
Danyal Babayani
Um complexo subterrâneo construído nas proximidades da instalação nuclear iraniana de Natanz voltou ao centro das atenções internacionais após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerir que o local poderá ser alvo de uma ação militar nos próximos dias. Segundo ele, há suspeitas de que centrífugas de urânio estejam instaladas no local.
“Provavelmente atacaremos aquela área muito em breve. E não há nada que eles possam fazer a respeito”, declarou Trump a jornalistas na terça-feira (21/07).
O Irã reagiu afirmando que poderá “expandir” o conflito caso os Estados Unidos ataquem suas instalações nucleares.
Conhecido em persa como Kūh-e Kolang Gaz Lā, ou “Montanha Pickaxe” (Picareta, em português), o complexo permanece cercado por incertezas. Teerã divulgou poucas informações sobre a instalação, e inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) jamais receberam autorização para visitá-la.
Por isso, grande parte do que se sabe sobre o local resulta de imagens de satélite e avaliações de inteligência, não de observação direta. Embora seja citado com frequência em relatórios dos últimos anos, sua função exata continua desconhecida, o que o transformou em um dos locais mais monitorados do programa nuclear iraniano.
O que se sabe sobre a Montanha Pickaxe
O complexo fica na província de Isfahan, ao sul de Teerã, escavado em uma montanha localizada a cerca de dois quilômetros da usina de enriquecimento de urânio de Natanz. O local, uma das principais instalações nucleares do Irã, foi bombardeado pelos EUA em 2025.
Imagens de satélite divulgadas por empresas como a Maxar Technologies mostram obras em andamento desde 2020. Os registros revelam novas entradas de túneis, estradas de acesso, estruturas de segurança e grandes volumes de rocha removida.
A construção parece ter se intensificado após a explosão que atingiu, em julho de 2020, uma oficina de montagem de centrífugas avançadas em Natanz. As autoridades iranianas classificaram o episódio como um ato de sabotagem.
Meses depois, o governo anunciou planos para construir uma nova instalação subterrânea destinada à montagem de centrífugas avançadas. Segundo Teerã, o novo complexo seria maior, mais moderno e mais protegido que o danificado.
O Institute for Science and International Security, sediado em Washington, estima que partes da instalação estejam entre 80 e 100 metros abaixo da superfície da montanha. Caso essa avaliação esteja correta, o bunker seria mais profundo que muitas das demais instalações nucleares conhecidas do Irã e significativamente mais resistente a ataques aéreos.
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou repetidamente que os inspetores da agência nunca tiveram acesso ao local. Sem inspeções, a entidade não pode verificar a existência de material nuclear, centrífugas ou outros equipamentos sensíveis no interior da instalação.
Relatos sobre transferência de centrífugas
Segundo o jornal americano Wall Street Journal, a inteligência israelense avaliou que o Irã poderia ter transferido milhares de componentes de centrífugas para enriquecimento de urânio ou outros equipamentos sensíveis para o complexo.
De acordo com a reportagem, a movimentação teria ocorrido nos meses seguintes à campanha conjunta de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel em junho de 2025.
Questionado, Trump afirmou que o Irã “pode ter” levado centrífugas para a Montanha Pickaxe, mas acrescentou que não há confirmação dessa hipótese.
Analistas também consideram a possibilidade de o complexo servir futuramente para a produção ou montagem de centrífugas avançadas, caso o Irã decida recuperar ou ampliar essa capacidade.
O governo iraniano sustenta que instalações subterrâneas são necessárias para proteger sua infraestrutura nuclear contra atos de sabotagem e ataques militares. Teerã afirma que seu programa nuclear tem finalidade exclusivamente pacífica e nega buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
Ainda assim, inspetores internacionais e relatórios de inteligência indicam que o país possui cerca de 440 quilos de urânio enriquecido com pureza de até 60%, patamar muito superior ao necessário para uso civil e próximo dos 90% geralmente associados à produção de armas nucleares.
Estrutura resistente a bombas
Para Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Washington Institute for Near East Policy, a relevância estratégica da Montanha Pickaxe está em sua resistência a bombas de penetração profunda e em sua proximidade com o complexo nuclear de Natanz.
Segundo ele, os danos relatados com este tipo de armamento em Fordo e em partes das instalações de Natanz e Isfahan após os bombardeios de junho de 2025 aumentaram ainda mais a importância do local.
“Dadas as preocupações de segurança do Irã, é razoável esperar que futuras atividades de enriquecimento de urânio e até mesmo programas relacionados a armamentos sejam concentrados em um único local fortemente protegido”, afirmou. “A Montanha Pickaxe é a candidata mais lógica para esse papel.”
As chamadas bombas destruidoras de bunkers são projetadas para penetrar o solo antes da detonação. No entanto, mesmo os modelos mais potentes possuem limitações quanto à profundidade que conseguem atingir.
Por isso, especialistas divergem sobre a capacidade dessas armas de destruir um complexo enterrado tão profundamente. O traçado exato dos túneis, sua profundidade e a localização da infraestrutura crítica nunca foram divulgados publicamente.
Seria possível inutilizar a instalação?
Diferentemente de Natanz ou Fordo, onde estruturas importantes foram identificadas ao longo dos anos, é difícil avaliar o impacto potencial de um ataque contra uma instalação construída dentro de uma montanha.
Alguns especialistas argumentam que, em uma eventual operação militar, o objetivo não precisaria ser a destruição completa do complexo. Uma alternativa seria bloquear acessos, danificar entradas de túneis e comprometer a infraestrutura de apoio, tornando o local difícil ou impossível de operar.
Ainda não está claro se a Montanha Pickaxe será utilizada como centro de produção de centrífugas, instalação de enriquecimento de urânio ou apenas como um complexo de apoio altamente protegido.
O que se sabe é que o sigilo em torno do empreendimento, sua localização estratégica e sua escala aparente o transformaram em uma das áreas mais observadas do programa nuclear iraniano, que deve continuar sob intenso escrutínio internacional nos próximos anos.
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Autor: Danyal Babayani
