quilômetros atravessa uma área de preservação da Mata Atlântica, o que exigiu estudos de impacto ambiental, o resgate de centenas de espécies de animais e plantas e a construção de passagens para a fauna.

Além disso, o terreno irregular, com desníveis e encostas demandou a construção de quatro túneis, 39 pontes e viadutos, além de obras de estabilização de encostas. A licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para intervenções na região só foi concedida no fim de 2012, permitindo que as obras de maior porte começassem somente em 2013.

As obras de duplicação do trecho da Serra do Cafezal duraram sete anosDivulgação/ Arteris

Após a conclusão das obras, o número de acidentes no trecho diminuiu significativamente. 

Queda nos acidentes após as obras 

A duplicação da Rodovia Régis Bittencourt, especialmente no trecho crítico da Serra do Cafezal, diminuiu significativamente o número de acidentes, mortes e atropelamentos.

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a comparação entre os quatro anos anteriores à conclusão da duplicação (2014 a 2017) e os quatro anos seguintes à entrega da obra (2018 a 2021) mostra uma redução significativa no número de acidentes. As colisões frontais, mais frequentes em pistas simples, caíram 81% e deixaram de registrar mortes no período. Já as colisões traseiras diminuíram 38%, enquanto as laterais tiveram queda de 48%.

No balanço geral, o número total de acidentes foi reduzido em 18%, o de mortes caiu 26% e o de atropelamentos, 45%. 

Além disso, o tempo médio de descida de veículos pesados passou de 3 horas para 25 minutos. 

Como a rodovia se tornou um dos principais corredores logísticos do país

No estado de São Paulo, a Rodovia Régis Bittencourt corta municípios como Embu das Artes, Itapecerica da Serra, São Lourenço da Serra, Juquitiba, Miracatu, Juquiá, Registro, Pariquera-Açu, Jacupiranga, Cajati e Barra do Turvo, atravessando toda a região do Vale do Ribeira. Já no Paraná, a BR-116 passa por Campina Grande do Sul, Quatro Barras, Colombo, Pinhais e Curitiba, onde se integra ao sistema viário da Região Metropolitana.

A rodovia desempenha um papel estratégico no escoamento da produção nacional. É uma das principais rotas de transporte de cargas entre o polo industrial paulista e os estados do Sul, além de facilitar o fluxo de produtos agrícolas, matérias-primas e bens de consumo. Também é essencial para o deslocamento de passageiros e para o turismo, conectando regiões economicamente interdependentes.

A rodovia é utilizada para o transporte de diversos tipos de cargas, principalmente autopeças, eletrônicos, máquinas e equipamentos, fertilizantes, grãos, alimentos, combustíveis e materiais de construção. 

Além de integrar o principal corredor rodoviário que liga os maiores polos econômicos das regiões Sudeste e Sul do Brasil e conecta esses mercados aos principais países da América do Sul, sendo uma rota fundamental para o Mercosul.

Considerada uma das rodovias com maior circulação de veículos pesados do país, a via registra tráfego médio diário superior a 29 mil veículos. Desse total, cerca de 80% são caminhões e ônibus, o que representa aproximadamente 600 mil caminhões por mês.

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