Pirassununga une natureza, ciência e cultura em histórias que atravessam gerações


Pirassununga une natureza, ciência e cultura em histórias que atravessam gerações.
Crédito: Reprodução EPTV
Entre as águas do rio Mogi Guaçu, as matas que abrigam centenas de espécies e as histórias que atravessam gerações, Pirassununga (SP) construiu uma identidade marcada pela relação entre natureza, ciência e cultura.
Com 73.545 habitantes, o município, que possui o peixe como símbolo, atualmente tem uma economia baseada em serviços, indústrias, agronegócio e turismo. Além disso, ele se tornou cenário de pesquisas sobre biodiversidade e de histórias que ficaram marcadas na música e ganharam destaque na televisão.
“Pirassununga é uma cidade muito acolhedora. Está no nosso DNA essa acolhida. Uma cidade tranquila pra se morar, pra se viver”, afirma o historiador Roberto Bragagnolo.
Cachoeira de Emas em Pirassununga.
Crédito: Reprodução EPTV
A cidade que ajudou a inspirar o Terra da Gente
Antes de alcançar o desenvolvimento atual, a história do município esteve ligada às águas do rio Mogi Guaçu. Foi na região da Cachoeira de Emas que uma produção sobre a reprodução dos peixes ajudou a inspirar a criação do programa Terra da Gente.
Em 1992, a equipe do programa acompanhou a migração dos peixes durante a piracema e registrou o comportamento dos animais durante uma jornada de mais de 600 quilômetros. O documentário se tornou uma referência do jornalismo ambiental e ajudou a aproximar o público da biodiversidade dos rios brasileiros.
“Até hoje, todos se lembram com muito carinho daquele momento que retratou a nossa Pirassununga, Cachoeira de Emas, enfim, o nosso ecossistema”, afirma Bragagnolo.
E a relação entre a cidade e o programa não terminou no documentário, pois ao longo dos anos, equipes do Terra da Gente desenvolveram vários programas. Junto a pesquisadores Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Espécies Continentais (CEPA), localizado em Pirassununga, percorreram a Amazônia e o Pantanal, em trabalhos de coleta de material genético de peixes.
O centro atua na conservação da biodiversidade aquática continental, com atenção principalmente às espécies de peixes ameaçadas de extinção. Segundo a analista ambiental Izabel Book de Garcia, o trabalho desenvolvido no local contribui para a produção de informações utilizadas em políticas públicas de conservação em todo o país.
Área de preservação no campus da Universidade de São Paulo (USP), em Pirassununga.
Crédito: Reprodução EPTV
Biodiversidade dentro da USP
A natureza de Pirassununga não está restrita às margens dos rios. O campus da Universidade de São Paulo (USP) também funciona como um refúgio para a fauna e a flora. Mais de 30% da área do campus é formada por matas nativas e áreas de preservação ecológica, reunindo oito lagos que atraem diferentes espécies de animais.
“Tem área de mata, tem área de corpos d’água, então acaba atraindo muitas espécies. Fica próximo da cidade, mas é uma área muito extensa, então acaba que muitos animais vêm pra cá e acabam vivendo aqui”, explica a bióloga Tamires Sardinha.
Toda essa biodiversidade virou objeto de pesquisa com a participação da comunidade a partir do projeto ‘Clique Silvestre’. O objetivo é incentivar visitantes a fotografarem animais encontrados no campus e compartilhar os registros por meio do aplicativo iNaturalist.
A iniciativa, segundo a bióloga Maria Eduarda Pralon Guerra, funciona como uma forma de aproximar a população da produção científica, pois as imagens registradas pelos visitantes podem ser utilizadas como dados para pesquisas.
O projeto já contabilizou mais de 3,5 mil registros e identificou 420 espécies no campus. Entre os animais observados estão aves, mamíferos, répteis e invertebrados. Há registros de lontras, tamanduás-mirins e veados-catingueiros, além de diferentes espécies de aves.
