O que o Brasil precisa fazer para potencializar a economia azul?


Quando se fala sobre desenvolvimento econômico no Brasil, o debate gira em torno de commodities, comércio ou até mesmo finanças. O oceano raramente aparece na conversa.
A chamada economia azul, que reúne pesca, turismo, energia offshore, transporte marítimo, biotecnologia marinha e infraestrutura portuária, já movimenta US$ 2,6 trilhões por ano no mercado global (R$ 13,3 trilhões na cotação atual). As projeções indicam que esse volume pode dobrar até 2050.
Com 443 cidades costeiras representando 27% do território nacional, o Brasil é um dos países mais bem posicionados para tratar desse assunto. Na prática, porém, o oceano ainda não é tratado como um grande potencial econômico sustentável.
Para Renato Regazzi, professor do Insper, conselheiro da ABEEMAR e gerente executivo do Sescoop-RJ, o principal obstáculo está na forma como o Brasil enxerga a economia azul.
“O maior entrave é a literacia oceânica, que é a falta de compreensão da população e, principalmente, dos tomadores de decisão sobre o potencial do mar para a prosperidade do Brasil. Precisamos entender que o mar não é só recurso, é um conjunto de setores envolvendo pesca, turismo, portuário, energia, biotecnologia”, explica ele.
Renato Regazzi, professor do Insper, conselheiro da ABEEMAR e gerente executivo do Sescoop-RJ.
Divulgação/Arquivo Pessoal.
Potencial não visível
Antes de falar de economia, vale entender o tamanho do que está em jogo. Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global. São, portanto, uma parte fundamental da regulação climática no mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, do ponto de vista econômico, o setor marítimo movimenta cerca de 80% de todo o comércio mundial, e responde por apenas 2% a 3% das emissões globais.
Não à toa, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou a Década dos Oceanos (2021-2030), colocando o mar no centro das discussões globais. A iniciativa busca reverter o declínio da saúde dos mares e unir governos, cientistas e sociedade em prol da conservação e do uso sustentável
O problema, segundo Regazzi, está na falta de políticas públicas voltadas para aproveitar o que o mar tem a oferecer.
Ele defende que em vez de desenvolver porto, turismo e pesca como se fossem assuntos separados, integrar tudo isso à dinâmica da cidade. E o saneamento básico entra nessa conta também. “Se você destrói a água, você destrói o turismo e impacta a saúde”, diz.
Duas ferramentas que já estão sendo colocadas em prática:
Selo Azul Cidades Costeiras: certificação que reconhece municípios que investem em proteção ambiental, economia azul e qualidade de vida para as comunidades costeiras. Macaé e Niterói já adotam o modelo.
Índice da Economia Azul: classifica as 443 cidades costeiras com base em dados de saneamento e indicadores socioambientais.
O que o Brasil pode replicar
No próprio país, o Rio de Janeiro funciona como referência. A Secretaria de Energia e Economia do Mar e a Secretaria de Meio Ambiente atuam no desenvolvimento de tecnologias para preservação de ecossistemas marinhos, área conhecida como Blue Tech. O Paraná já foi além e aprovou uma lei estadual sobre o tema.
O movimento também avança em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo, Ceará e Bahia. Amapá, Maranhão e Rio Grande do Norte já deram os primeiros passos.
Lá fora, três países servem de inspiração. A França se destaca pela indústria naval e pelos clusters marítimos. Portugal tem um hub de economia azul e criou um padrão curricular de “escolas azuis”. E Barcelona, na Espanha, é referência como cidade inteligente e litorânea integrada.
Para Regazzi, esse movimento deve iniciar nas escolas. “É preciso criar atratividade para o jovem e valorizar os ativos culturais locais, permitindo que a população que já está ali desenvolva produtos singulares de alto valor agregado”, destaca.
Esse debate irá se aprofundar nos dias 25 e 26 de novembro no Tomorrow.Blue Economy Niterói, o maior evento de economia azul das Américas, com foco na construção da agenda regulatória do setor no Brasil. Para participar da construção desse diálogo, garanta o seu ingresso aqui.
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