Cientistas do PA decodificam genoma do açaí e descoberta promete aumentar produção e reduzir preço


UFPA e Embrapa decodificam genoma do açaí em Belém
Uma pesquisa científica desenvolvida no Pará promete impactar a cadeia produtiva do açaí e, no futuro, tornar o fruto mais acessível para os consumidores. Cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), conseguiram decodificar o genoma do açaizeiro.
Na prática, a ciência desenvolveu um “mapa genético” de alta precisão. Com essa ferramenta, é possível identificar, ainda na fase de muda, se a planta terá alta produtividade, se será tolerante à escassez de água ou se terá capacidade de produzir durante o período de entressafra.
O produtor de açaí precisava ter paciência para saber se o seu investimento traria o retorno esperado. Descobrir se um açaizeiro seria realmente produtivo exigia anos de observação direta no campo.
“Você tem que acompanhar pelo menos cinco safras, ou seja, cinco anos. Aí depois faz a seleção, produz as mudas, planta, espera produzir e avalia por mais cinco anos”, explica a pesquisadora da Embrapa, Socorro Padilha.
Com o sequenciamento genético, esse cenário pode mudar. A identificação das características mais vantajosas para o cultivo agora pode ser feita antes mesmo de a planta dar os primeiros frutos, acelerando o melhoramento genético da espécie.
Produção de açaí
Gea/divulgação
Como o genoma foi decifrado
O trabalho científico levou cerca de dois anos e meio para ser concluído no Laboratório de Engenharia Biológica da UFPA.
Para mapear o código, a Embrapa selecionou amostras de folhas e raízes de duas variedades de açaí em três estágios diferentes de desenvolvimento do fruto: quando ainda estava pequeno, no início da transição para a cor roxa e, por fim, já maduro.
No laboratório, os pesquisadores extraíram o DNA das células e realizaram a leitura de milhares de pequenos fragmentos genéticos. Com o auxílio de programas de computador especializados, as informações foram ordenadas até que o genoma completo fosse decifrado.
“São mais de 3 bilhões de letras que compõem esse código que dá todo o funcionamento da planta, que explica todas as suas características: a sua produção de frutos, a sua produção de moléculas de alto valor, a sua resistência ambiental e as suas necessidades fisiológicas”, detalha Diego Assis, pesquisador da UFPA.
De acordo com o pesquisador, sem o mapa genético, o melhoramento das plantas ocorria de forma muito empírica. “É como se fosse uma criança que você não sabe exatamente qual vai ser a altura dela e tem que esperar o crescimento. Quando você genotipa desde o início, consegue fazer essa identificação muito antes do desenvolvimento”, compara Assis.
Benefícios
A tecnologia abre caminhos para solucionar gargalos históricos da produção de açaí no estado, que é o maior produtor nacional do fruto.
Para quem cultiva em áreas de terra firme, a possibilidade de selecionar plantas tolerantes à seca significa uma redução direta nos custos com sistemas de irrigação.
Já a identificação de variedades que produzem na entressafra deve estabilizar o mercado ao longo do ano.
“Se a gente conseguir obter materiais que produzem na entressafra, vai ser bom tanto para o produtor quanto para o consumidor. Nós vamos conseguir reduzir esse efeito da baixa oferta no período da entressafra”, aponta Elisa Moura, pesquisadora da Embrapa.
Ela destaca que o sequenciamento oferece “novas ferramentas para auxiliar no melhoramento genético do açaizeiro”, tornando o processo mais direcionado e de menor custo.
Nova fronteira para a bioeconomia
Embora o açaí seja o pilar da agricultura paraense, a decodificação do genoma também abre portas para outros setores industriais.
O mapeamento ajuda a identificar os genes responsáveis pela produção de antocianinas, que são pigmentos naturais que possuem alto valor de mercado para as indústrias farmacêutica e de cosméticos.
De acordo com os cientistas, o próximo passo da pesquisa é a chamada “genômica de população”, que consiste no sequenciamento de novas linhagens de açaí para mapear toda a variabilidade genética da planta.
“A partir da informação genética contida no genoma do açaí, a gente consegue fazer a produção de moléculas de altíssimo valor agregado para verticalizar a bioeconomia da cadeia”, projeta Diego Assis.
Para Elisa Moura, o sequenciamento é um marco divisório para o futuro da cultura no estado. “Agora nós temos um ponto de partida importante. Temos um leque muito grande de oportunidades e possibilidades”, finaliza.
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