“Recentemente a gente viu lontra, que foi bem legal. Já recebemos registros de tamanduá-mirim, de veado-catingueiro. Então são vários animais. É tudo, mamíferos, aves, répteis e invertebrados também”, conta Maria Eduarda.
Para Tamires, muito além das possibilidades científicas, a observação da fauna também é uma forma de criar vínculos com o espaço. Ela conta que chegou a esperar meses para conseguir registrar um tuiuiú no campus e só conseguiu graças a uma amiga que avisou sobre a aparição da ave.
“Vim pra cá, a gente conseguiu fazer um registro bem legal. Era um dia que tinha tuiuiú, tinha colhereiro, tinha cabeça-seca (…) quando eu entrei no grupo, lembro que tinha 30 pessoas no grupo. Hoje somos mais de 400 observadores”, explica Tamires.
Projeto de pesquisa ‘Clique Silvestre’ da Universidade de São Paulo (USP) com a comunidade de Pirassununga.
Crédito: Reprodução EPTV
Da natureza para a música caipira
A relação de Pirassununga com a natureza também aparece na cultura. As águas da Cachoeira de Emas serviram de inspiração para o compositor Nenête, um dos principais nomes ligados à música caipira.
Valdemar Castelardi Franceschi nasceu em Santa Adélia e chegou ainda criança a Pirassununga, onde construiu sua trajetória artística. Segundo Bragagnolo, Nenête compôs e gravou mais de 400 músicas e teve participação importante na valorização da música de raiz.
A dupla Nenête e Dorinho ganhou destaque entre as décadas de 1950 e 1970. Em determinado momento, os músicos passaram a se apresentar com um sanfoneiro e ficaram conhecidos como o trio de ouro do rádio brasileiro.
“Nenête foi um grande cantor e compositor aqui da nossa cidade, de Pirassununga. Eu desde jovem, era um grande fã de Nenête, procurava sempre cantar o repertório de Nenête e Dorinho”, lembra o cantor Osvaldo Hipóllito.
LP da dupla Nenete e Dorinho.
Crédito: Reprodução EPTV
A carreira não ficou restrita apenas às composições, mas ele também atuou como diretor e produtor artístico da gravadora RCA Victor, Nenête trabalhou com artistas que se tornariam conhecidos nacionalmente.
“Ele foi um dos diretores da RCA Victor, que era uma multinacional, era a principal gravadora na época, aqui no país. Ele chegou a ser diretor, produtor artístico. E só pela RCA, para você ter uma ideia, ele gravou 60 discos em 78 rotações, 22 LPs, que eram os Long Plays. 26 compactos duplos e 16 compactos simples. Só em uma gravadora”, diz Bragagnolo
Apesar da projeção nacional, Nenête manteve a ligação com Pirassununga. A Cachoeira de Emas, cenário que já havia sido registrado pelo Terra da Gente, também apareceu em sua obra. A música dedicada ao local se tornou conhecida entre os moradores e, segundo o historiador, passou a ser considerada por muitos pirassununguenses como uma espécie de segundo hino do município.
Músicos de Pirassununga, Osvaldo Hipóllito e Serginho Cavaquinho, mantendo a tradição da viola.
Crédito: Reprodução EPTV
Tradição que reúne música, fé e gastronomia
O legado do compositor também inspirou a criação da Semana Nenêt, festa dedicada à cultura caipira e às tradições populares. O evento nasceu com uma proposta de valorizar a cultura do campo e ouvir as histórias de moradores da zona rural reunindo música, religiosidade e culinária.
Segundo o historiador, a festa começou com uma reza do terço e uma procissão que partia da zona rural, acompanhada pela imagem de Nossa Senhora, padroeira do evento. Ao longo dos anos, a celebração cresceu e chegou a receber 120 mil pessoas em quatro dias, reunindo visitantes de diferentes regiões.
“Nenét acabou sendo uma vitrine da cultura popular tradicional, a cultura caipira. A gente começou a traduzir isso, essa cultura, na escuta, ouvindo as pessoas, ouvindo o sitiante, o homem do campo”, conclui o historiador.
Semana Nenêt.
Crédito: Reprodução EPTV
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