O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (27) trouxe uma nova redução na projeção de inflação para 2026, mas mostrou deterioração nas estimativas para os anos seguintes. O movimento reforça o desafio enfrentado pelo Banco Central para conduzir as expectativas de inflação em direção à meta.
A mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 caiu de 5,15% para 5,12%. Para 2027, porém, a estimativa subiu de 4,20% para 4,22%, enquanto a projeção para 2028 passou de 3,78% para 3,80%.
Na avaliação de Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o relatório apresenta sinais distintos quando considerados os horizontes de curto e longo prazo.
“O Focus desta semana tem dois lados”, afirmou Natalie Victal.
Boletim Focus mostra alívio concentrado em 2026
No curto prazo, a continuidade da queda na projeção para o IPCA de 2026 representa um sinal de alívio. O movimento indica que os analistas consultados pelo Banco Central passaram a considerar uma trajetória ligeiramente menor para os preços neste ano.
Essa melhora, no entanto, ainda não se espalhou para os horizontes seguintes. A elevação das projeções para 2027 e 2028 mostra que parte do mercado continua enxergando dificuldades para uma convergência mais consistente da inflação.
“No curto prazo, houve alívio, com a inflação de 2026 seguindo em queda, mas é um alívio de curto prazo”, ponderou Natalie Victal.
Segundo a economista, o comportamento do petróleo também representa um risco para as projeções. A volta das cotações à faixa de US$ 90 ainda não estaria totalmente incorporada às estimativas dos analistas, o que poderia gerar novas pressões sobre os preços.
Estabilidade da mediana esconde aumento da dispersão
Para 2029, a mediana das expectativas de inflação permaneceu em 3,50%. Esse número é acompanhado pelo mercado e pelo Banco Central por estar em um horizonte menos afetado por oscilações temporárias da economia.
Apesar da estabilidade, Natalie destaca que os dados abaixo da mediana mostram um quadro mais pressionado. A média das projeções voltou a subir, enquanto a dispersão entre as estimativas dos analistas aumentou.
Com isso, a distância entre média e mediana alcançou o maior nível em meses. Na prática, um grupo maior de instituições passou a trabalhar com projeções superiores, embora a mediana ainda não tenha mudado.
“A panela de pressão se intensificou. A mediana só não se moveu porque está represada em um número redondo, mas a pressão altista vem se acumulando”, explicou Natalie Victal.
A alta da mediana para 2028 reforça essa leitura. A projeção voltou a subir nesta semana, dando continuidade ao movimento observado no levantamento anterior.
Expectativas permanecem como desafio para o Banco Central
A diferença entre a melhora de 2026 e a deterioração dos horizontes seguintes aumenta a complexidade das decisões de política monetária. O Banco Central acompanha as expectativas de longo prazo porque elas influenciam negociações salariais, contratos, reajustes de preços e decisões de investimento.
Quando as projeções permanecem elevadas ou apresentam maior dispersão, cresce o risco de que os agentes econômicos passem a incorporar uma inflação mais alta em suas decisões. Esse processo pode tornar a convergência para a meta mais lenta e exigir a manutenção de condições monetárias restritivas por mais tempo.
O mercado manteve a estimativa de Selic em 14% ao fim de 2026. Para 2027, a projeção permanece em 12%, enquanto a expectativa para 2028 está em 10,50%.
PIB de 2027 tem nova redução
No campo da atividade econômica, a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto em 2026 permaneceu em 1,99%. Para 2027, a estimativa foi reduzida de 1,65% para 1,60%. A previsão para 2028 continuou em 2%.
As projeções mostram uma combinação de crescimento moderado, juros elevados e expectativas de inflação ainda pressionadas nos horizontes mais longos. Esse cenário deve continuar no centro das avaliações do Comitê de Política Monetária nas próximas decisões sobre a Selic.
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