GCM: maioria das inspetorias funciona em sedes improvisadas

GCM de Parelheiros funciona dentro da Subprefeitura de Parelheiros, na Zona Sul de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps
GCM da Mooca funciona dentro da Autoridade Municipal de Limpeza UrbanaFoto: Reprodução/Google Maps
GCM do Itaim Paulista funciona dentro da Subprefeitura do Itaim Paulista, na Zona Leste de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps

Mais da metade das inspetorias da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo funciona em sedes compartilhadas, seja com outros órgãos públicos ou com outras unidades da corporação, segundo um levantamento realizado pelo iG.

Das 37 inspetorias e comandos operacionais distribuídos pela capital paulista, apenas 16 funcionam em sedes exclusivas. As outras 21 compartilham o imóvel com outros órgãos da administração municipal ou dividem espaço com outra unidade da GCM.

O levantamento foi realizado pelo iG a partir da consulta aos endereços oficiais disponibilizados pela Prefeitura de São Paulo e da confirmação das informações por telefone com as próprias inspetorias.

Algumas unidades se repetem nas listas abaixo por compartilharem o mesmo espaço tanto com outros órgãos públicos quanto com outra inspetoria da GCM. Nesses casos, elas foram incluídas em ambas as categorias para refletir a forma como estão estruturadas atualmente.

Entre as unidades instaladas em imóveis compartilhados com outros órgãos públicos estão:

  • Comando Operacional Norte (Junta Militar)
  • Inspetoria de Santana (Junta Militar)
  • Comando Operacional Sul (Subprefeitura Capela do Socorro)
  • Inspetoria do Ipiranga (Descomplica SP)
  • Inspetoria de Parelheiros (Subprefeitura de Parelheiros)
  • Inspetoria de Aricanduva | Vila Formosa (Centro Educacional e Esportivo Vicente Ítalo Feola)
  • Inspetoria do Itaim Paulista (Subprefeitura do Itaim Paulista)
  • Comando Operacional Oeste (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente)
  • Inspetoria da Lapa (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente)
  • Inspetoria de Perus (Centro Esportivo Perus)
  • Inspetoria de Pinheiros (Subprefeitura de Pinheiros)
  • Inspetoria da Mooca (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana)
  • Inspetoria de Pirituba | Jaraguá (Centro Esportivo Perus)

Já outras unidades dividem o espaço com mais de uma inspetoria da própria GCM:

  • Comando Operacional Norte – Inspetoria de Santana | Tucuruvi
  • Inspetoria de Jaçanã | Tremembé – Inspetoria de Vila Maria | Vila Guilherme
  • Comando Operacional Leste – Inspetoria de Itaquera
  • Inspetoria de Ermelino Matarazzo – Inspetoria de São Miguel Paulista
  • Inspetoria de Guaianases – Inspetoria de São Mateus
  • Comando Operacional Oeste – Inspetoria da Lapa
  • Inspetoria de Perus – Inspetoria de Pirituba | Jaraguá

As unidades com sede exclusiva são:

  • Inspetoria de Freguesia do Ó | Brasilândia
  • Inspetoria de Casa Verde | Cachoeirinha
  • Inspetoria do Campo Limpo
  • Inspetoria Capela do Socorro
  • Inspetoria de Cidade Ademar
  • Inspetoria do Jabaquara
  • Inspetoria de M’Boi Mirim
  • Inspetoria de Santo Amaro
  • Inspetoria de Cidade Tiradentes
  • Inspetoria da Penha
  • Inspetoria de Sapopemba
  • Inspetoria de Vila Prudente
  • Inspetoria de Butantã
  • Comando Operacional Centro
  • Inspetoria Vila Mariana
  • Inspetoria da Sé

Durante a apuração, o iG identificou divergências entre os endereços disponíveis no portal da Prefeitura e a situação atual de algumas unidades. No site municipal, por exemplo, a Inspetoria de Casa Verde | Cachoeirinha aparece instalada no Centro Esportivo Casa Verde. Ao entrar em contato com a unidade, um guarda informou que a inspetoria deixou o local há cerca de dois anos e atualmente funciona em uma sede exclusiva.

Situação semelhante foi verificada na Inspetoria do Jabaquara. Segundo os agentes, a unidade funcionava anteriormente no Centro de Convivência e Cooperação Vila Guarani, mas, após a conclusão das obras de reforma, em março deste ano, passou a ocupar um prédio exclusivo dentro do mesmo terreno.

Desigualdade entre regiões

Mapa mostra a distribuição das inspetorias da GCM na cidade de São Paulo por tipo de sede, segundo levantamento realizado pelo iGArte iG/Beatriz Failla

As diferenças na infraestrutura das inspetorias também aparecem na distribuição das unidades pela cidade.

A Zona Leste concentra o maior número de inspetorias da Guarda Civil Metropolitana (GCM), com 12 unidades, seguida pela Zona Sul, com nove. As zonas Norte e Oeste possuem seis cada, enquanto a região Central reúne quatro unidades.

Apesar de ter o menor número de inspetorias, o Centro concentra a maior proporção de sedes exclusivas: três das quatro unidades funcionam em espaços próprios. A única exceção é a Inspetoria da Mooca, instalada junto à Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb).

