Legado empresarial: Sandra Chayo revela como a Hope atravessou gerações

A continuidade de uma empresa familiar depende da capacidade de formar lideranças, descentralizar decisões e construir processos que sobrevivam à saída do fundador. Durante participação no programa Manifeste-se, da BM&C News, Sandra Chayo analisou como a Hope atravessou gerações ao combinar sucessão, inovação e preservação dos valores estabelecidos por seu pai, fundador da companhia em 1966.

Na avaliação da empresária, líderes que associam a própria identidade ao negócio tendem a concentrar responsabilidades e dificultar a autonomia da organização. O legado, portanto, não está na permanência do fundador no centro das operações, mas na criação de uma estrutura capaz de manter sua relevância ao longo do tempo.

“Legado de verdade não é sobre ser o centro das atenções, é construir uma estrutura que não precisa de você para continuar relevante. Eu sou a Sandra e a Hope é o meu legado, não o meu ego. Quando o negócio vira extensão do ego, ele morre com o dono. Quando vira legado, ele atravessa gerações”, afirma Sandra Chayo.

Reposicionamento reduziu concentração de receitas

Formada em arquitetura, Sandra entrou na empresa inicialmente para realizar um estágio e compreender os desafios enfrentados pela fábrica. Ao acompanhar a operação, identificou a possibilidade de transformar uma fabricante de produtos básicos em uma marca com maior diferenciação, presença no varejo e relacionamento direto com o consumidor.

Naquele período, 70% do faturamento da Hope vinha de vendas para lojas de departamento, distribuídas entre apenas seis clientes. Metade da receita estava concentrada em uma única companhia, as Lojas Americanas. Essa exposição levou a empresa a revisar seu modelo de distribuição e investir na abertura de lojas monomarca e franquias em shopping centers.

“Eu enxerguei a oportunidade de empreender dentro da empresa que meu pai tinha criado lá atrás, de transformar ela numa outra coisa”, relata Sandra Chayo.

Autonomia permitiu reformular o negócio

A transformação foi favorecida pela postura do fundador, que concedia autonomia às filhas e aceitava a possibilidade de erros durante o processo de aprendizagem. Em vez de preservar integralmente o modelo existente, a família reformulou produtos, posicionamento e canais de venda para acompanhar as mudanças no mercado e no comportamento dos consumidores.

A entrada no varejo permitiu agregar valor à Hope e reduzir a dependência das grandes redes. Segundo Sandra, empresas do setor que permaneceram restritas ao modelo industrial perderam espaço ou deixaram o mercado, enquanto a companhia ampliou sua presença por meio das lojas próprias e do sistema de franquias.

“Meu pai não era essa pessoa. Ele destruía o negócio dele todo dia, se precisasse, para criar algo que pudesse ser maior. Ele não dava autonomia, ele delargava, não delegava, ele delargava e dava autonomia”, explica Sandra Chayo.

Pandemia ampliou exposição da liderança

A necessidade de comunicação direta tornou-se mais evidente em 2020, após a morte do fundador e o fechamento do comércio durante a pandemia. Com cerca de 200 franqueados, além de milhares de funcionários ligados à operação, Sandra passou a realizar transmissões semanais para apresentar as medidas adotadas pela companhia e manter o relacionamento com a rede.

O período também modificou sua relação com a exposição pública. Apesar do medo de falar diante das câmeras, a empresária passou a representar pessoalmente a marca e a produzir conteúdos sobre liderança, sucessão e gestão. Paralelamente, a Hope ampliou o portfólio para moda íntima masculina, pijamas, produtos esportivos e outras categorias associadas ao posicionamento da empresa.

“Eu senti que eu precisava aparecer. Aí comecei as lives. Tive que perder todo o medo que eu tinha de uma câmera”, recorda Sandra Chayo.

Propósito conecta marca, consumidores e franqueados

A trajetória da Hope mostra que a sucessão empresarial não se resume à transferência de cargos ou participações societárias. O processo envolve reduzir riscos de concentração, preparar novas lideranças, atualizar o modelo comercial e preservar um propósito capaz de conectar funcionários, franqueados e consumidores.

Para Sandra, o legado se concretiza quando a empresa produz impactos que permanecem além dos resultados financeiros. A continuidade da marca dependerá, portanto, da capacidade de inovar sem abandonar sua identidade, adaptar-se às mudanças de consumo e manter uma estrutura que não dependa de uma única liderança para continuar relevante.

 

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