A sinceridade é abominada pela política

Dizer o que se pensa, em política, é algo abominado pelos dirigentes de partidos, candidatos ou detentores de mandatos. A sinceridade é vista como algo que tira votos e que precisa ser escondida. Dessa forma, quando alguém fura a bolha e abre o jogo, é desmentido publicamente por seus colegas e aliados. Foi o que aconteceu nos últimos dias com o ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli. Em evento para investidores e representantes do mercado financeiro, ele defendeu o aumento do salário-mínimo, controle de capitais e até o fortalecimento dos bancos públicos para combater a concentração bancária. Foi desautorizado publicamente pela equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou Gabrielli não ser o porta-voz de assuntos econômicos da campanha.

Até aí, tudo bem. Mas o cargo atual de Gabrielli é o seguinte: coordenador do programa de governo da campanha de Lula. Se ele não está autorizado a dizer o que pensa, quem estaria? Nessa situação, no entanto, cabe outra pergunta: alguém duvida que Gabrielli está falando com o aval da maioria dos militantes e dirigentes do PT? Há vozes discordantes no partido, ou aquelas que simplesmente não querem sacudir o bote em meio à campanha, como o ex-ministro Fernando Haddad, que postula o Palácio dos Bandeirantes contra o atual governador Tarcísio de Freitas. Mas a maioria dos petistas pensa como Gabrielli ou é até mais radical em suas ideias econômicas.

O comando do PT sabe que este não é o melhor momento para propagar uma abordagem econômica de esquerda. O páreo presidencial está apertadíssimo e Lula não pode empurrar os eleitores de centro para o colo de Flávio Bolsonaro. Por isso, precisa varrer a discussão econômica para debaixo do tapete e fingir que o rombo nas contas públicas é algo perfeitamente contornável, o que está longe de ser verdade.

A insistência de Gabrielli neste discurso revela outra faceta problemática: a incapacidade de reconhecer que o Estado brasileiro já opera no limite de sua capacidade fiscal. A expansão contínua de gastos obrigatórios, somada à crença de que empresas públicas podem substituir eficiência por voluntarismo político, aprofunda a fragilidade das contas públicas. Essa lógica ignora que o país convive com uma dívida crescente, juros elevados e um ambiente de negócios que responde negativamente quando percebe que a política econômica está sendo guiada por impulsos ideológicos em vez de critérios técnicos.

O discurso que romantiza o protagonismo estatal também desconsidera os efeitos cumulativos de políticas que pressionam o Tesouro sem gerar contrapartidas sustentáveis. Medidas como reajustes acelerados do salário-mínimo, subsídios amplificados e expansão de crédito público podem até produzir ganhos imediatos de popularidade, mas cobram seu preço na forma de inflação, perda de credibilidade e retração do investimento privado. A condução fiscal deixa de ser um instrumento de estabilidade e passa a funcionar como mecanismo de improviso, sempre à espera de que o crescimento futuro resolva desequilíbrios que se acumulam há décadas.

Ao esconder essas escolhas, a campanha de Lula tenta preservar uma imagem de responsabilidade que não se sustenta diante dos fatos. O eleitor é convidado a acreditar que é possível expandir gastos indefinidamente sem enfrentar restrições, como se o Brasil estivesse imune às consequências de decisões fiscais mal calibradas. Essa postura não apenas empobrece a discussão pública, mas também prepara o terreno para novos ciclos de frustração, nos quais promessas generosas esbarram na realidade de um orçamento que já não comporta mais aventuras.

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