Já a Zona Oeste apresenta o cenário oposto. Das seis unidades existentes, cinco funcionam em imóveis compartilhados com outros órgãos públicos e apenas uma possui sede exclusiva. Na Zona Leste, metade das inspetorias divide espaço com outras unidades da própria GCM.

Para o bacharel em Direito, consultor em segurança pública e guarda civil Reinaldo Monteiro, a estrutura das inspetorias deveria ser planejada exclusivamente para as atividades de segurança pública.

“Na minha visão, as inspetorias não deveriam estar misturadas com outros órgãos que não têm relação com segurança pública. Uma inspetoria precisa de espaço para treinamento, capacitação, salas de aula, acondicionamento físico dos profissionais e armazenamento de equipamentos. O ideal é que a gente tenha inspetorias e espaços pensados e desenhados para aquele segmento de segurança pública municipal”. 

Segundo ele, compartilhar o espaço com outros órgãos também pode comprometer a segurança das operações.

O sociólogo Leonardo Ostronoff, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), afirma que a distribuição desigual da infraestrutura entre as regiões também merece atenção.

“Onde a segurança é mais militarizada e o tratamento é mais violento com a população, órgãos como a GCM, que não são polícia e deveriam zelar por uma segurança comunitária e de prevenção, não são a prioridade, possuindo uma estrutura menor. No centro, a exigência é uma ação de segurança menos violenta, uma vez que é mais visível para opinião pública. Dessa forma, a GCM é mais estruturada”. 

“Mal cabe o efetivo”

Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São PauloReprodução/Google Maps

Em entrevista ao iG, três guardas civis municipais relataram problemas enfrentados por trabalharem em inspetorias instaladas dentro de outros órgãos públicos.

Uma das agentes afirmou que a Inspetoria de Parelheiros, localizada dentro da subprefeitura da região, funciona em um espaço reduzido; situação que se arrasta há anos.

“O prédio é minúsculo, mal cabe o efetivo. O guarda se troca em vestiário onde o espaço é para 20, tem 50, por exemplo”

Segundo a guarda, a falta de uma sede exclusiva também dificulta melhorias na estrutura da unidade, uma vez que por não ser da Secretaria de Segurança Urbana, o prédio não recebe verba para reforma ou ampliação. 

Ela afirma que diversos inspetores já solicitaram uma sede própria para a unidade. Enquanto isso, pequenos reparos acabam sendo feitos pelos próprios servidores.

“Os guardas que fazem [a manutenção], às vezes com doações, outras com coisas compradas com adiantamento bancário. Mas geralmente só pintura, limpeza, um cano que quebra… Reforma de verdade, que é o que precisa, não tem.”

Um outro guarda, que já trabalhou na Inspetoria do Itaim Paulista, instalada dentro da subprefeitura, afirmou que a estrutura compartilhada impõe limitações até para atividades rotineiras.

“A gente não pode fazer e mexer em nada. Pra você ter uma ideia, coisas para nós tão irrelevantes, como, por exemplo, lavar uma viatura, pegar uma mangueira ali… ‘Não pode porque não tem mangueira’. ‘Ah, não pode porque é tudo da subprefeitura e eles vão se sentir incomodados de alguma maneira’.”

Segundo ele, qualquer reparo na unidade depende da autorização da subprefeitura, o que torna o processo burocrático.

O guarda também afirma que a circulação de pessoas que procuram serviços administrativos da subprefeitura pode afetar a segurança da unidade.

“Cidadãos que procuram serviços administrativos da Subprefeitura circulam pelo mesmo ambiente que servidores e equipes da GCM, o que pode comprometer a organização e a segurança.”

Na avaliação dele, dividir a estrutura também reduz a autonomia operacional da Guarda.

“A GCM precisa de uma estrutura voltada para atendimento de ocorrências, guarda de equipamentos, estacionamento de viaturas e rápida mobilização. Dividir o espaço pode limitar essas atividades.”

Já um guarda que atuou na Inspetoria da Lapa, localizada junto à Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente e ao Comando Operacional Oeste, afirma que a falta de autonomia sobre o imóvel dificulta até mesmo reformas estruturais.

Segundo ele, outro problema é o compartilhamento do acesso ao imóvel. 

“Todo mundo, por mais que seja prédios diferentes, todo mundo entra pelo mesmo lugar. Entra o pessoal da administração do Parque Villa-Bôas, entra o Comando Oeste pelo nosso portão, entra o pessoal da Secretaria do Verde pelo nosso portão e outros prestadores de serviço. Então impacta muito, tanto no trabalho interno da Guarda como na segurança e em outros sigilos que a gente tem por trabalhar na segurança pública.”

Secretaria de Segurança Urbana é procurada

Juliana Lopes Bussacos, secretária municipal de Segurança Urbana de São PauloReprodução/redes sociais

O iG procurou a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) e a Prefeitura de São Paulo para comentar o levantamento, esclarecer os critérios para a distribuição das inspetorias e informar se há previsão de construção ou transferência de unidades para sedes exclusivas. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. 

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