
Em 2013, quando o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa, tomou uma decisão inédita até então. Pela primeira vez na história da Igreja Católica, um pontífice escolheu chamar-se Francisco. O gesto não foi apenas simbólico. O novo papa declarou que desejava seguir o exemplo do santo italiano, uma igreja mais simples, próxima dos pobres e comprometida com a justiça social e o cuidado com a criação.
Essa imagem associada à simplicidade, à compaixão e ao cuidado com a criação, atravessou séculos e ajudou a transformar São Francisco em um dos santos mais populares e venerados da Igreja Católica.
Mas antes de tornar-se símbolo da simplicidade, Francisco foi filho de uma das famílias mais prósperas de Assis.
O filho da burguesia que abandonou tudo
Francisco era filho de Pietro di Bernardone, um rico comerciante, e de Pica Bourlemont, uma mulher de origem nobre, provavelmente ligada à região da Provença, no sul da França.

A família Bernardone fazia parte de uma nova camada social que ganhava força na Europa medieval: a burguesia urbana. Diferentemente da antiga nobreza, que baseava sua riqueza principalmente na posse de terras, os burgueses enriqueceram com o comércio, especialmente nas cidades que começavam a crescer durante o renascimento comercial do século XII.
Seu pai em particular, vendia tecidos finos importados da França e Francisco cresceu em um ambiente de riqueza, cercado por oportunidades que muitos jovens de sua época jamais teriam: educação, roupas luxuosas, contatos comerciais e a possibilidade de ascender socialmente.
Ainda na juventude Francisco era conhecido por seu gosto por festas, música e pelo desejo de conquistar prestígio. Inspirado pelos ideais de cavalaria da época, sonhava em se tornar um guerreiro famoso e conquistar honra nos campos de batalha.
Entretanto, algumas experiências vividas quando ainda era jovem alteraram profundamente sua percepção sobre riqueza, poder e prestígio. Após participar do conflito entre Assis e Perugia, em 1202, Francisco foi capturado e permaneceu como prisioneiro durante aproximadamente um ano. O contato com a derrota e a fragilidade humana contribuiu para um processo de distanciamento dos valores que até então orientavam sua vida.
Ao retornar à sua cidade, Francisco passou por uma mudança gradual de comportamento. Afastou-se dos círculos aristocráticos e das celebrações da elite urbana, dedicando cada vez mais atenção aos pobres, aos doentes e aos grupos marginalizados pela sociedade medieval, especialmente os leprosos, que eram frequentemente excluídos do convívio social.
A igreja medieval e o reformador
Esse movimento de aproximação com os setores mais vulneráveis pela parte de Francisco não ocorreu isoladamente. A Europa medieval vivia um período de crescimento urbano, aumento das desigualdades sociais e questionamentos sobre a distância entre os ideais evangélicos de pobreza e a riqueza acumulada por setores da Igreja. Nesse contexto surgiram diversos movimentos religiosos que defendiam uma vida mais próxima dos ensinamentos de Cristo. Essas tensões, somadas a debates teológicos, disputas políticas e críticas acumuladas ao longo dos séculos, fariam parte de um processo histórico mais amplo que, séculos depois, contribuiria para o ambiente de transformações religiosas que culminaria na Reforma Protestante do século XVI.

Francisco, porém, não propôs uma ruptura com a Igreja Católica, muito pelo contrário, sua proposta estava baseada na renovação espiritual por meio do exemplo pessoal. Ao abandonar os privilégios e escolher uma vida de pobreza voluntária, ele estabeleceu uma crítica prática aos valores de sua época, sem transformar sua mensagem em uma contestação institucional ao cristianismo oficial
Um dos episódios mais simbólicos dessa transformação ocorreu diante do bispo de Assis, quando Francisco renunciou publicamente aos bens herdados de sua família. A partir daquele momento, passou a viver como um pregador itinerante, restaurando pequenas igrejas, auxiliando os necessitados e reunindo ao seu redor um grupo de seguidores que compartilham o ideal de simplicidade e serviço.
O movimento iniciado por aquele jovem filho de comerciantes, inicialmente pequeno e visto com estranhamento por parte da sociedade medieval, acabaria sendo reconhecido pela própria Igreja e se transformaria em uma das mais importantes ordens religiosas da história do cristianismo.
A criação da Ordem Franciscana
A proposta apresentada por Francisco era profundamente inovadora para o século XIII. Em uma época em que muitas instituições religiosas possuíam grandes propriedades e acumulavam riquezas, os chamados Frades Menores defendiam uma forma de vida baseada na ausência de bens materiais individuais. Eles não buscavam construir um patrimônio próprio, mas viver do trabalho, da ajuda recebida e da proximidade com as populações mais pobres.

