Crise global de enxofre afeta produção de fertilizantes e gera escassez no Brasil


Enxofre está em falta no Brasil.
Reprodução/Jornal Nacional
O fechamento do Estreito de Ormuz tem provocado uma crise global no fornecimento de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes e utilizada por diferentes setores da indústria. Além da alta nos preços, a escassez do insumo já afeta empresas brasileiras.
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Pelo estreito, uma das principais rotas marítimas do mundo, circulam petróleo, gás natural e cerca de metade do enxofre transportado por via marítima no planeta.
Com o prolongamento da guerra entre Estados Unidos e Irã, o enxofre se tornou um insumo cada vez mais valioso e difícil de encontrar. Desde o início do conflito, o preço da matéria-prima quase triplicou. Apesar de uma redução recente, o valor ainda está em cerca do dobro do registrado antes da guerra.
O enxofre é a base do ácido sulfúrico, utilizado por diversos setores da indústria.
“Fertilizantes, papel e celulose, produção de bateria e outros equipamentos para a tecnologia, como chips e painéis voltaicos. É bastante estratégico. Historicamente, ele já foi inclusive um indicativo da industrialização de um país, de tão estratégico que é”, diz Maristhela Marin, pesquisadora do Instituto Mauá de Tecnologia.
A maior parte do enxofre utilizado no Brasil é importada. Além disso, países produtores, como China e Rússia, suspenderam ou restringiram as exportações para proteger seus estoques.
Um dos setores mais afetados pela dificuldade de acesso à matéria-prima é o de fertilizantes. O enxofre usado pela indústria nacional de adubos vem do refino de petróleo e gás e é transformado em ácido sulfúrico, empregado na extração de compostos ricos em fósforo das rochas. O fertilizante produzido com esse nutriente é fundamental para as lavouras.
Diante da escassez, algumas fábricas de fertilizantes paralisaram ou reduziram as atividades.
“A gente vê uma demanda aumentar de cadeias que pagam uma margem maior do que a cadeia de fertilizante e a agricultura. A gente está vendo um choque de oferta e demanda nunca visto antes no mercado global de enxofre e ácido sulfúrico”, diz Bernardo Silva, diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes.
Escassez de flúor preocupa empresas de saneamento
A redução na produção de fertilizantes tem provocado efeitos em outros setores. Empresas de saneamento afirmam enfrentar dificuldades para obter flúor, subproduto da fabricação de adubos.
Por lei, a substância deve ser adicionada à água consumida pela população para ajudar na prevenção de cáries.
Segundo a associação que representa as companhias de água e esgoto, os estoques de algumas empresas devem acabar ainda neste mês.
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“Num primeiro momento, houve um acréscimo muito grande do valor do flúor, em aproximadamente 300%. Mas agora a gente já está vivendo um cenário de escassez. O problema mudou: não é mais um produto caro, agora é um produto que não existe para ser comprado”, diz Christianne Dias, diretora-presidente da Associação Brasileira de Empresas de Saneamento (ABCON).
Representantes da indústria afirmam que uma das saídas para enfrentar a crise é buscar novas fontes de enxofre.
“A gente tem que olhar outras tecnologias de recuperação de enxofre de outras cadeias, seja a cadeia metalúrgica, a cadeia de mineração, ou mesmo trazer novas tecnologias, como biotecnologias, que possam agregar à produção desse enxofre e permitir que a indústria opere com menos risco”, diz Bernardo Silva.
Procurado peno JN, o Ministério da Saúde foi questionado sobre os impactos de uma eventual interrupção da adição de flúor à água caso os estoques das empresas de saneamento não sejam repostos. Em nota, a pasta informou que qualquer flexibilização da legislação sobre o tema é de competência do Congresso Nacional.
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