Posse de casa foi definida no “Tribunal do Crime” do PCC

Casa de alto padrão envolvida em briga em Riviera de São LourençoReprodução

Segundo o Ministério Público de São Paulo, uma disputa no litoral paulista foi levada ao “Tribunal do Crime” do Primeiro Comando da Capital (PCC) para que a facção escolhesse quem estava certo na história. A briga envolvia uma casa de luxo que vale cerca de R$ 2 milhões, e fica localizada em Riviera de São Lourenço, na cidade de Bertioga, em São Paulo.

De acordo com a investigação, o conflito era entre Cléber Azevedo dos Santos, que estava vendendo a casa, e Marcelo de Morais Oliveira, que queria comprar o imóvel. Ambos discordavam sobre o pagamento de R$ 2 milhões, valor relacionado ao que havia sido negociado pela casa. Para resolver o conflito paralelamente, Cléber recorreu voluntariamente ao “Tribunal do Crime”, segundo os promotores.

A descoberta foi feita durante uma investigação, que revelou ligações entre empresários que supostamente lavavam dinheiro e a facção criminosa. O Ministério Público de São Paulo afirma ter encontrado provas de como a disputa teria sido resolvida através dos telefones apreendidos na operação, com mensagens e até uma gravação da reunião do caso.

Em um grupo de WhatsApp com o nome “Assunto Pertinente a casa Riviera”, constava um áudio supostamente gravado durante a sessão de julgamento promovida pela facção. Para o Ministério Público, é provável que o registro tenha sido feito por Alexandre Viriato da Silva, apelidado de “Gordão”.

Nesta gravação, os investigadores reconheceram vozes de supostos líderes da organização, incluindo um homem identificado apenas como “Zoio” e Antonio Carlos Sampaio (conhecido como “Compadre” ou “Kaka”) que já possui condenação por envolvimento em organização criminosa.

Ligação com a facção

Segundo a apuração, Cléber teria recebido ajuda de dois nomes já conhecidos das autoridades para conseguir contato com membros do PCC: Antonio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana. Ambos já haviam sido denunciados durante a Operação Bazaar e também foram presos preventivamente agora. Um dos contatos fornecidos foi o de Leonardo Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho”, citado como uma das figuras de comando da organização; ele também teve a prisão decretada na operação.

Foi por meio dessa articulação, conforme relatam os promotores, que a briga pela propriedade passou a ser analisada dentro da estrutura que o PCC usa para arbitrar conflitos internos.

Os investigadores afirmam que Cléber contou a um interlocutor, em maio de 2023, que havia se reunido na Zona Sul da capital paulista com pessoas ligadas à facção para debater a situação do imóvel.

As trocas de mensagens examinadas mostram que Marcelo de Morais Oliveira não foi sozinho a esse encontro, e estava acompanhado de indivíduos ligados à facção, que teriam pressionado e tentado amedrontar Cléber. Como as partes não chegaram a um consenso, ficou definido que o assunto seria levado à decisão da organização criminosa.

Há ainda outra mensagem em que Cléber menciona dificuldades ligadas ao que chama de “ideias do comando” a respeito do imóvel, afirmando que tudo seria resolvido por meio do chamado “resumo de SP”, termo que, segundo o Ministério Público, também designa o procedimento interno adotado pelo PCC para solucionar conflitos entre pessoas próximas à facção.

A apuração sustenta que Cléber aceitou de forma espontânea participar desse julgamento paralelo conduzido pela facção. Uma vez que ele trata integrantes do PCC como “irmãos”, em diversas mensagens, demonstrando gratidão pelo atendimento e se referindo a Marcelo como “companheiro” do grupo criminoso. Ainda que negue pertencer oficialmente à organização, o MPSP entende que ele aceitava em seguir às normas e à estrutura hierárquica da facção.

Os promotores destacam que este não teria sido um caso isolado: há indícios de que Cléber já havia buscado apoio do PCC em uma disputa anterior, relacionada à compra de um galpão situado na Zona Leste da capital, negócio do qual Leonardo Meirelles e Raphael Flores Rodriguez também eram sócios.

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