A expansão do movimento chamou a atenção da Igreja Católica. Em 1209, Francisco viajou até Roma para apresentar sua proposta ao papa Inocêncio III, que concedeu uma aprovação inicial à comunidade. Esse reconhecimento foi decisivo, pois permitiu que o movimento permanecesse dentro da estrutura oficial da Igreja em um período marcado pelo surgimento de grupos religiosos que eram vistos como ameaças à autoridade papal.
Nos anos seguintes, a pequena comunidade de Assis transformou-se rapidamente em uma das maiores forças religiosas da Europa medieval. Milhares de homens passaram a seguir o ideal franciscano, levando sua mensagem para diferentes regiões do continente. A ordem se destacou não apenas pela pregação religiosa, mas também pela atuação em áreas urbanas, onde seus membros mantinham contato direto com comerciantes, trabalhadores, pobres e doentes.
A influência de Francisco também alcançou as mulheres. Em parceria com Clara de Assis, uma jovem pertencente à nobreza de Assis que decidiu seguir seus ensinamentos, surgiu a Ordem das Damas Pobres, posteriormente conhecida como Ordem de Santa Clara. As clarissas adotaram o mesmo ideal de pobreza e dedicação espiritual, adaptado à vida religiosa feminina da época.
Mais tarde, nasceu ainda a chamada Terceira Ordem Franciscana, criada para aqueles que desejavam seguir os valores de Francisco sem abandonar suas famílias, profissões e responsabilidades no mundo secular. Dessa forma, o franciscanismo deixou de ser apenas uma ordem de religiosos e transformou-se em um movimento espiritual amplo, capaz de alcançar diferentes setores da sociedade.
A canonização de um santo
Nos últimos anos de sua vida, Francisco de Assis já havia se tornado uma das figuras religiosas mais admiradas da Europa medieval. Entretanto, sua trajetória também foi marcada por dificuldades: a rápida expansão da Ordem Franciscana trouxe desafios para manter o ideal de simplicidade defendido por seu fundador diante do crescimento e da institucionalização do movimento.

Em 1224, segundo a tradição franciscana, Francisco teria vivido um dos episódios mais importantes de sua vida espiritual: a recepção dos estigmas, marcas semelhantes às feridas de Cristo crucificado. O acontecimento reforçou sua imagem de santidade entre seus seguidores e passou a ser interpretado como um sinal de profunda união espiritual com Jesus.
Doente e com a saúde fragilizada pelos anos de dedicação à vida religiosa, Francisco morreu em 3 de outubro de 1226, aos cerca de 45 anos, na cidade de Assis. Sua morte, porém, não representou o fim de sua influência. Pelo contrário, sua memória rapidamente se transformou em um dos maiores símbolos religiosos da cristandade medieval.
Apenas dois anos após sua morte, em 16 de julho de 1228, o papa Gregório IX declarou Francisco oficialmente santo. A rapidez do processo de canonização demonstra a dimensão de sua popularidade e a importância que a Igreja atribuía ao movimento criado por ele. Em um período em que o papado buscava fortalecer sua presença espiritual e responder às transformações sociais da Europa, Francisco representava uma forma de religiosidade capaz de aproximar a instituição dos fiéis comuns.
Sua canonização também consolidou uma mudança na forma como a santidade era percebida na Idade Média. Francisco não havia sido um rei, um bispo poderoso ou um grande teólogo ligado às elites religiosas. Sua autoridade vinha de uma vida dedicada à simplicidade, à caridade e ao contato direto com os excluídos.
O santo dos animais e da natureza
Entre as imagens mais conhecidas associadas a Francisco de Assis está a do homem que conversava com os animais e enxergava a natureza como uma expressão da criação divina.

Segundo a tradição cristã, Francisco acreditava que todos os elementos da criação estavam ligados por uma mesma origem. Para ele, animais, plantas, rios e seres humanos faziam parte de uma grande comunidade criada por Deus. Essa visão aparece em relatos que atravessaram gerações, como o episódio em que teria pregado aos pássaros ou a história do lobo de Gúbio, um animal que, segundo a tradição, aterrorizava uma comunidade e teria sido pacificado pelo santo.
Embora muitos desses relatos pertençam ao campo da tradição religiosa e da memória popular, eles ajudaram a construir a imagem de Francisco como um homem que buscava uma relação de harmonia entre a humanidade e a natureza. Sua mensagem estava ligada à humildade e à ideia de que o ser humano não deveria enxergar a criação apenas como algo a ser dominado, mas como uma responsabilidade de cuidado.
Em 1979, o papa João Paulo II declarou oficialmente São Francisco de Assis como padroeiro dos que se dedicam à ecologia, reconhecendo a importância simbólica de sua mensagem em um período de crescente preocupação mundial com a preservação ambiental.
Sua ligação com os animais permanece viva até hoje. Todos os anos, em 4 de outubro, data dedicada à sua memória no calendário católico, diversas igrejas realizam cerimônias de bênção dos animais, reunindo pessoas que levam seus cães, gatos e outros animais de estimação para receber uma oração.
800º aniversário da morte de São Francisco de Assis.
Oito séculos após a morte de Francisco de Assis, sua mensagem continua sendo lembrada em um mundo marcado por conflitos, divisões e desafios ambientais.
Nesta quarta-feira (29), durante as celebrações pelo 800º aniversário de sua morte, o Vaticano promoverá um encontro de oração e comunhão pela paz no Borgo Laudato Si’, em Castel Gandolfo na Itália, reunindo o papa Leão XIV, o tenor Andrea Bocelli e mais de 160 crianças e jovens de diferentes partes do mundo. Inspirado no “Cântico das Criaturas”, escrito por Francisco no século XIII, o evento resgatará uma das ideias centrais do santo: a compreensão de que todos os seres fazem parte de uma mesma criação e que a paz depende da fraternidade, do diálogo e do cuidado com a vida.
A participação dos jovens do projeto ABF Voices of Global Gathering, vindos de regiões como a Terra Santa, Uganda e Itália, dará ao encontro um significado ainda maior. A celebração reforçará como a mensagem de Francisco ultrapassou os limites religiosos e permanece ainda atual.
